O Espalha-Factos terminou. Sabe mais aqui.
top gun
Fotografia: Divulgação/Paramount Pictures

Crítica. ‘Top Gun: Maverick’ é um voo de tirar o fôlego de volta para a zona de perigo

Top Gun: Maverick acaba de estrear no grande ecrã (quinta-feira, 26) e traz consigo a responsabilidade de manter o sucesso de seu antecessor. Tom Cruise está de volta como Pete ‘Maverick’ Mitchell, 36 anos depois do original Top Gun, onde assumia o papel de um jovem piloto de caça da Marinha que ingressava numa escola de elite que recruta apenas os melhores, chamada de Top GunAgora, o renomado capitão Maverick terá a missão de treinar um grupo de jovens pilotos da Top Gun, para uma missão considerada “impossível“.

Danger Zone’, a famosa música que embalou a primeira versão de Top Gun, também acompanha o seu sucessor, e acaba por ilustrar como Top Gun: Maverick sabe exatamente o que está a fazer e como executar o plano. E a nostalgia não acaba aí.

Por sabermos que é importante remetermos ao seu antecessor, antes de nos debruçarmos sobre Top Gun: Maverick, iremos voltar atrás no tempo, mais precisamente para 1986.

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS PARA AMBOS OS FILMES TOP GUN e TOP GUN: MAVERICK

Top Gun, o sucesso não esperado

top gun
Val Kilmer e Tom Cruise. Fotografia: Divulgação

O filme, com realização de Tony Scott, foi o grande responsável pela ascensão ao estrelato de Tom Cruise. Apesar de receber críticas mistas, obteve sucesso comercial, tornando-se o filme com a maior bilheteira do ano. Mas do que se tratava o filme, e o que o tornou um grande sucesso na sua época?

Maverick, alcunha de Pete Mitchell, um impetuoso e ousado piloto da Marinha, é aceite na Top Gun, a Escola de Armas de Caças da Marinha. Lá, o jovem piloto impulsivo terá que competir com os melhores dos melhores, incluindo TomIceman’ Kazansky (Val Kilmer), um colega brilhante e altamente competitivo. Agora, Mitchell terá de dar tudo de si; no entanto, a morte misteriosa e prematura de seu pai ainda o assombra.

O Top Gun original, lançado em 1986, foi tanto um sucesso de bilheteria quanto um hino da era Reagan ao poder aéreo e naval americano. Acabou por se tornar o filme com a maior bilheteira daquele ano e, na época, entre as mais altas da história. Top Gun também chegou num momento de crescente supremacia global americana, inclusivamente a nível cultural, dando-lhe uma pungência geopolítica particular.

E porquê essa pungência geopolítica? Para quem não se recorda, em 1986 estávamos, ainda, em clima de Guerra FriaMikhail Gorbachev era o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Nesse período, reforçou-se a ideia de que o equilíbrio entre as duas superpotências estava a tombar decisivamente a favor dos EUA. Após deixar no passado uma derrota histórica no Vietname, os EUA mostraram autoconfiança e isso também fica explícito no filme, incorporado na personagem de Tom Cruise.

O sucesso do filme teve também influência numa interessante situação: o aumento do número de pessoas recrutadas pela Marinha americana. Os números não mentem – de acordo com a Marinha dos EUA, o sucesso de bilheteira de Top Gun fez o número de recrutamentos aumentar em 500% no ano após o lançamento do filme. A Marinha americana montou postos de recrutamento em frente a algumas salas de cinema para novos aspirantes que sairiam emocionados do filme e dispostos a se inscrever.

No filme, que teve também como pano de fundo uma base militar no Oceano Índico, vemos também os caças americanos a lutar com (ficcionais) MiG-28s de um inimigo sem nome, mas de alguma nação comunista e cujos distintivos lembra o dos norte-coreanos.

A famosa cena do jogo de voleibol em Top Gun. Fotografia: Divulgação

Para além disto, Top Gun também mostra tragédia, romance, aventuras e cenas emblemáticas como a dos jovens da Top Gun a jogar voleibol de praia, sem camisa e de calça (sim, e muitos de calça de ganga), ao calor. Cenas como esta viraram ícones, mas também por esses e outros motivos, o filme foi considerado gay, inclusivamente pelo realizador Quentin Tarantino que, num monólogo no filme Sleep With Me (1994), disse que vê este filme como “uma história sobre a luta de um homem a lidar com a própria homossexualidade”.

Top Gun: Maverick é emoção genuína e nostalgia

Passados 36 anos – e uma pandemia -, a continuação do filme original teve (finalmente) a sua aguardada estreia. Top Gun: Maverick é  realizado por Joseph Kosinski (responsável pelos filmes Oblivion e TRON: Legacy). Com uma estrutura “emprestada” do filme original, mesmo passados muitos anos, é perceptível que o realizador teve essa intenção, mesmo ao vermos um Pete ‘Maverick’ Mitchell mais velho e com mais experiência (e um pouco menos de imprudência). Agora, ele é piloto de teste num posto isolado no deserto de Mojave, no sudoeste norte-americano, onde o projeto em que está a trabalhar – o desenvolvimento de um novo avião – está prestes a ser cancelado, sob o pretexto de um padrão de desempenho que não pode ser cumprido.

