House of Cards: E agora é que acabou?

Está em streaming na Netflix Portugal desde 23 de dezembro, a sexta e última temporada de House of Cards. O desfecho, empacotado em oito episódios, pode ser visto como a solução possível depois do despedimento do protagonista Kevin Spacey, mas devia ter sido muito mais que um serviço mínimo.

Vamos ser sinceros: House of Cards entrou em decadência na terceira temporada e tornou-se, a partir da quarta, numa série absolutamente sofrível. Onde as primeiras duas temporadas tinham argúcia, jogo político e twists surpreendentes, as últimas tiveram mortes em catadupa para resolver pontas soltas de forma preguiçosa. Na quinta temporada, cujos dois primeiros terços foram dedicados à campanha eleitoral, à última hora é ignorada qualquer plausibilidade ou realismo e arranja-se uma vitória na secretaria. Frank Underwood, por seu lado, foi sempre a descer em carisma e fôlego, tornou-se cada vez menos eficaz, sem coerência enquanto personagem e insuportavelmente palavroso e cheio de si próprio.

A sexta temporada, que acontece perante a inviabilidade provada do paradigma anterior, podia ter sido a salvação da série. E, tendo isto como ponto de partida, houve vários sinais positivos, mas insuficientes. Robin Wright é discreta onde Kevin Spacey era overacting, Claire é cirurgicamente letal por oposição a um Frank que era, acima de tudo, egomaníaco. Mas tinha o enredo qualidade suficiente para que Robin o pudesse salvar? Não me parece.

O encoberto

O cadáver escondido, a voz não-ouvida, o testamento impronunciado. Frank estava em todos os minutos; mal resolvido. A ocupar demasiado tempo, a gotejar por entre as entrelinhas. A ser discutido ininterruptamente. Aquela que inicialmente tinha sido pensada como uma temporada de confronto entre os dois Underwood, acabou por ser uma luta infrutífera contra um fantasma, em que o guião esteve demasiado ocupado a tratar do falecido e não deu atenção suficiente aos vivos.

bill shepherd house of cards

Fotografia: David Giesbrecht/Netflix

Resultou em personagens aborrecidas e unidimensionais, como é exemplo o tedioso Bill Shepherd (Greg Kinnear), um daqueles empresários lobistas que representam aquilo que faz com que a política e o mundo mediático americanos sejam absolutamente podres.

Um antagonista masculino que nos aborrece, arquétipo vazio e demasiado visto do “homem branco de meia idade” que domina a política norte-americana. Uma personagem condescendente, machista e incapaz de aceitar o comando de uma mulher, a misoginia em pessoa. É a face mais visível de um grupo de personagens masculinas que, na série, com mais ou menos delicadeza, e sem grande nuance, parecem rejeitar Claire não por ela ser uma megera e uma tirana – que é! – mas antes por ter vontade própria. Mark Usher (Campbell Scott), o vice-presidente, é também exemplo de um cavalheirismo torpe e sobranceiro… que felizmente só se acaba por traduzir em maus resultados para o próprio.

É a irmã de Shepherd, Annette (Diane Lane), que nos dá os melhores momentos de contracena com a protagonista. Inimigas íntimas, desde os tempos da escola, mas unidas pelo facto de terem de viver à sombra de homens que são muito menos efetivos e competentes que elas, quando se juntam no ecrã ajudam-nos a perceber que Claire é muito mais que uma cúmplice, muito mais que uma criatura. É uma profissional da arte da camuflagem. É aqui, e perante o ditador Petrov (Lars Mikkelsen), que o fascínio de jogadora mais sobressai.

Fotografia: David Giesbrecht/Netflix

As personagens foram, em geral, mal-tratadas. Doug Stamper (Michael Kelly), magistral na sua postura esfíngica durante tanto tempo, tornou-se num mero joguete dos caprichos dos argumentistas, sem destino ou vida próprios. Uma personagem que já foi tudo e o seu contrário. Começou a temporada internado num hospital psiquiátrico, teve episódios com momentos de grande lucidez, passou por rebates de consciência inesperados… termina a série em absoluto delírio psicótico.

E foi apenas a mais simbólica das presenças numa longa lista de personagens decorativas, meramente funcionais e desprovidas de qualquer textura dramatúrgica. Contam-se aqui o irrelevante Seth (Derek Cecil), mostrado como um moço de recados eterno, ainda o absolutamente desperdiçado Tom Hammerschmidt (Boris McGiver), ou o imberbe Duncan (Cody Fern), uma espécie de Mr. Robot sem genialidade, mas também a surpreendentemente ingénua Janine Skorsky (Constance Zimmer), jornalista que, depois de tudo, anda de braço dado com Doug – que sabe ser um assassino – e serve para, sem qualquer filtro, publicar páginas de um suposto diário de Frank que este lhe dita, mas que ela nunca ouve ou lê.

David Giesbrecht/Netflix

E quando, ao fim de oito episódios, voltamos a sentir a pulsação a acelerar, numa sincopada sequência final… Quando Claire nos relembra aquilo que a faz mais perigosa que o marido, quando a voltamos a ver e a admirar na sua sedução destruidora e vertigem implacável, quando parecemos prontos a seguir em frente… caem-nos em cima os créditos finais. A série termina onde devia recomeçar. No momento em que o enredo se livra dos pesos mortos e parece pronto para um reboot, estragam-nos a festa.

O que é que poderia ter saído daqui se a Netflix tivesse coragem para seguir em frente ou se os argumentistas quisessem mesmo livrar-se do cadáver na bagageira? Nunca saberemos. House of Cards termina desonrada. Milionária em orçamento, mas pobre de espírito, encerrada numa imponência artificial e vazia.

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