King Richard
Fotografia: Warner Bros Pictures/Divulgação

Crítica. ‘King Richard’ é uma agradável surpresa marcada pela autenticidade

King Richard é o novo projeto de Reinaldo Marcus Green, que conta a história de Richard Williams, pai de duas das melhores tenistas de todos os tempos: Venus Williams e Serena Williams. O filme, que estreou a 18 de novembro nas salas de cinema, conta a forma como Richard planeou e treinou as filhas para se tornarem astros do desporto a nível mundial, com Will Smith no papel principal.

Filmes desportivos, sejam eles biográficos, como Coach Carter, The Fighter ou Rush, ou também ficcionais, como a franquia Rocky ou, mais recentemente, The Way Back, partilham muitas vezes a mesma estrutura, vícios e costumes, o que os torna muitas vezes previsíveis. No entanto, algo que não podemos retirar a este tipo de trabalhos, especialmente os acima mencionados, é a capacidade destes nos inspirarem ou de, quando autoconscientes e inteligentes, nos tocarem a nível emocional. King Richard não é exceção.

A longa-metragem, que conta com produção da Warner Bros. e com Will Smith e as próprias irmãs Williams como produtores executivos, debruça-se sobre a forma como Richard Williams sempre previu, planeou e construiu o sucesso das tenistas, desde muito cedo. É abordada a forma peculiar com que estruturou a carreira das filhas, bem como todo o drama envolvido neste processo, desde parcerias, treinadores, agentes e as contradições de vontades entre pai e filha.

Foi com alguma reticência que cheguei a este filme, por diversos fatores. Primeiro, estamos a falar de um blockbuster que conta com Will Smith no papel principal, o que pode não significar muito, mas, se olharmos para os últimos trabalhos do ator, dá para perceber os motivos para tal preocupação. Depois, estamos perante um género de filme que por vezes pode ser excessivamente genérico e até mesmo um bocado saturado, o que pode gerar uma experiência enfadonha. Outro dos fatores, é que pratiquei ténis e competi durante vários anos e infelizmente sempre que vejo ténis a ser representado em meios artísticos, nunca é devidamente retratado, pelo menos no que toca à autenticidade do desporto em si, como técnicas de jogo, a vida dos atletas e outros detalhes que acabam por afastar os mais aficionados, algo que pode também acontecer com outras modalidades. Felizmente, este trabalho surpreende em todos estes sentidos.

Logo na primeira cena, onde se vê uma raquete a ser encordoada, percebi que esta trama iria ser rigorosa a retratar esta modalidade, muito atenta aos detalhes e meticulosa em termos técnicos. Não me enganei. Foi com muito agrado que vi as duas atrizes Saniyya Sidney e Demi Singleton, que representam Venus e Serena Williams, respetivamente, a praticar um decente nível de ténis, o que é impressionante, tendo em conta que nenhuma delas tinha praticado o desporto antes, ainda mais impressionante sabendo que Saniyya é esquerdina e teve de aprender tudo com a mão direita, para além do facto de que algumas pancadas, como o serviço, por exemplo, estão bastante idênticas às de Venus.

Como diz Kevin Dunn no filme, ao representar o treinador Vic Braden, o ténis é um desporto muito complexo tecnicamente, onde são necessários anos só para aprender o básico. Por isso é que é de louvar o trabalho feito pelas atrizes, que tanto demonstraram a capacidade de ter aprendido a jogar minimamente um desporto num curto espaço de tempo, como também entregaram duas performances muito competentes.

King Richard
Fotografia: Warner Bros Pictures/Divulgação

Mas não foi só neste sentido que o retrato do ténis esteve bem conseguido. Momentos como quando as jovens estavam a executar lançamentos com uma bola de futebol americano para aprimorar o serviço, a representação da toxicidade de certos pais para com os filhos em competição ou a referência ao bater a bola de frente são altamente fieis à realidade. Obviamente, existem algumas inconsistências, mas são completamente compreensíveis, tendo em conta que são feitas em prol da narrativa.

Felizmente, a autenticidade desportiva está longe de ser a única qualidade desta longa-metragem. King Richard segue a típica estrutura de um drama desportivo, seguindo também alguns clichês. Porém, tudo isto é feito de uma forma bastante inteligente e efetiva naquilo que pretende alcançar, que, neste caso, é atingir emocionalmente o espectador e fazer com que se relacione com a história. Isto é consequência da serenidade com que a narrativa se desenvolve, nada é apressado, tudo é feito a seu tempo, deixando espaço para a química entre o elenco fazer-se sentir, algo surpreendente, tendo em conta que muito do argumento é superficial, especialmente no que toca aos diálogos. Contudo, devido a muita competência dos atores, a emoção do enredo conseguiu florescer e dar-nos aquela sensação de um típico crowdpleaser feel-good movie.

Algumas inconsistências, totalmente expectáveis deste tipo de produção, destacam-se em alguns sub-plots um pouco vazios, cuja existência acabou por não se justificar tanto como devido. Em aspetos técnicos não tem muito que se lhe diga, a cinematografia é genérica e a edição mais do mesmo, o design de produção e o guarda-roupa são bons, algo que era necessário e quase obrigatório, tendo em conta a capacidade de produção e também a necessidade de enquadrar a história na época e no respetivo cenário. Quanto à banda sonora, apesar de básica e comum, faz aquilo que pretende fazer, aumentar o fator inspirador e emocionante.

King Richard
Fotografia: Warner Bros Pictures/Divulgação

No que toca às performances, temos aqui o aspeto mais consistente desta produção. Como já referido, Saniyya Sidney e Demi Singleton, com muita competência, conseguiram mergulhar por completo nas personagens, com bastante fidelidade e de uma forma fidedigna, segundo as próprias irmãs Williams. Aunjanue Ellis, que encara o papel de mãe das jovens atletas entrega-nos uma performance cheia de dedicação e toda ela muito bem conseguida.

Will Smith foi a surpresa. Um problema, que é consistente e transversal à maioria do seu trabalho, especialmente o mais recente, tem sido a impossibilidade de separarmos o astro das personagens que interpreta. É muito difícil olharmos para as personagens e não vermos o ator. Isso acontece devido à forma como o ator parece não conseguir largar os seus maneirismos de papel para papel, o que também acontece em King Richard. Porém, vemos aqui esforço e dedicação por parte do ator, algo que culmina na sua melhor atuação nos últimos 15 anos, o que não quer dizer muito. Não deve ficar entre as melhores do ano com certeza, porém, deve conseguir uma nomeação para as estatuetas douradas.

Por último, é impossível não falar do grande destaque. O incrivelmente subvalorizado Jon Bernthal deixa aqui uma performance cheia de carisma e personalidade, que enche de brilho o ecrã sempre que aparece.

Há muita gente que já coloca o termo Oscar bait ao lado do filme e é sem surpresa que esta produção talvez consiga aparecer uma ou duas vezes na lista de nomeados da academia. King Richard é um filme autoconsciente, que utiliza as diretrizes habituais do género, usando-as de uma forma criativa, enquanto nos entrega um conjunto de atuações competentes ao mesmo tempo que retrata autêntica e dignamente o desporto sobre o qual esta história verídica se desenrola.

King Richard
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