Celso

Entrevista. Celso: cinco à solta, à espera de vingar

Os Celso são “cinco à solta” que, enquanto esperam por vingar, vão deixando pistas no caminho sobre o seu futuro promissor. Oriundos de Benfica, caracterizam-se como uma banda que vai desde o espectro rock alternativo, indie ao português ou rancho. Com Duarte Igreja na guitarra, João Pedro Lima na bateria, João Paixão na guitarra e voz, Martim Baptista nos teclados e Miguel Casquinho no baixo, esta é a história de como conheci os Celso.

Esta entrevista foi escrita e gravada pelo Espalha-Factos e editada pelos Celso. Se quiseres ver a entrevista completa com mais algumas curiosidades sobre a banda ‘clica’ aqui.

A origem de “Celso”, uma marquise e a “Delícia”

Celso, imagina… é como os ‘James’” , tentou explicar o Duarte quando perguntei sobre o porquê do nome da banda. De facto, Celso foi um filósofo do século II, mas não foi por essa razão que estes cinco rapazes se decidiram batizar dessa forma.

Todos gostaram , começou como uma brincadeira mas depois tomou forma. Como a história da galinha e do ovo…”, adiantou Pedro Lima. De facto, o nome Celso surgiu tão ao acaso como os videoclipes desta banda: gostaram da sonoridade, acabou por ficar. É importante dizer que os Celso nasceram no seio de uma marquise, nos arredores de Benfica, local onde decorreu esta entrevista. “Este é um sítio muito importante. É o local onde nós começámos a compor basicamente”.

Inicialmente, tocaram nesta marquise Pedro, Miguel e Duarte. “Gravávamos aqui covers de metal… chegámos a gravar coisas com microfones do Singstar”. Reza a história que, numa gala de talentos do secundário, os rapazes se juntaram para formar um grupo de forma a participar nesse ‘talent show’. A partir daí, tudo arrancou. Singles da banda como Espanhola e Brandão nasceram nesta marquise, local onde a banda já passou horas impossíveis de calcular.

Acho que não há nenhuma fase que não tenha passado por aqui”, adiantou Pedro. “Nós nunca saímos muito desta rua, na verdade”. De facto, não foi preciso andar muito desde a marquise até chegar à Delícia, outro dos locais emblemáticos da banda.

Devido a algumas dificuldades técnicas e para não chatear vizinhos, os ensaios mudaram-se para uma escola de música perto e por fim para o café snack-bar, a Delícia. No andar de baixo, os rapazes tocam numa sala onde os instrumentos partilham espaço com “carne de porco em sal, marinadas e leitões”. Nesta sala relativamente espaçosa, que serve para armazenar comida (e um pouco de tudo), costumam também ser organizadas noites de fado.

Temos a condição de tirar as coisas lá do espaço uma vez por mês para que façam ali as noites de fado, mas pronto, agora é lá o nosso sítio”, revelou a banda, que classificou este café como “uma bênção” ou até “uma segunda casa”. Para compor, é preciso muito tempo no mesmo sítio. “Sítios alugados não é a mesma coisa. E mais, se queremos jantar o bitoque é incrível, a malta é toda simpática. É a coisa mais natural possível”.

Processo criativo

Geralmente começa sempre com uma ideia, quase nunca é de voz, é sempre assim uma ideia na guitarra, uma ideia no piano, assim uma parte pequena. Normalmente eu trago essa parte pequena e depois começamos a ver as ideias”, respondeu o João, quando perguntei à banda sobre o seu processo criativo.

A voz e a letra são as últimas partes do puzzle, nas fases de criatividade dos Celso. A voz é tratada como outro instrumento qualquer, não há um “one man show” na banda: “é servir a música”.

Acho que a primeira vez que ouvi a letra da ‘Tá Tudo Bem’, por exemplo, foi quando a tocámos ao vivo pela primeira vez”, confessou Pedro. A ele junta-se logo João, revelando que até um estado muito avançado, a música “não tem letra”.

Há o caso de uma música que começou por ser um instrumental que tocávamos nos concertos, sem voz, assim muito curta e agora é o ‘Lagartixa’”, completou Miguel. A banda admite que não existem fórmulas mágicas, apenas o ‘feeling’ de pensar “é isto” e, por norma, é assim que todo o processo criativo flui. Acreditam que às vezes, as melhores coisas são as que aparecem “ao calhas”, naturalmente.

Um dos singles mais conhecidos da banda é o “Tá Tudo Bem”, gravado em cerca de quatro tardes, “se calhar até menos”. “A parte de compor, claramente não. Estava a fazer na guitarra uns ‘acordezitos’ e saiu-me logo na cabeça, não o refrão, o refrão não foi logo, foi o início. Sem letra.”, confessou João. A ideia para o single era que este ficasse o mais limpo e simples possível, sem grandes produções sonoras – algo que contrasta com outra referência da banda, “Espanhola”.

