O Espalha-Factos terminou. Sabe mais aqui.
Nikke Allen em entrevista ao Espalha-Factos na Eurovisão 2019
Nikke Allen, fã da Eurovisão paraplégica que há décadas viaja pelo mundo a acompanhar o Festival, em entrevista ao Espalha-Factos - Telavive, 2019 (Fotografia: Diogo Leal Magalhães / EF)

Espalha-Factos, obrigado pela companhia. E até breve, que adeus é longe demais

Neste que é o nosso último dia, vou deixar de lado qualquer institucionalismo, e vou escrever sobre o que significaram todos os dias desta história, que foi mais longa do que alguma vez imaginei. Perdoem-me desde já a parcialidade do relato. Foram 6328 dias, desde que soou o primeiro “boa tarde” do Espalha-Factos, pequeno magazine de 30 minutos que acordou para a vida numa rádio que é Boa Nova.

O EF surgiu, no longínquo verão de 2005, por um motivo simples: eu não tinha mais que fazer. Tinha 14 anos, energia para gastar e um sonho por cumprir queria comunicar, ser aceite e ter alguma utilidade. Na vida todos procuramos propósito e podemos encontrá-lo nos mais diversos objetivos; eu sentia que o meu propósito naquela altura se concretizaria se conseguisse, de forma simples, juntar informação e música para que as notícias chegassem a pessoas da minha idade.

Na altura, para abraçar esse sonho, de fazer rádio, e ter alguém do outro lado, a passar aquele tempinho comigo, na intimidade que só a voz nos permite, deixei para trás um outro projeto, que já serão muito poucos a lembrar-se que um dia existiu, e que era um site chamado Novidades da TV, que tive entre os 12 e os 16 anos, mais coisa menos coisa. 

Comecei a medo, com muito respeitinho, como deve ser. Fiz oito emissões gravadas. Numa delas, um erro de montagem trocou os takes, as músicas e os sons todos, e foi aí que decidi, também com a ajuda e insistência do meu pai, antigo locutor e fundador de uma rádio pirata, que para ser, tinha de ser em direto. Foi o Espalha-Factos que me deu o meu primeiro direto. E os primeiros 300. 

Só voltei aos sites quatro anos depois deste primeiro direto, em 2009. Porque já não conseguia conter o EF nos documentos Word do guião que trabalhava todas as semanas, porque achava que era um desperdício fazer, e apagar, e fazer tudo de novo, sem ficar registo em lado nenhum. E para voar mais alto, quis chamar mais gente para fazer isto, exatamente da mesma forma que eu fazia até ali na rádio voluntariamente, por amor à camisola. Parece estranho conseguir motivar gente para escrever, e ter o seu trabalho público e avaliado por todos os que o quiserem ler, sem receber nada em troca, mas foi o que fizemos aqui. 

“Graças ao Espalha-Factos cumpri o abraço apertado que sempre quis dar à Simone de Oliveira”

O Espalha-Factos viveu, ao longo de 17 anos, da coragem de quem, sem receber muito de volta, teve o atrevimento de lançar o seu trabalho às feras. E todos sabemos que, online, proliferam as feras do teclado. Em quase duas décadas, trabalhei com quase mil pessoas, entre sugerir temas, rever textos, discutir conteúdos, dar feedback. E sempre em teletrabalho, mesmo quando ainda não sabíamos o que isso era. Muitas dessas pessoas ficaram minhas amigas, e como em todas as amizades, fomos felizes e infelizes, celebrámos e discutimos. 

Jantares de Equipa EF, Lisboa e Porto - Natal 2019
Jantares de Equipa EF, Lisboa e Porto – Natal 2019

As coisas foram ficando sérias – cada vez mais gente nos lia, cada vez mais pessoas queriam saber quem éramos e o que fazíamos. Ao Espalha-Factos, além do meu primeiro direto, devo a minha primeira reportagem, a minha primeira crónica, a primeira ida a um festival de verão, a descoberta do que é um “visionamento de imprensa”. 

Graças ao Espalha-Factos cumpri o abraço apertado que sempre quis dar à Simone de Oliveira, vi a surpresa do Herman José quando me viu imberbe e apardalado, a fazer-lhe uma pergunta numa apresentação de grelha e muito rapidamente me questionou se os meus pais sabiam que eu ali estava. Multiplicaram-se conversas e perguntas, e de repente dei conta que o EF já era tema em entrevistas de emprego, aulas da faculdade, e até era citado em exames e testes.

No Espalha-Factos fiz a minha primeira cobertura internacional, na Eurovisão 2018, e quis repetir em Israel, em 2019. E foi também aqui que, pela primeira vez, fiz um podcast. E descobri, mais uma vez, que pela voz, se forjam laços e amizades profundas, com companheiros a quem fiquei ligado por uma química imediata que nunca deixou os ouvintes desconfiar que, antes de fazermos o Fita Isoladora, o Deu no Comando, o Filmes em Série, o EFVisão, entre tantos outros formatos e episódios, só tínhamos estado juntos uma vez, por duas ou três horas.

