Nesta edição, o Gira o Disco debruçar-se-á num dos mais influentes guitarristas do século XX. Num homem que inovou como poucos a forma de tocar guitarra, não só a nível técnico, como também emocional e que era conhecido pelas suas performances electrizantes e intensas, em que cada nota era tocada como se fosse a última. Uma das caras de Woodstock, Jimi Hendrix foi um artista que marcou não só uma geração, como também o mundo da música.

  • Infância

Nascido a 27 de Novembro de 1942 em Seattle, Washington no seio de uma família problemática, Johnny Allen Hendrix teve uma infância complicada. Filho de uma mãe adolescente e alcoólica, Lucille Jeter, que o teve aos 17 anos e de um pai, Al Hendrix, ausente devido ao serviço militar.  O jovem Johnny foi forçado a ir morar com familiares e amigos para Berkley, California. Após o retorno de Al, a situação familiar deteriorou-se, com o divórcio dos pais em 1951, e com a morte da mãe em 1958.

No entanto, desde cedo que o jovem Hendrix (que veria o seu nome a ser legalmente alterado para James Marshall Hendrix, pelo seu pai) sentiu paixão pela música. Foi através do ukelele e de fingir tocar guitarra com uma vassoura que Hendrix iniciou a sua descoberta musical, mas o verdadeiro passo foi ter recebido uma guitarra eléctrica Supro Ozark. Sendo um autodidata, Hendrix foi aprendendo a tocar sozinho, tendo sido inspirado pelos guitarristas clássicos do blues como B.B.King ou Muddy Waters. Outro facto importante a ter em conta é o facto de Hendrix ter sido um canhoto, obrigando-o a recolocar de forma inversa as cordas da sua guitarra.

  • Os inícios

Em 1961, após ter sido expulso da escola e apanhado a conduzir carros roubados, Hendrix (já com 17 anos) alista-se no exército americano, indo para a base de Fort Campell, no Kentucky. Treinado para ser paraquedista, Hendrix nunca mostrou grande aptidão para a vida militar, e uma lesão num calcanhar ditou o fim da sua carreira no exército. No entanto, foi nesta curta estadia (1961-1962) que Hendrix conheceu o baixista Billy Cox. Os dois viriam a desenvolver uma grande amizade, tocando em conjunto no circuito de bares e clubes em Nashville numa banda chamada King Kasuals durante algum tempo (e mais tarde colaborando nos projectos de Hendrix).

Neste período, Hendrix já impressionava com a sua técnica e as suas habilidades, como conseguir tocar com os dentes ou com a guitarra nas costas. Mas havia, e sempre houve, um senão: a sua voz. Hendrix sempre foi inseguro quanto à sua voz (considerava-a “a pior voz do mundo”), chegando mesmo, mais tarde, a proibir as pessoas de o verem a gravar as vozes no estúdio.

Em 1964, Hendrix muda-se para Nova Iorque, onde viria a “ganhar calo”, tocando ao vivo como segundo guitarrista, ou gravando como guitarrista de sessão, para artistas como Curtis Knight, Sam Cooke, The Isley Brothers, King Curtis e até mesmo Little Richard (que alegadamente o influenciou a crescer o bigode e a adoptar a sua postura em palco). As suas colaborações foram sempre sol de pouca dura, porque os artistas que o empregavam não gostavam que ele lhes roubasse o protagonismo ao vivo e impediam-no de utilizar as suas técnicas inovadoras.

Jimi Hendrix (à esquerda) enquanto membro dos Curtis Knight And The Squires

Em 1965, Hendrix, através de Curtis Knight, toma contacto com o manager de Knight, Ed Chalpin. Este propõe um contracto de 3 anos em que Hendrix receberia 1% dos direitos de gravação. Hendrix assina-o prontamente (e sem o ler), o que viria provocar litígios com outras companhias mais tarde.

Farto de ser uma figura secundária, Hendrix decide formar a banda Jimmy James and the Blue Flames. Tocando regularmente no bairro de Greenwich Village, Hendrix é “descoberto” por Linda Keith, namorada de Keith Richards (dos Rolling Stones) na altura. Linda, vendo em Hendrix um potencial enorme, fala dele a Chas Chandler, baixista dos The Animals.

