Festa do Cinema Francês
Maxime (Niels Schneider) em 'As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos. | Fotografia: Divulgação

Festa do Cinema Francês. ‘As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos’ é um diálogo sobre o amor

O filme de Emmanuel Mouret é um dos destaques da programação do festival no seu sétimo dia em Lisboa.

As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos, de Emmanuel Mouret é o filme em destaque no sétimo dia da Festa do Cinema Francês (13) no Cinema São Jorge, em Lisboa. O drama romântico – que rapidamente se transforma em comédia – é uma encruzilhada de pequenas histórias sentimentais, contadas em analepse, que se cruzam de forma inesperada para unir todas as personagens sob uma mesma máxima: o amor e a moral nem sempre tocam em sintonia.

O princípio é abrupto. Maxime (Niels Schneider) é um jovem tradutor com o sonho de se tornar romancista que ruma até à casa de campo do primo, François (Vincent Macaigne), para se afastar do desgosto amoroso que viveu em Paris. No entanto, quem o recebe na moradia é a esposa do primo, Daphné (Camélia Jordana). Durante os quatro dias em que esperam pelo regresso de François, preso na cidade devido ao trabalho, Maxime e Daphné partilham, num ritmo acelerado, histórias de amor passadas e longas reflexões sobre a vida sentimental.

Desengane-se quem pensa que este filme é um cliché – pelo menos, daqueles pré-fabricados em estúdios de Hollywood -, mesmo que contenha muitos. Como o protagonista afirma, no seu tom comedido (que induz, enganosamente, uma personalidade de santo), “não gostaria de escrever livros românticos, mas livros sobre sentimentos”. Se As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos abusa das analepses e prolepses, é somente para, no final, nos surpreender por completo.

A premissa rapidamente é derrotada, no entanto, quando durante os 122 minutos do filme só se fala, exclusivamente, em amor romântico e desejo – que nem sempre andam a par e passo. Traições haverá muitas, o que leva a questionar se todos não estariam mais felizes em abandonar a monogamia. Infelizmente, não é assim tão simples. Mais do que homens e mulheres vítimas das suas vontades, as personagens representam teses das várias conceções de amor que proclamam. Queda apenas um consenso: a escolha certa não existe e nem sempre conduz à felicidade.

Da paisagem campestre idílica em que se encontram Maxime e Daphné, rodeados de monumentos históricos, a narrativa ruma para as desventuras de ambos em Paris com os respetivos parceiros, que contam um ao outro de forma intercalada, depois de miradas intensas para a câmara. O jovem estava envolvido num estranho quadrado amoroso entre Victoire (Julia Piaton), Sandra (Jenna Thiam) e o melhor amigo, Gaspard (Guillaume Gouix). Como Sandra, o objeto do seu desejo, escolhe uma e outra vez Gaspard em seu lugar, Maxime abandona-os aos dois, após várias desventuras tragicómicas.

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Daphné (Camélia Jordana) e François (Vincent Macaigne) em Paris. | Fotografia: Divulgação

Se Sandra representa a femme fatale citadina, que segue os seus instintos amorosos sem olhar a estragos, Daphné é a mulher-anjo, mas nem por isso mais pura. Afinal, estão ambas sujeitas às mesmas forças poderosas. No final, serão as suas escolhas e não os seus atos que as vão definir.

Nos diálogos, encontram-se pistas subtis do que poderá acontecer em seguida. Todas as personagens falam em parágrafos que é necessário escutar. A falta de naturalidade é rapidamente aceite pelo espectador, uma vez mergulhado no enredo aliciante. A verdadeira reviravolta chega pelas mãos de Louise (Émilie Dequenne), a ex-mulher de François e talvez a única que, para os padrões sociais em voga, age corretamente – e é por isso, discutivelmente, a mais infeliz.

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Maxime (Niels Schneider) e Daphné (Camélia Jordana). | Fotografia: Divulgação

No fundo, as traições não são o mais importante. Como explica Daphné e Louise coloca em prática, motivadas pelo documentário em que a primeira trabalhava, “desejar é desejar o desejo do outro – amar, é outra coisa” – é a teoria do efeito mimético. Mas o que nos mostram deixa abertura para interpretações.

As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos, apresentado no sétimo dia da Festa do Cinema Francês em Lisboa, mostra que talvez o desejo e o amor não se possam separar com um bisturi. E é possível que um final menos romântico seja igualmente feliz, se não mais, que um falso “e viveram todos felizes para sempre”.

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