O Espalha-Factos “foi a luzinha acesa do sonho do jornalismo”

No Espalha-Factos cresci como pessoa e com as pessoas. Foi aqui que tive as primeiras discussões com consequências, e que percebi o impacto que podem ter as palavras ditas, as tais que, qual pedra atirada, nunca voltam atrás. 

Conheci-me a mim mesmo, entendi que não me motivo se não trabalhar por causas comuns, que a força que me alimenta mais é a energia das equipas a construírem em conjunto. Descobri que gosto de partilhar conhecimento, de ensinar, e pelo caminho tirei o curso de formador, dei sessões e workshops, nas quais aprendi sempre muito mais do que aquilo que dei a aprender.

EF Weekend 2022
Grupo de editores do Espalha-Factos em “reunião espontânea” no EF Weekend (Casas da Ribeira, Póvoa Velha, Abril de 2022)

Ao longo de 17 anos, e enquanto a vida foi dando muitas voltas – no associativismo, na política, no marketing, nas relações públicas, na assessoria – o Espalha-Factos continuou aqui. A luzinha acesa da profissão com que sempre tinha sonhado: o jornalismo. Mesmo quando eu já me tinha esquecido que esse sonho vivia cá dentro. 

Uma luz que não se apagou graças ao trabalho conjunto de centenas e centenas de pessoas que, durante este período, emprestaram criatividade e empenho, deram horas e horas de trabalho de pesquisa, de coordenação, de gestão de conteúdos e de equipas. 

Tive e tenho muitos sonhos e esperanças, e descobri no Espalha-Factos que só os posso cumprir se o fizer acompanhado. Nesta longa prosa, não referi o nome de nenhum dos camaradas desta longa jornada, e não o fiz porque as listas telefónicas já acabaram e não quero recuperar, nesta crónica, esse há muito desusado formato, que aqui seria uma longa enunciação de nomes e dos feitos que posso atribuir a quem me acompanhou em tantos projetos e iniciativas.

Todas e todos os que estiveram aqui a manter ligada a luz da informação sobre cultura e entretenimento, feita com amor, dedicação e honestidade, sem preconceito ou medo do julgamento alheio, merecem, neste último dia, o meu agradecimento sincero e profundo.

“O Espalha-Factos não volta a dizer bom dia, ou boa tarde, ou boa noite, amanhã”

Lamento que, desta vez, em mais um momento de crise, como tantos outros que atravessámos, eu já não consiga ter a energia e a força necessárias para levar o Espalha-Factos a bom porto. E peço desculpa por, de forma tão pretensiosa, achar que, se pudesse, o iria conseguir. Quando houve tantas coisas que não consegui. Como, em 17 anos de percurso, não ter encontrado soluções para impedir que um dia nos esgotássemos em nós mesmos. O que acontece hoje. 

Ficam as ideias, que ainda são muitas, e irão permanecer sempre o talento e o trabalho de todas as pessoas incríveis que tive oportunidade de conhecer aqui. E que tiveram a amabilidade de aceitar a boleia para abraçarem um sonho que começou só meu e se fez delas, que se fez de tanta gente.

Francisca Real, antiga diretora do EF, e Pedro Miguel Coelho, em entrevista na RDP
Francisca Real, antiga diretora do EF, e Pedro Miguel Coelho, em entrevista na RDP (Fotografia: Ana Catarina Veiga / Espalha-Factos)

No primeiro “boa tarde”, há 6238 dias, quando me sentei pela primeira vez num estúdio de rádio forrado a cortiça, se alguém me tivesse dito que, 17 anos depois, estaria a fechar um site por onde passou tanta gente boa e talentosa, que foi lido por milhões de pessoas, que teve impacto real que animou, mas também irritou tanta gente, eu não ia ser capaz de imaginar como é que isso podia acontecer. E sou eternamente grato a quem o permitiu.

É muito difícil fechar este texto, por saber que torna real o que, nas últimas três semanas, andei a evitar encarar olhos nos olhos. O Espalha-Factos não volta a dizer bom dia, ou boa tarde, ou boa noite, amanhã. Vai começar um novo ano, mas pela primeira vez em 17, começa sem nós estarmos aqui. 

Levo comigo, para todo o lado, e por onde quer que vá, aquilo que aprendemos e criámos em conjunto. Memórias de um laboratório infindável de histórias e de experiências, contadas sem rede, sem limites a não ser os do nosso bom senso, sem nenhuma censura a atrapalhar-nos. 

Obrigado pela companhia. E até breve, que adeus fica tão longe. Longe demais. A vida continua e a energia da informação andará por aí. 

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  1. O EF perdeu-se nos últimos tempos quando quase só falava de audiências de tv. Tornou se futil. Chegou a hora de: ou voltar ao que era – critica cultural e tambem tv – ou acabar. Tenho pena que tenha sido esta

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