  • “The Jimi Hendrix Experience”

Chandler, que estava prestes a abandonar a banda e a dedicar-se à carreira de manager, traz Hendrix para Londres, onde este começa a levantar ondas ao pé das grandes figuras da cena musical inglesa, como Pete Townsend, Mick Jagger, Eric Clapton e Jeff Beck.  Juntamente com o baixista Noel Redding e com o baterista John “Mitch” Mitchell, Hendrix grava uma versão de Hey Joe, que toma de assalto os tops ingleses e traz o primeiro grande sucesso ao trio. Pouco tempo depois o conjunto, que se formalizou com o nome The Jimi Hendrix Experience, grava e lança mais dois singles, Purple Haze e The Wind Cries Mary, mais dois clássicos incontornáveis.

httpv://youtu.be/lVh1oqvUgLA

httpv://youtu.be/0lSRISMVb_E

Em 1967 a banda lança o primeiro álbum, Are You Experienced? Este álbum, equilibrado entre o psicadélico, as influências blues tradicionais e o rock com distorção mas sem os três singles anteriormente lançados, foi um autêntico sucesso, chegando rapidamente aos tops na Europa, incluindo um segundo lugar no Reino Unido (apenas atrás do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos The Beatles).

Tendo a Europa a seus pés, Hendrix e a banda decidem invadir as paisagens do outro lado do Atlântico. Seriam extremamente bem-sucedidos, muito por causa do concerto dado no Monterey International Pop Music Festival depois dos The Who (que ganharam um lançamento da moeda para tocar antes), actuação conhecida por Hendrix ter ensopado de combustível, queimado e destruído a sua guitarra após uma performance tresloucada de Wild Thing. O álbum é relançado nos EUA, já com os três singles que não o tinham figurado na versão do Reino Unido e revela-se igualmente um sucesso por estas bandas. Subitamente, Hendrix era uma estrela.

httpv://youtu.be/Qut6Pw0FdTk

Aproveitando o balanço que o primeiro álbum gerou, o trio lança em 1968, Axis: Bold as Love. Continuando a parceria com Chandler enquanto produtor, a banda lançou um álbum mais maduro e onde Hendrix teve maior controlo criativo, mas continuando o equilíbrio entre músicas cheias de atitude e garra como Spanish Castle Magic e If 6 was 9 e baladas  emocionais e alimentadas pelo belíssimo  trabalho de guitarra de Hendrix, como Castles Made of Sand Little Wing (Nota do Autor: provavelmente uma das músicas mais bonitas de sempre).

httpv://youtu.be/8OdTjN8quJY

Ainda em 1968, o conjunto lança a sua derradeira obra, Electric Ladyland. Lançado como um duplo-álbum, Hendrix pôde continuar a explorar diferentes técnicas de gravação, diversos instrumentos e colaborar com músicos como Steve Winwood, Buddy Miles e Jack Casady, resultando num álbum rico e variado, com destaque para Crosstown Traffic, Voodoo Child e uma das melhores covers de sempre, All Along the Watchtower, de Bob Dylan. Seria também o único álbum que a banda lançou a chegar ao nº1 no top de vendas. Destaque ainda para a capa original do álbum, que foi enorme motivo de controvérsia devido à nudez apresentada.

httpv://youtu.be/l6Z7LR8Z9_o

Mas se Electric Ladyland foi o culminar do génio criativo da banda, foi também uma das razões para o colectivo se desintegrar. Devido às tours incessantes e às trabalhosas sessões de gravação, Chas Chandler vai-se embora, deixando a sua parte empresarial para Michael Jeffrey, que se opunha às extravagâncias musicais de Hendrix. Hendrix e Redding começaram a dar-se mal, chegando muitas vezes a ter de ser Hendrix a gravar as partes de baixo. Para piorar tudo isto, aquele contracto que Hendrix tinha assinado com Ed Chalpin é trazido à baila, gerando mais problemas com as editoras.

