No Dia Mundial da Fotografia, o Espalha-Factos conversou com Fábio Inácio: fotógrafo, viajante e interessado em explorar o outro lado do mundo. Vive entre Portugal e os países nos quais trabalha, através da agência de viagens The Wanderlust. No seu passaporte já passou pelo Canadá, Irão, Índia, Indonésia, Quénia, Praga, Birmânia ou Nepal.

Desde 2010 concilia as duas maiores paixões: fotografia e viagens. Já passou cerca de 20 meses a viajar pelo mundo, criou um blog e lançou o livro Walking Around, onde mostra o resultado dessa aventura.

Foto: Fábio Inácio

Espalha Factos – Quais são as histórias que pretende contar cada vez que viaja?

Fábio Inácio – Eu pretendo sempre contar o que vejo, o que sinto e o que vivo. Pretendo mostrar um pouco a realidade do mundo e dou sempre o exemplo do Irão, quando falo sobre isto. O Irão é dos países que mais me fascinou, por ser aquilo que eu nunca pensei que fosse: ou seja, eu nunca pensei que fosse um país mau, com terroristas, como as pessoas pensam, mas também não tinha uma ideia formada. Quando fui lá, fiquei completamente fascinado, porque foram das melhores pessoas que eu conheci até hoje. Eu tento contar isto, para que as pessoas não se deixem levar por tudo aquilo que veem e leem e para as fazer explorar, tentando ver como é realidade.

EF – E o que é que o atrai na cultura desses países para onde viaja?

FI – O que eu procuro mesmo é a diferença, porque acho que isso é das coisas mais fascinantes de viajarmos, é a diferença. Viajar na Europa, em Portugal, é óbvio que gosto bastante, mas quando vamos para um sítio onde as pessoas se vestem de maneira diferente, comem de maneira diferente, têm modos diferentes – mesmo a maneira de se sentar, de trabalhar ou de falar -, acho que isso é uma aprendizagem gigante. É giro estar num sítio onde não sabemos nada, estar fora da minha bolha, fora daquilo que eu sei.

Foto: Fábio Inácio

EF – Como é que apreende o choque cultural por parte das pessoas que vêm do ocidente?

FI – A maioria das pessoas que viaja comigo corre bem, mas já tive um ou dois casos em que não. Vi que as pessoas não sabiam mesmo para onde é que iam. Não tinham a noção e ficam chocadas, porque viajam e querem sentir que estão em casa ainda – eu não critico – e há muitos sítios para isso. Eu trabalho para a The Wanderlust e passo mais tempo na Ásia, mas já há cidades lá que estão completamente ocidentais: com nomes em inglês ou algumas têm pequenas cidades de outros países lá pelo meio.

EF – O trabalho na The Wanderlust propõe três circuitos: Irão, Índia e Vietname. O que é que distingue em termos de experiência, entre cada um destes países?

FI – Quando falo do Irão, falo sempre nas pessoas. Têm paisagens fantásticas, têm das culturas mais antigas do mundo – os persas -, tem muita História, comida, mas as pessoas foram mesmo aquilo que me fascinou. Nós normalmente ajudamos pessoas, mas esperamos sempre em troca, isso ali não aconteceu comigo. As pessoas davam e não queriam nada em troca – não falo de dinheiro, falo de tudo, só queriam ajudar.

A Índia é aquela viagem que se ama ou se odeia e acho que qualquer pessoa devia ir. Mesmo que se odeie, nunca se vai esquecer essa viagem, vai-se aprender muito e ficam para sempre muitas coisas na cabeça. O Vietname é interessante, pela sua história recente – o facto de ter estado em guerra não há muito tempo -, existem ainda algumas tensões entre o norte e o sul, mas é um país lindíssimo, as pessoas e as suas paisagens são espetaculares.

Foto: Fábio Inácio

EF – Desses três países, que histórias guarda com mais afeição?

FI – No norte do Vietname, perto da fronteira com a China, estive numa vila durante uma semana, fiquei no único hotel que existia nessa vila e onde ninguém falava inglês. Todos os dias à noite ia comer a uma garagem, que era o único sítio que havia para comer e estava sempre cheio de locais. Todas as noites era convidado a sentar-me junto de algum deles e no final nunca me deixavam pagar. Um dos dias, por entre brindes com vinho de arroz, eles deixaram-me como que alcoolizado, levaram-me numa mota para um bar de karaoke e estive toda a noite a cantar em vietnamita com os locais.

