O vencedor do Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza chega esta quinta-feira (3)  às salas de cinema portuguesas e o que não falta são motivos para ir ver o Joker de Joaquin Phoenix.

Joker é uma das personagens mais emblemáticas do universo de comics, não só por estar sempre presente em quase todas as sagas que envolvem Batman, o famoso herói da DC, mas também também pelas sublimes interpretações de alguns atores que já lhe vestiram a pele.

O primeiro foi Cesar Romero, quando interpretou o vilão na série Batman, em 1966. Seguiu-se Jack Nicholson, cuja atuação lhe rendeu uma nomeação como Melhor Ator nos Golden Globes, em 1989. Vinte anos mais tarde, Heath Ledger imortalizou-se ao representar a icónica personagem, sendo por muitos considerada a interpretação mais memorável deste papel. Segundo o realizador de The Dark Knight, Christopher Nolan, Ledger trabalhou de forma dedicada e chegou a passar noites em branco, como se estivesse verdadeiramente a enlouquecer.

O ator terá seguido o conselho de Nicholson, que lhe terá dito para “deixar a loucura entrar“. Ledger acabou por falecer prematuramente em 2008, com apenas 28 anos, antes da estreia do filme. Apesar disso, sagrou-se vencedor do Oscar de Melhor Ator Secundário, em 2009. Sete anos depois, foi a vez de Jared Leto vestir a pele do criminoso, mas os críticos e os fãs não demonstraram o mesmo interesse.

Joaquin Phoenix demonstrava já desde 2014 o desejo de interpretar o vilão da DC Comics, sendo que já tinha rejeitado papéis da Marvel Cinematic Universe. Foi só mais tarde que se confirmou como o novo Joker.

A nova longa-metragem realizada por Todd Phillips conta-nos uma história totalmente diferente da que esperamos. Arthur Fleck – o nome verdadeiro de Joker – aparenta ser um homem totalmente comum. Aspira ser comediante e trabalha como palhaço nas ruas de Gotham de forma a ganhar a vida. Porém, Arthur sofre de uma doença mental rara, que o faz ter ataques de riso nos momentos mais inoportunos.

A ação passa-se em 1981, mas a história é tão atual que poderia ser contada nos dias de hoje. O Joker de Joaquin Phoenix é inteiramente diferente do de Heath Ledger. O vilão de Ledger é consumido pela loucura e pelo prazer de criar o pânico, sendo que em nenhuma parte da história chegamos a conhecer fragilidades da personagem, pelo menos não da mesma forma que conhecemos no filme de Tood Phillips. O vilão vivido por Phoenix é uma personagem humanizada e é visto pela sociedade como um autêntico parasita. É um homem fraco, que vive com a mãe e que sofre constantemente todo o tipo de humilhações que causam desconforto no espectador.

Joker

Joaquin Phoenix é Joker, no novo filme da DC Comics

É apenas quando Arthur descobre um dos segredos que movimentam a trama, que se assume confortável na sua própria loucura. O Joker de Phoenix, porém, não representa apenas o píncaro do delírio, mas também a total anarquia.

Certo de que quer procurar uma carreira como comediante, Arthur é um fã assíduo de Murray Franklin (Robert De Niro), um comediante com o seu próprio live show na televisão norte-americana. Quando as tentativas falhadas de comédia de Arthur conquistam a atenção de Murray, Arthur nunca mais é o mesmo. A loucura apodera-se do homem fraco e é nesse momento que Joker vê a luz do dia.

Joker

Arthur durante a ‘criação’ de Joker

LÊ TAMBÉM: CRÍTICA: AGORA A LUTA DE RAMBO É CONTRA OS ‘BAD HOMBRES’ 

Há muito a dizer sobre Joker, mas as palavras não chegam para descrever a grandiosidade da película. É facto adquirido que filmes de super-heróis têm sido a galinha dos ovos de ouro de grandes estúdios cinematográficos, mas o novo filme de Todd Phillips tem uma abordagem que serve de lição para muitos dos realizadores que tentaram criar algo memorável com algumas das experiências que têm saído ao longo dos últimos anos. Independentemente do sucesso de filmes como Wonder Woman ou até de Avengers, da Marvel, há algo que falha nesses blockbusters: essência.

Este Joker é muito mais que um filme sobre o universo de super-heróis. É uma obra com um ritmo alucinante e que comunica com o telespectador sobre doenças mentais e a forma como a sociedade julga a loucura a primeiro olho. Arthur é um homem frágil, fraco e solitário, mas temível e ameaçador, algo que só transparece com a performance brilhante de Joaquin Phoenix.

O ator perdeu vários quilos para encarnar a personagem, mas a sua dedicação vai além da transformação física. A atuação é perturbadora de tão extraordinária que é. As expressões, os tiques e a transparência da personalidade são apenas alguns dos pontos em que Phoenix torna a sua atuação exímia. Por muito inesquecível que seja a atuação de Ledger, Phoenix eleva-se a um estatuto que poucos atores tiveram o luxo de alcançar nesta década. É uma das melhores atuações dos últimos anos e a melhor de sempre em filmes do universo de super-heróis. A nomeação ao Óscar de Melhor Ator está, certamente, garantida.

Joker

Esta obra-prima do cinema moderno enche-nos as medidas. Um filme sobre o lado negro do homem, emparelhado com uma atuação brilhante, uma fotografia sedutora e uma banda sonora admiravelmente selecionada. Não há razões para não ver.

Título original: Joker
Realização: Todd Phillips
Argumento: Todd Phillips, Scott Silver
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy
Género: Crime, Drama, Thriller
Duração: 121 minutos

Crítica: 'Joker' é um dos melhores filmes da década
10Valor Total