Noel Redding, Mitch Mitchell e Jimi Hendrix

  • Últimos anos

O acumular do cansaço, a tensão crescente, o consumo de drogas, as constantes visitas ao estúdio de amigos e “amigas” de Hendrix (que interrompiam as gravações) e a má recepção às performances de Hendrix ao vivo (que disse estar cansado da sua postura de palco, preferindo concentrar-se mais em tocar), tudo isto acumulado, leva Redding a sair da banda. Hendrix ainda recrutou o seu velho amigo Billy Cox para tocar continuar as tours, mas a “Experience” acabou por findar por volta de Agosto de 1969.

Ainda neste ano, Hendrix dá um concerto em Woodstock com um grupo chamado Gypsy Sun & Rainbows, concerto esse que, embora algo inconsistente devido à falta de entrosamento do conjunto, foi marcado pela versão lendária de Star Spangled Banner. Este grupo mais tarde transformar-se-ia no Band of Gypsys, grupo composto por Hendrix, Cox e Buddy Miles. Este projecto nunca chegaria a vingar verdadeiramente, tendo resultado em apenas 4 concertos ao vivo. Um desses concertos, no Fillmore East (Nova Iorque) na passagem de ano, resultou no, simultaneamente, álbum ao vivo/álbum de originais Band of Gypsys (que inclui a música antiguerra Machine Gun).

httpv://youtu.be/LMhq1L0cJf0

Hendrix volta então a juntar-se a Mitchell e Cox para trabalhar num novo álbum, intitulado First Rays of the New Rising Sun. Infelizmente, devido à incapacidade de Hendrix se focar musicalmente, à frenética agenda de concertos e aos contínuos excessos de álcool e drogas, Hendrix nunca chegaria a ver o seu quarto álbum ser lançado. O seu último concerto foi dado no festival Isle of Wright, em Agosto de 1970. Um mês depois, Jimi Hendrix morreria durante o sono sufocado no próprio vómito, vítima de overdose provocada por barbitúricos.

Hendrix deixou um número interminável de material gravado em estúdio, bootlegs e gravações ao vivo. Sem controlo por parte da família de Hendrix, muito deste material foi lançado ao desbarato durante a década de 70 e 80. Só em 1995, com a ajuda de Paul Allen (co-fundador da Microsoft e fã devoto de Hendrix), Al Hendrix conseguiu recuperar o património que o filho deixou, através de uma batalha legal com empresários que detinham os direitos e as gravações. A partir daí, com a ajuda de Eddie Kramer (que foi engenheiro de som em todos os álbuns que Hendrix lançou), a família Hendrix conseguiu recuperar e lançar material muito interessante, como as gravações de First Rays of the New Rising Sun e dos álbuns ao vivo Radio One (captado nas sessões da BBC), Hendrix: Live at the Fillmore East e o concerto de Woodstock (entre outros). Recentemente, em 2010, foi lançado mais material novo, sob a forma de uma colectânea chamada Valleys of Neptune.

  • Nota Final

Muito mais não haverá para dizer. Jimi Hendrix foi um dos mais impressionantes artistas de todos os tempos. Hendrix explorou território com a sua Fender Stratocaster de 6 cordas que até então era impensável, tanto pelo feeling ímpar com que atacava as suas músicas e versões, como pelas técnicas que aperfeiçoou ou criou em estúdio. Não só era um grande músico, como um grande compositor e lirista, deixando uma obra para a posterioridade que ainda hoje se mantém inovadora, criativa, acessível e, acima de tudo, com um enorme valor sentimental.

Apesar do enorme sucesso que teve, Hendrix não tocava para ter dinheiro, para estar no top das listas de álbuns vendidos ou mesmo para ter fama, tocava pelo que sentia, pela sua sede artística insaciável. Outros magos da guitarra como Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan Joe Satriani, todos eles prestaram a sua homenagem a Hendrix, pela sua influência e carisma. Apesar de ter vivido sob a máxima do “Live fast, die young”, juntando-se assim ao trágico clube dos 27, Hendrix fez mais na sua curta carreira artística do que muitas músicos fazem numa vida e a maior prova disso é que o seu nome ainda hoje rima com genialidade, talento e sentimento.

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.