Fotografias: Sally Rooney: Faber/Divulgação | Chimamanda Ngozi Adichie: Penguin Random House/Divulgação | Dulce Maria Cardoso: Facebook/Dulce Maria Cardoso

Cinco autoras contemporâneas para ler no Dia Internacional da Mulher

As personagens femininas são, muitas vezes, narradas nas entrelinhas daquelas que são consideradas as melhores obras da literatura mundial. Mas, mesmo antes da era Gutenberg, a lírica feminina já ecoava pelos cantos do mundo. Na Grécia Antiga, Safo de Lesbos cantava as suas musas através da poesia lírica – conhecemos hoje os fragmentos das suas obras, mas a única que permanece intocada é Ode a Afrodite. O livro mais antigo escrito por uma mulher foi publicado em 1395: Revelações do Amor Divino, de Juliana de Norwish e era uma compilação de inspirações cristãs.

Os tempos medievais lá se foram e a mulher foi ganhando cada vez mais espaço na sociedade sendo, aos poucos, reconhecida pelos seus talentos e valorizada pela extensão das suas obras. De Jane AustenIrmãs Brontë e Mary Shelley bell hooksSimone de Beuvoir Alice Walker, a literatura feminina e feminista tem conquistado o seu devido lugar de destaque ao lado de demais obras da literatura mundial, e abrindo caminho a cada vez mais jovens autoras a empoderarem-se e usarem a sua voz para reconfigurar as narrativas que mostram a mulher no primeiro plano, seja na perspectiva de reconhecer privilégios, de fazer conhecer experiências de vida diferentes das da maioria e mostrar que a mulher pode ser o que ela quiser.

Porque a educação é a maior arma de emancipação, o Espalha-Factos destaca cinco autoras contemporâneas com obras de ficção marcantes que todas e todos devemos espreitar.

Sally Rooney

O nome de Sally Rooney disparou no ano passado por conta da adaptação do seu romance Normal People para série, que estreou na HBO em abril. No livro, publicado em 2018 – editado em Portugal com o título Pessoas Normais (Relógio D’Água, 2020) e recomendado pelo Plano Nacional de Leitura -, Rooney conta a história de Marianne e Connell, um casal cuja amizade continua e só se fortalece apesar de encontros, desencontros e falta de comunicação. Apesar do romance que ocupa longas páginas da trama, Normal People está pululado com discussões acesas sobre política, chamando atenção para a importância da consciência de classe e de privilégio.

A autora irlandesa, auto-proclamada marxista, dá voz às personagens millenials que refletem sobre a sua condição financeira, os papéis atribuídos à mulher e ao homem e como a sociedade patriarcal molda as relações e amizades que estabelecemos ao longo da vida. No seu primeiro romance, Conversations With Friends, a personagem principal, Frances, debate consigo própria a moralidade de estar numa relação com um homem casado, ao mesmo tempo que enfrenta várias realidades: problemas financeiros num meio em que todos os que a rodeiam são ricos, endometriose (que se manifesta através de dores em mulheres que menstruam e que pode causar infertilidade), dúvidas sobre espiritualidade e religião.

As personagens de Sally Rooney, mesmo nos seus contos, são pluridimensionais – não há vilões ou antagonistas. São pessoas verdadeiras, com defeitos e qualidades que trilham caminhos apesar dos percalços que aparecem pelo caminho. Crescemos ao lado delas e aprendemos a navegar a rota da vida adulta, com tudo o que isso envolve.

Leitura obrigatória: Conversations With Friends

Chimamanda Ngozi Adichie

A sua obra mais famosa talvez seja Todos Devemos Ser Feministas, uma TEDTalk que acabou por ser publicada em formato literário em 2014. Para além deste ensaio, a autora já assinou três romances, A Cor do HibiscoMeio Sol AmareloAmericanah, a coleção de contos A Coisa à Volta do teu Pescoço, a não ficção Querida Ijeawele (todos editados em Portugal pela Dom Quixote/LEYA) e vários contos espalhados por publicações como o New Yorker ou The New York Times.

Chimamanda nasceu na cidade universitária Nsukka, na Nigéria, região que é o pano de fundo de várias das suas histórias. Aos 19 anos, emigrou para os Estados Unidos para continuar os estudos na área da comunicação e da escrita criativa. Foi na “terra da liberdade” que a autora se confrontou, pela primeira vez, com o que significava ser negra. A consciência da sua etnia e da perda do privilégio que tinha na sua cidade natal enquanto filha de académicos são temas transversais às suas obras – em Americanah, um casal vê-se separado pela ditadura militar, que os força a emigrar para os EUA e para o Reino Unido, onde enfrentam preconceitos e são rotulados pela cor da sua pele e pelo seu sotaque.