EF – Das viagens surgiram um blog e um livro. Qual foi o mote para a criação do livro: querer partilhar as  fotografias ou dar a conhecer, a quem não consiga ter essa possibilidade, as viagens que faz?

FI – Na verdade o livro foi uma “desculpa” para fazer uma grande viagem. A ideia surgiu depois de uma ida à Indonésia, na qual fiquei viciado e onde entendi que queria viajar mais e fotografar. Depois aperfeiçoei os meus conhecimentos em fotografia, trabalhei, viajei pela Europa para ver como poderia resultar, falei com a minha família e tinha que arranjar algo de importante que fosse o mote para essa viagem. Achei que o livro seria uma coisa interessante, partilhar aquilo que iria viver e experienciar durante os 20 meses que iria estar fora.

Foto: Fábio Inácio

EF – E o que é que o leva a fotografar em preto e branco, se a maioria dos países para onde viaja é tão rico em cores?

FI – Quando estou a fotografar, eu já estou a ver a fotografia a preto e branco e é mesmo como eu a vejo. O facto de estar a preto e branco, não quer dizer que não tenha cor: nas minhas fotografias eu consigo ver todas as cores que lá estão. O meu objetivo é que as pessoas sintam aquilo que eu senti e através do preto e branco consigo dar uma força diferente à imagem, que as cores muitas vezes não dão.

EF – Como é que os povos das terras para onde viaja reagem às fotografias?

FI – Eu respeito muito as pessoas que fotográfo e tenho algumas histórias tristes. Uma vez, na Índia com um grupo de amigos, paramos numa vila junto ao deserto e quando saímos do carro, as pessoas vieram logo expulsar-nos da vila. E eu pensei: todos os dias chegam aqui dezenas de pessoas, começam a tirar fotografias sem o mínimo tato para com elas. A verdade é que nós ocidentais achamos que sabemos tudo e que o resto é um zoo, fazemos o que queremos do mundo e não é assim. Essa história da Índia chocou-me um bocadinho.

Foto: Fábio Inácio

EF- Falou um pouco sobre a forma como os ocidentais tratam os povos desses países. De que forma acha que a ocidentalização está a chegar a destinos que faz pouco tempo não eram muito turísticos?

FI – Às vezes eu critico, mas a verdade é que também gosto de lá estar. O turismo tem vindo a destruir algumas culturas e muitos locais, parte por culpa nossa e parte por culpa dos locais, que têm visto que podem ganhar dinheiro com o turismo. Essa massificação, que cresce em todo o lado, faz com que deixem, por exemplo, de haver pessoas locais a viver nesses sítios e que sejam só bares, restaurantes, lojas e isso deixa-me triste.

EF – Que conselhos dá a quem viaja e procura contar através da fotografia a sua própria história?

FI – O meu conselho para quem quer contar as suas próprias histórias é fotografar aquilo que eles veem e sentem no próprio momento. Não alterar nada, porque o Instagram – por exemplo – veio alterar um pouco isso, na medida em que é tudo muito idealizado e chega a parecer falso, como que desfigura a realidade. Os bloggers de viagens também fazem passar essa perfeição, quando a perfeição não existe. O interessante é partilhar as experiências como elas são: boas, más, sentimentos mais ou menos felizes.

Foto: Fábio Inácio

EF – Sente que as pessoas têm essa consideração acerca do seu trabalho?

FI – As pessoas acham que é muito fácil aquilo que eu faço e que não é para todos. Eu acredito que se nós queremos uma coisa, nós fazemos. Se as outras pessoas conseguem fazer, nós também conseguimos fazer, só temos que fazer escolhas. As pessoas falam que eu sou sortudo, estou sempre a viajar, mas é uma vida de escolhas. Como gosto de fotografia e viagens, trabalhei para isto, mas não sou mais que ninguém e qualquer pessoa pode fazê-lo.

EF – Quais as histórias e locais que ainda faltam contar através da sua lente?

FI – Muitas! Eu gosto muito das histórias do dia-a-dia: paisagens e pessoas, mas principalmente pessoas. Há muita coisa a acontecer, muitos povos, muitas formas de viver e é isso que eu quero contar. Por conhecer, ainda está o norte, sul e centro da América, muita coisa em África e voltar aos locais. Gosto muito de voltar – por exemplo à Índia, onde trabalho -, porque mesmo que volte lá 100 vezes, vai ser totalmente diferente, dada a multiplicidade de coisas a acontecer, a fotografar, a ver.

Foto: Fábio Inácio