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Entre Leiras | Fonte: IndieLisboa

IndieLisboa 2020: ‘Entre Leiras’ e a importância da genuinidade

Entre Leiras, o documentário de estreia de Cláudia Ribeiro com produção de Uma Pedra no Sapato, estreou este domingo (30), na Competição Nacional do IndieLisboa. Um trabalho etnográfico, que partiu do seu mestrado em Antropologia, o filme acompanha duas irmãs, Ana Maria Glória Madureira da Rocha, que trabalham no campo e dele nunca saíram.

Filmado entre março e outubro de 2017, o filme vai acompanhando a vida das duas irmãs durante todo o ciclo agrícola. Em entrevista à TSF, Cláudia Ribeiro revela todo o processo, desde o início das filmagens até o produto final. “Eu gostava muito daquela zona, houve uma altura em que andei por lá e meti conversa com elas, na altura até inventei que precisava de salsa para meter conversa com aquelas senhoras“.

A atmosfera que se vive em Passinhos de Baixo também captou a realizadora, que admira o silêncio em que se vive ali. “Quando pensei em fazer o filme, pensei fazê-lo nesse local, primeiro pela ambiência em si e depois por aquelas senhoras, primeiro a Dona Glória (…) que estava sozinha e acabou por dedicar mais tempo a nós, que não teria se tivesse uma família em casa todos os dias.”

Três horas de filmagens tornaram-se em uma hora e vinte de filme, com a ajuda de João Miller Guerra, que, como referiu antes da exibição, ajudou a “encontrar um filme no meio das horas de filmagem“. A montagem, dividida entre ele, Raul Domingues e Cláudia, acabou por resultar numa colagem de um dia-a-dia de trabalho rotineiro entrelaçado com cenas da belíssima paisagem do Douro a partir de Marco de Canaveses.

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Entre Leiras ganha pontos pela sua espontaneidade

Cláudia Ribeiro chegou a Passinhos de Baixo já com câmara em punho e auscultadores nos ouvidos: conta que, assim, haveria menos possibilidade de as irmãs começarem as gravações logo com um discurso ensaiado, pois essa não era, de todo, a intenção. A naturalidade era o principal objetivo, que tudo corresse exatamente como se a câmara lá não estivesse.

E assim foi, na maior parte do tempo. As irmãs lavram a terra, conversam entre elas com uma cumplicidade de quem viveu uma vida de trabalho, põem a mesa, caem, levantam-se, cantam. Descansam à sombra por escassos minutos, deixam-se vencer pelo cansaço, mas só por um bocadinho que há muito a fazer.

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Dona Ana, Entre Leiras | Fonte: Walla Post Production Collective

A naturalidade das irmãs em frente às câmaras é surpreendente. Mesmo quando são “flagradas aos palavrões”, riem-se: “A Cláudia depois tira isso!”. A própria realizadora também se transforma numa personagem da longa, ao conversar com as protagonistas fora do plano e passar para este lado da câmara quando ajuda a sachar a terra. “Acha que eu nunca peguei numa sacholinha?”.

Sete meses se passam entre a plantação e a colheita. Dias de nevoeiro característico da serra, dias de trovoada, dias de sol intenso e calor abrasador. A meio do ciclo, Dona Ana reflete sobre o trabalho que fez desde sempre, que é tão subvalorizado por um mundo cada vez mais cosmopolita e acelerado. “Nós somos os maiores cientistas.”, refere. São elas que estão no patamar número um de toda a produção. “Aquilo que vocês compram no supermercado não cai do céu!”.

Depois, mais séria, pondera sobre o que as pessoas da cidade possam pensar de quem faz este trabalho pesado. “Podem achar que eu não tenho conversa, que não percebo de nada por causa da minha maneira de falar. (…) Mas quando eu vou ao Porto, reparo naquelas grandes vinhas, naqueles quintais. Um advogado repara nas coisas dele, eu reparo nas minhas.”

A longa-metragem será exibida novamente no IndieLisboa, a 2 de setembro, no Cinema Ideal.

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