Top Gun
Fotografia: Paramount Pictures Corporation

Com isso, Maverick é enviado de volta para a Fighter Weapons School, também conhecida como Top Gun – da qual ele é, como sabemos, antigo aluno. Ao chegar à sua antiga escola, Maverick percebe que foi enviado para lá por causa de TomIceman’ Kazansky, e também descobrirá que terá de treinar um grupo de jovens pilotos para uma missão ultrassecreta – mais especificamente, voar sob uma região montanhosa e destruir uma central subterrânea que desenvolve urânio.

Esta não é a única dificuldade nesta missão para Maverick: ao chegar, também descobre que um dos seus alunos seria Bradley ‘Rooster’ Bradshaw (Miles Teller), filho do seu falecido amigo e copiloto Nick ‘Goose’ Bradshaw (Anthony Edwards) – morto num acidente ao qual Maverick sobrevive mas de que se sente culpado (mesmo após ficar comprovado que Goose não morreu por sua causa). Mas não é só Maverick que sente esta culpa. O jovem Rooster também acredita que Maverick tem alguma culpa pela morte do seu pai, e isso torna-se um dos pontos principais do filme: a culpa e a responsabilidade que Maverick sente em, desta vez, proteger o filho do seu grande amigo.

Miles Teller em Top Gun: Maverick. (Scott Garfield/Paramount Pictures)

Emoção? Nostalgia?

Este é um filme feito claramente para os fãs, para aqueles que vivenciaram o Top Gun original mas, também, para aqueles que não tiveram a experiência do filme anterior, com toda a sua emoção.

Kosinski coloca todo o elenco dentro dos cockpits dos aviões que as personagens pilotam, com o diretor de fotografia Claudio Miranda (Vida de Pi) a fazer coisas com a câmara que desafiam a imaginação. Embora haja algum aumento digital aqui e ali, em geral, as imagens aéreas são reais, e mostra como seria sentar no banco de trás de um F-18. E o que falar da emoção de assistir a este filme no grande ecrã? Insuperável – aliás, duvidamos que algum simulador de voo possa fazer melhor.

Tom Cruise, que trabalhou na produção do filme, para além de o protagonizar, fez com que todos os atores que faziam parte do grupo dos alunos da Top Gun tivessem aulas de voo (em aviões comerciais), para que melhor compreendessem, de alguma forma, a ciência e o amor pela pilotagem. Para além disso, Tom Cruise já tem experiência em pilotar aviões – mas, na verdade, o que é que ele não faz?

Tivemos também uma homenagem à clássica cena do jogo de voleibol: que, desta vez, foi de futebol americano, também na praia, com o intuito de unir os alunos e deixá-los divertirem-se, ao mesmo tempo que trabalham o espírito de equipa. Outra novidade na cena é a participação de mulheres pois, no filme original, a turma Top Gun era constituída apenas por homens.

Neste filme deparamo-nos com um Maverick mais cansado e cauteloso, comparado ao quase irresponsável personagem da história original. Além do amadurecimento da personagem, vemos uma culpa e um senso de responsabilidade aguçado, muitas vezes pela necessidade de se autoperdoar pelo passado e, ao mesmo tempo, para proteger o filho do seu grande amigo.

E a banda sonora? Bem, além de manter a melodia da guitarra, famosa na abertura do filme original, também tivemos a clássica ‘Danger Zone’ (de Kenny Loggins) e Lorne Balfe, Harold Faltermeyer, Lady Gaga – que traz também uma nova música original, ‘Hold my Hand’- e Hans Zimmer foram os responsáveis pela banda sonora de arrepiar da longa-metragem, que conta ainda com músicas de outros artistas.

Tudo é perfeitamente fluido, se não fosse o romance de Maverick com Penny (Jennifer Connelly), a proprietária do bar frequentado pelos pilotos. O arco do romance é focado, não em si mesmo, mas na forma como a relação entre as personagens incentiva Pete Maverick na sua trajetória rumo ao autoperdão. Não que isso não seja importante, mas digamos que não existe também a química esperada entre ambos.

Top Gun: Maverick é um espetáculo, uma experiência surreal, pela história, pela entrega do elenco, pela produção e pelo espetacular trabalho de toda a equipa. Um filme onde vemos um Tom Cruise entregue, como nunca vimos antes, com cenas emocionantes que nos relembram o início da sua carreira de sucesso.

E o sucesso já é visto nos números: Top Gun: Maverick estava projetado para ganhar quase 140 milhões de euros  no fim de semana de estreia. Segundo analistas, a longa metragem está a caminho de bater recordes. São 2 horas e 11 minutos de muitos voos, emoção, risadas e uma imersão como nunca vista.

Ao lado de Cruise, o elenco conta também com nomes como Miles Teller, Jennifer Connelly, Jon Hamm, Glen Powell, Lewis Pullman, Ed Harris e Val Kilmer. Com realização de Joseph Kosinskia produção ficou a cargo de Jerry Bruckheimer, Tom Cruise, David Ellison e Christopher McQuarrie, que também escreveu o argumento, juntamente com Ehren Kruger e Eric Warren Singer.

top gun
Crítica. ‘Top Gun: Maverick’ é um voo de tirar o fôlego de volta para a zona de perigo
10