O Espalha-Factos está a marcar presença na 12.ª edição do MOTELX, e traz-te os filmes de maior destaque. Os dias 5 e 6 foram dois dias de bom suspense no Cinema São Jorge, tendo havido desde a mais recente obra de Steven Soderbergh a uma fita subversiva protagonizada por Nicolas Cage.

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Wij / We – 8/10

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Foto: Divulgação/MOTELX

Um curioso drama, o holandês We é baseado num controverso romance homónimo, sobre oito adolescentes que, ao longo de um verão, deixam os seus jogos de perversão chegar longe de mais.

Dividido em quatro capítulos, cada um do ponto de vista dos personagens principais, o filme deixa descobrir gradualmente o ponto onde tudo muda, e as nefastas consequências que daí advirão.

A alternar entre planos em câmara lenta a retratar as alegrias da juventude e cenas perturbadoras do degredo moral que o grupo de amigos leva, tudo é entregue de uma forma tão crua, que nunca tenta incitar um mínimo de condescendência por estes.

O sabor final é amargo, alavancado pela grande revelação do terceiro ato, e não obstante ser talvez um dos filmes menos enquadrados no espírito do festival, não deixará de ser uma das obras mais admiráveis e perturbadoras a passar pelo MOTELX este ano.

Distúrbio – 7/10

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Foto: Divulgação/MOTELX

O “maior” filme já filmado num iPhone, Distúrbio é mais uma obra inventiva de Steven Soderbergh, o oscarizado realizador (Traffic – Ninguém Sai Ileso, 2001) conhecido pelo experimentalismo na sua carreira.

As provações de Sawyer Valentini (Claire Foy) ao involuntariamente dar entrada num hospital psiquiátrico dão lugar a visões de um stalker do passado (Joshua Leonard), que poderá ou não estar a persegui-la de novo.

Ainda que nem sempre assumindo o tom mais sério que se exigia, e pedindo talvez demasiada “suspension of diesbelief” na reta final, Distúrbio nunca deixa de ser um thriller fascinante sobre uma protagonista sozinha na sua luta. Já Foy, a Rainha Isabel II da série The Crown, tem aqui o seu mais complexo e completo papel em cinema até à data.

Uma fita essencial na carreira do seu realizador que, após passar pelo Festival de Berlim em fevereiro, teve honras de estreia comercial em tantos países, mas não em Portugal. Valha-nos o MOTELX, pela bela oportunidade no grande ecrã.

Já disponível em VOD.

Mandy – 8/10

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Foto: Divulgação/Films4You

Depois de sessões em Sundance e Cannes onde reinou a aclamação, o tresloucado Mandy, do italo-canadiano Panos Cosmatos, encerrou com um estrondo o segundo dia de MOTELX, com verdadeiro entusiasmo a ecoar na Sala Manoel de Oliveira a partir da meia-noite.

A saga de vingança de Red Miller (Nicolas Cage), depois de o culto de Sand Jeremiah (Linus Roache) lhe raptar a sua amada Mandy (Andrea Riseborough), em 1983, serve uma fita peculiar, ardente em estilo e sem travões, quase como que numa dimensão à parte, onde nenhuma regra de género ou do cinema convencional é exatamente reconhecível.

Não há nada como a fita de Cosmatos, um verdadeiro choque entre contemplação e surrealismo, que transita de uma onda pausada, na atmosfera do seu set up, para uma espiral de loucura – e talvez resida aí a sua única falha, a mudança de tom tão abrupta, que pedia um pouco mais de gradação.

A servir a Cage, o seu melhor papel em anos. Ridicularizado pelas suas atuações excêntricas em tantos filmes menores na última década, o já oscarizado ator (Morrer em Las Vegas, 1995) ergue-se qual rei neste midnight movie, num papel que lhe assenta que nem uma luva e que nos lembra do quão incrível consegue ser com material à medida.

De realce ainda, o último score do falecido Jóhann Jóhannsson. Depois de, este ano, duas prestações grandiosas em Com Paixão e Maria Madalena, chega agora a derradeira; um trabalho verdadeiramente distinto da parte do islandês, a marcar a negrura desta fita tão única, e, em verdade, talvez a melhor banda-sonora que nos deixou. Uma verdadeira lenda.

A estrear em sala a 27 de setembro.

Cam – 7/10

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Foto: Divulgação/MOTELX

Um thriller verdadeiramente atual, Cam segue Alice (Madeline Brewer), uma camgirl determinada a chegar ao top do seu site, através de diretos que tanto planeia e nos quais interage; no dia que perde acesso à sua conta e esta é assumida por uma doppelgänger, desaparece também o controlo na sua vida pessoal, e recuperá-los torna-se a sua maior missão.

Inteligente e elaborado, a obra de estreia do realizador Daniel Goldhaber, o qual divide a autoria do argumento com Isa Mazzei, uma ex-camgirl, é indubitavelmente um dos filmes de género mais originais dos últimos tempos. Sem nunca descurar a relevância dos seus temas, a fita cresce na sua intriga surreal, ao mesmo tempo que define uma identidade visual bastante distinta.

No papel principal, Brewer é a heroína cuja frustração e luta pessoal nos agarra, com uma sensibilidade honesta a que já desde o ano passado, ainda que num registo completamente diferente, nos tem vindo a habituar na série The Handmaid’s Tale.

Brevemente disponível na Netflix.

Ghostland – A Casa do Terror – 6/10

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Foto: Divulgação/MOTELX

Obra que marcaria a presença do seu realizador no festival, Pascal Laugier, entretanto cancelada, Ghostland é a nova incursão do francês no género do terror, dez anos depois do seu ultraviolento clássico de culto Martyrs.

Uma mãe e duas filhas reencontram o terror, mais de uma década após se terem defrontado com perturbados intrusos em casa, numa obra com uma reviravolta que peca apenas por parecer tão previsível, conforme é dado a entender desde a primeira cena.

A resolução final, essa, também se aparenta demasiado facilista, mas até lá, é visível um rasgo de inspiração de Laugier, numa fita também mais convencional que a de extremos que lhe trouxe nome.

De destacar ainda os jump scares, poucos, mas dos mais eficazes em três dias de festival, numa casa de quinquilharias e geringonças que poderia ter sido bem mais explorada.

A estrear em sala a 27 de setembro.