O singleEspanhola”, segundo os cinco rapazes, não remete para algo concreto mas sim para um imaginário musical. De facto, é uma das músicas mais complexas da banda, recheada de estilos diversos e camadas musicais com influências espanholas.

Questionados sobre os significados das suas letras, os Celso confessaram que são mais os significados dados pelos ouvintes às letras, do que aquelas que eles desejam transmitir: “as pessoas às vezes dão mais significado às músicas do que propriamente nós. Claro que todas as músicas têm um pensamento por trás, mas às vezes é um bocado abstrato”.

Outro exemplo um pouco distante dos dois primeiros singles já referidos é “Brandão”, uma música cujo refrão remete para um episódio peculiar de uma compilação de apanhados “tuga”, em que o protagonista é “Brandão, o Aldrabão”. Neste caso, o significado não é meramente simples, nem complexo, fazendo apenas referência a um dos inúmeros vídeos que os rapazes viam quando eram mais novos e partilhavam entre si. É muito menos complexo do que o que seria de esperar”, confessou Lima.

O caos característico dos videoclipes

Outra característica desta banda são os vídeos feitos para divulgação ou para músicas. Todos eles têm uma imagem de marca: o caos. Quem os vê julga estar a assistir a um conjunto de ‘frames’ caseiros, feitos em férias de verão ou simples vídeos gravados com um telemóvel entre amigos.

Para começar, é fácil fazer um videoclipe em que se está só a existir”, começou por explicar Lima. “Se pusermos logo à partida as expectativas da malta assim mais para baixo aquilo vai sair bem de certeza”, brincou.

Para a banda, esta forma de expressão acaba por passar uma imagem genuína de quem são, nomeadamente para aqueles que não têm a oportunidade de os ver ao vivo. Há também um gosto por uma estética crua, meio inacabada mas que resulta para os rapazes.

E acaba por ser uma grande proteção porque não estamos a levar o vídeo muito a sério. E também não queremos um vídeo para já com um ‘budget’ enorme ou altamente produzido”, disse Duarte, com Miguel a rematar: “conjuga bem com o nosso estilo”.

Concertos mais bizarros

“O concerto mais bizarro foi sem dúvida, em Odivelas, quando ouvimos o grande Jerónimo de Sousa antes da nossa atuação”, descreveu Martim, enquanto recordava uma atuação da banda para uma das eliminatórias do concurso do festival Avante!. Entre o “senhor bêbado” que parou para os ouvir, até à criança que apareceu para dançar, os rapazes vão recordando esta história, que os leva a uma outra aventura.

O concerto foi na Faculdade de Letras, em Lisboa, e a palavra usada pelos Celso para o descrever foi, no mínimo, “bizarro”. Segundo os rapazes, o concerto foi “incrível e correu bem”, apesar de nessa altura um dos membros estar de Erasmus no Japão: o Duarte. A parte bizarra surgiu depois.

Assim que acabou tivemos que arrumar tudo, porque vinha um dj set. E nós arrumámos tudo para trás do palco. E no espaço de meia hora, vinte minutos ficou uma grande rave. Estava a chover lá fora, lá dentro um calor humano que não se podia e nós a levar as coisas no meio de pessoal que não se mexia. Foi complicado”, descreveu João.

Outra peripécia que recordam com carinho é o concerto em que tocaram em pleno furacão Lesley, no Atelier Das Manas, um atelier de estudantes de arte em Lisboa: “O Martim teve que tocar lá fora porque não tínhamos espaço para ele. Até foi um concerto temático, pusemos impermeáveis e tudo”.

Desde que esta entrevista foi gravada, os Celso lançaram mais três músicas, tocaram no bar Tokyo, integraram playlists oficiais do Spotify, e foram semifinalistas do concurso EDP Live Bands 2020.

A verdade é que não se pode dizer que os Celso sejam cinco rapazes desesperados pelo holofote da fama. Cada um tem as suas ocupações e paixões, todas elas diferentes entre si que se complementam e se espelham na música que, com dedicação, são felizes a fazer. Aproveitando a autocaracterização presente numa das suas letras, os Celso são apenas “cinco à solta, à espera de vingar”, que se vão divertindo genuinamente pelo caminho. E é isso que sentimos ao ouvi-los.

Com uma maturidade musical que ultrapassa a idade, a época ou o género, os Celso divertem-se ao explorar por pura curiosidade, ao criar sem fim à vista, com influências que não conhecem nacionalidades nem estilos.

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