Os livros de Chimamanda Ngozi Adichie (que é referenciada como uma das grandes inspirações femininas na canção ‘Madrepérola‘, de Capicua) têm uma componente histórica irregovável. Meio Sol Amarelo passa-se durante a guerra civil nigeriana; A Cor do Hibisco tem como pano de fundo Nigéria pós-colonial, afundada em instabilidade económica e social. Cada conto de A Coisa à Volta do teu Pescoço ecoa o passado colonial, os estereótipos de género e o quão diferem entre a Nigéria e países Ocidentais, alertando através de relatos crus e calorosos que alertam para as grandes desigualdades que continuam a ser repercutidas mundo fora.

Leitura obrigatória: Americanah

Dulce Maria Cardoso

A autora portuguesa de Trás-os-Montes estreou-se na literatura com Campos de Sangue, um livro que viria a sintonizar o estilo das próximas obras. Uma escrita fluida, apaixonante e até desesperante, Dulce Maria Cardoso é uma das vozes portuguesas mais celebradas no panorama nacional, e não é difícil perceber porquê. A crueza e a beleza do quotidiano é detalhada ao longo dos entrechos tempestivos que cada um dos seus livros faz brotar.

Em Os Meus Sentimentos, relata numa prosa pesada a vida de Violeta, uma mulher que, no momento de um acidente de carro, ultrapassa espaço e tempo – reflete sobre o passado com amargura, relatando a dor acumulada de uma mulher que nunca se aceitou no corpo e o espaço que habita. Em Eliete, seguimos a protagonista que, após um diagnóstico cruel à avó que tanto ama, sente-se entorpecida, encontra nas redes sociais um conforto que, no final das contas, se revela superficial.

Dulce Maria Cardoso explora o trauma nas suas obras, um transformo que assombra as mais variadas personagens e se conecta a elas de forma camaleónica, mostrando versatilidade, mestria e, acima de tudo, honestidade perante a maneira que percecionamos o corpo, a dor, a História e a família.

Leitura obrigatória – Os Meus Sentimentos

Ouve também: Contadoras de história: a resistência feminina no pequeno e no grande ecrã

Cho Nam-joo

Cho Nam-joo tem, até à data, apenas um livro publicado. Chama-se Kim Ji-young, Born 1982, e conta a história da mulher que dá nome à obra: uma mulher normal, submissa a uma rotina trivial e caseira. Isto mantém-se até ao dia em que Kim Ji-young começa a tomar a personalidade dos que a rodeiam e, ao ser considerada mal-educada pelos sogros, acaba por começar a frequentar um psiquiatra.

Os relatos e documentos emitidos pelo médico aparecem como anexos ao longo do livro, e é através dele que vemos micro e macro-agressões que a mulher enfrentou ao longo da vida – na escola, os rapazes comiam primeiro, ela era alvo de assédio; já em adulta, o pay gap é uma realidade, e o julgamento e mal-dizeres por escolher a via da maternidade ao invés do seu trabalho perseguem-na. Kim Ji-young, Born in 1982 é o espelho de uma Coreia do Sul dominada pelo patriarcado – à data da sua publicação, no auge do #MeTooMovement, os seus leitores foram alvos de críticas por parte de uma camada da população. Cho Nam-joo denuncia as feridas de uma sociedade dominada pelo machismo, onde outrora ter uma filha era sinónimo de vergonha e onde, ainda hoje, temas como o feminismo e a igualdade de género são tabu, temas abordados em pezinhos de lã.

O livro foi adaptado para cinema em 2019 – o filme homónimo é inspirado, porém não totalmente, na obra literária e recolheu várias nomeações em festivais internacionais, como o Blue Dragon Film Award.

Anna Burns

Anna Burns é uma autora irlandesa da Irlanda do Norte, algo que não passa despercebido nas suas obras. Com um cunho político, os seus três romances representam, direta ou metaforicamente, a época The Troubles que aterrorizou a nação natal dos anos 1960 aos anos 1990, marcada por conflitos nacionalistas e sectarismo étnico e religioso.

O seu primeiro livro No Bones é uma comédia negra sobre, precisamente, essa era negra da Irlanda do Norte que fará mesmo o leitor mais apático contorcer-se. Em Milkman, a sua mais recente distopia que venceu o Man Booker Prize em 2018 (editado em Portugal pela Porto Editora e recomendado pelo Plano Nacional de Leitura), ninguém tem nome ou características diferenciadoras e qualquer pessoa que sobressaia e quebre com o status quo é imediatamente segregado e perseguido por paramilitares.

As obras de Anna Burns são imbuídas de comédia espirituosa e passagens nauseantes e são importantíssimas para sensibilizar leitores de todo o mundo para os horrores que foram levados a cabo e as cicatrizes que estes deixaram na geração que nasceu e cresceu neste cenário

Leitura obrigatória: Milkman
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