mare of easttown
Imagem: Divulgação / HBO

Crítica. ‘Mare of Easttown’ triunfa, liderado por Kate Winslet

Já chegou ao catálogo da HBO Portugal a mais recente aposta da produtora na ficção. Mare of Easttown, um thriller misterioso liderado pela muito laureada Kate Winslet, acompanhada pelo também premiado Guy Pearce e por Evan Peters. O Espalha-Factos viu os primeiros cinco episódios e analisou-os ao detalhe. Para já, podes assistir ao primeiro na HBO Portugal.

De há uns anos para cá, a HBO, poderosa produtora de televisão e de (algum) cinem,a tem vindo a apostar num tipo específico de série, com bons resultados: um mistério numa cidade pequena onde toda a gente se conhece. True Detective, uma daquelas séries que aparece de 20 em 20 anos, abriu caminho com um poder pouco visto na televisão. Depois seguiu-se Sharp Objects que, apesar de não ter tido o sucesso comercial de True Detective, não lhe fica atrás em praticamente nada. A série seguinte foi Big Little Lies, um projeto que teve mistério como nome do meio. E, mais recentemente, apareceu The Undoing que, embora não seja exatamente o que estamos a falar neste parágrafo, é próximo o suficiente. 

Mare of Easttown é a mais recente adição à família dos mistérios em cidades pequenas onde toda a gente se conhece, e começa lenta. Tão lenta que começa a testar a paciência de cada um. No decorrer do primeiro episódio, as personagens falam e falam, tal e qual uma peça de teatro. É-nos apresentada Mare Sheehan, interpretada pela atriz britânica Kate Winslet. No meio do sotaque bem forçado da Pensilvânia, Winslet parece uma mulher que já teve melhores dias. 

Sempre com resposta na ponta da língua, como uma arma sempre pronta a disparar, Mare Sheehan vai exercendo o seu dever de detetive em Easttown, uma pequena cidade do estado da Pensilvânia, ela própria quase uma personagem desta história. Toda a gente se conhece – o primo deste conhece a avó daquele, e o nome do gato do filho do tio de alguém. É um daqueles sítios em que nada se pode passar sem que toda a gente saiba como, quando e porquê. Até que isso acontece. 

mare of easttown
Imagem: Divulgação / HBO

Na promoção, a premissa da série diz-nos que Mare irá investigar um assassinato local. O que não nos diz é que, para além disso, ainda anda à volta dos desaparecimentos de jovens raparigas que desvaneceram sem deixar rasto. No meio disto tudo, Mare tenta ainda lidar com a sua vida, que se desmorona de segundo a segundo. A sua filha vive uma fase entre a rebeldia e a serenidade, a sua mãe é um canhão à solta e o seu neto, com vários problemas de saúde, vive com ela depois do suicídio do seu filho, o pai da criança.

Durante boa parte dos 60 minutos do primeiro episódio, existe um esforço tremendo para que não saibamos tudo ao mesmo tempo. A informação é-nos dada a conta-gotas, uma aqui, outra ali, quase como um puzzles que todas as famílias têm em casa por montar. A questão é que a série nos obriga a ir montando o puzzle e, eventualmente, algumas dessas peças não encaixam. Neste caso, alguma da informação que nos é dada, feita com o máximo realismo possível, é inútil e não serve para nada. Muitas conversas acontecem sem qualquer importância – e isto não acontece só no primeiro episódio. Qualquer um dos cinco que vimos podia ter menos dez ou 15 minutos cortados facilmente, simplesmente por terem coisas que não interessam a ninguém. 

 O verdadeiro mistério, apresentado em toda a promoção da série, só surge nos instantes finais do primeiro episódio e, depois disso, tudo muda. A história, um mistério numa cidade pequena onde toda a gente se conhece, tem agora uma nova variante: o assassinato de uma rapariga numa cidade pequena onde toda a gente se conhece, quase como um Twin Peaks (sem o elemento surrealista que pode aborrecer alguns).

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Imagem: Divulgação / HBO

Enquanto o primeiro episódio foi um acumular de informação, os episódios seguintes juntam-lhe investigação e paranoia, e é aqui que todos os atores começam verdadeiramente a brilhar. Kate Winslet, que nunca fez um papel deste género e revelou que este foi um desafio, dado que a sua última experiência até tinha sido um drama histórico chamado Ammonite (que ainda não estreou em Portugal), lidera o elenco e dá um espetáculo de atuação, atraindo para si a atenção do público e, mesmo assim, conseguindo pôr os holofotes também nos seus parceiros. Guy Pearce, o galã de serviço, aparece com uma aura enorme, e depois surge a maior surpresa da série: Evan Peters, que afinal até consegue atuar, vai desfrutando da companhia de Winslet e, quando os dois estão juntos, o ecrã enche-se de química. 

No entanto, a escrita continua a falhar. As cenas que não interessam a ninguém abundam, principalmente no quarto episódio, podendo até dar vontade de olhar para o telemóvel de dois em dois minutos, dando-se conta que o tempo não está a passar. É uma pena que a série, com o potencial que tem, tenha cenas tão aborrecidas em alguns momentos e autênticos mares de ansiedade noutros. O que fica é a ideia que Mare of Easttown é uma fogueira que está, lentamente, a ficar maior, e que vai, eventualmente, rebentar. 

A cinematografia é um dos pontos principais da série e merece ser mencionada. Craig Zobel, o realizador de todos os episódios, não é o nome mais conhecido mas tem aqui oportunidades para demonstrar todo o seu talento. A série está repleta de frames bonitos, movimentos de câmara agitados e longos planos sem cortes. Se a isso juntarmos os tons frios usados na colorização das cenas, arrepiando qualquer um, temos aqui um caso sério em termos de cinematografia na televisão em 2021. 

Resumidamente, Mare of Easttown acerta em muitas coisas, principalmente aspetos técnicos, trabalho dos atores e até na escrita, em alguns momentos, mas depois é capaz de ter cenas de 15 minutos completamente desastradas e despropositadas, assim como algumas falas que deixam qualquer pessoa a coçar a cabeça e a pensar no que é  que poderá querer dizer. Veremos se ainda há espaço para melhorar, ou se vai manter este ritmo e qualidade até ao fim. 

Mare of Easttown, que conta com um elenco com nomes como Kate Winslet, Guy Pearce, Evan Peters, Julliane Nicholson e Jean Smart, terá um episódio novo disponível todos os domingos no serviço de streaming da HBO Portugal.

Classificação: 7

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