A Mulher à Janela
Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘A Mulher à Janela’ é um thriller “hitchcockiano” que não emociona

A Mulher à Janela é o mais novo thriller psicológico no catálogo da Netflix, que estreou esta sexta-feira (14) e é baseado no livro homónimo de A.J. Finn (pseudónimo de Daniel Mallory), um bestseller lançado em 2018.

O filme, que tem pouco mais de uma hora e meia de duração, conta a história de Anna Fox (Amy Adams), uma ex-psicóloga infantil que sofre de agorafobia (medo de ambientes desconhecidos, transtorno de ansiedade) e vive trancada há dez meses na sua”brownstone” em Nova Iorque. Ela começa a espiar a família aparentemente perfeita que vive do outro lado da rua através das janelas, até a sua vida ficar virada de cabeça para baixo quando ela inadvertidamente testemunha um crime brutal. Adaptado por Tracy Letts, segredos chocantes são revelados e nada nem ninguém é o que parece. Seria o thriller perfeito, não é?

Dito isto, seria de imaginar que um filme baseado num bestseller não poderia deixar de ser um sucesso, feito com um elenco de luxo, realizador e produção de alto escalão. O que poderia dar errado? Bem, muito, na verdade, a começar pela história por trás do autor, Dan Mallory.

O autor por trás do bestseller

Em 2019, o autor do livro – Daniel Mallory – ficou envolto em controvérsia, quando Ian Parker, do The New Yorker, publicou um artigo expondo diversas situações problemáticas, como a de que o autor teria mentido acerca de sua vida profissional, a sua saúde e teria até mesmo fingindo um “sotaque” para ser aceite.

Fotografia: Daniel Mallory/Divulgação

Mallory terá fingido que tinha um tumor cerebral e, mais tarde, chegou a alegar que tinha cancro, inclusivamente em requerimentos para a Universidade de Oxford e para seus colegas de trabalho em Londres e Nova Iorque.

Contudo, a teia de mentiras não parou por aí: Mallory enviou uma carta juntamente com sua inscrição para o New College de Oxford que afirmava que sua mãe morreu de cancro e que seu irmão também morreu sob seus cuidados quando, na verdade, os seus pais e os seus três irmãos estavam vivos.

Quanto à sua vida profissional, Mallory chegou a dizer que era editor da editora americana Ballantine, quando na realidade tinha sido assistente. E por último, mas não menos importante, ele assinava os seus emails como Dr. Daniel Mallory, apesar de nunca ter concluído o doutoramento na Universidade de Oxford, como alegava.

Em resposta às acusações, Mallory disse ao The New Yorker que sofria de transtorno bipolar, justificando-se que “acontece que, em várias ocasiões no passado, eu declarei, sugeri ou permiti que outros acreditassem que eu estava a sofrer de uma doença física em vez de psicológica – cancro, especificamente”.

Ele continuou a explicar-se, dizendo que “por quinze anos, mesmo enquanto trabalhava com psicoterapeutas, fiquei totalmente apavorado com o que as pessoas pensariam de mim se soubessem – que concluiriam que eu era defeituoso de uma forma que deveria ser capaz de corrigir ou, pior ainda, que eles não acreditariam em mim. Dissimular parecia o caminho mais fácil.”

Concluiu fazendo um pedido de desculpas por todas as mentiras: “com o benefício da retrospetiva, lamento ter-me aproveitado, ou ser visto como me tendo aproveitado da boa vontade de outra pessoa, por mais desesperantes que fossem as circunstâncias; esse nunca foi o objetivo.”

Isto acabou por justificar que, mesmo antes de ter a sua estreia nos ecrãs, o filme já estava rodeado de intrigas, que não pararam por aí.

Uma confluência de calamidades

Antes mesmo da sua estreia na Netflix, A Mulher à Janela passou por períodos de provação. O seu lançamento, que deveria ter sido em outubro de 2019, foi precedido, na altura, por uma exibição-teste, cuja audiência recebeu o filme com muitas críticas, fazendo com que o realizador Joe Wright tivesse de adiar o lançamento – para fazer alguns “recortes necessários“. “Houve alguns pontos da trama que as pessoas acharam um pouco confusos. Eu diria que talvez sejam opacos demais. Então, tivemos de voltar e esclarecer alguns pontos, mas acho que também tentámos ter a certeza de que não simplificámos nada e deixámos as coisas muito claras.”

Com isso, o filme foi adiado para maio de 2020. Nessa altura, o produtor Scott Rudin contratou Tony Gilroy (da série Bourne e Michael Clayton) para refazer o filme. E foi então que chegou a pandemia Covid-19 e o filme atrasou mais uma vez. No meio disto tudo, o filme foi vendido pela 20th Century Fox – que passou a pertencer à Disney – à Netflix. Supostamente, depois de todo este tempo entre reformulações e mudanças de estúdio, seria de esperar um filme novo e melhorado.

AVISO: Os parágrafos a seguir podem conter spoilers

Um elenco e equipa de estrelas não foi suficiente

Amy Adams protagoniza o filme com um elenco que inclui Julianne Moore, Gary Oldman, Jennifer Jason Leigh, Wyatt Russel, Fred Hechinger e  Brian Tyree Henry. O realizador Joe Wright (Orgulho e Preconceito, A Hora Mais Negra) está por trás das câmaras; Tracy Letts, dramaturgo vencedor do prémio Pulitzer, escreveu a adaptação do guião da obra de A.J. Finn; e o vencedor dos Oscars Scott Rudin estava entre os produtores. Tudo para ser um sucesso – mas este acaba por ser um filme inerte e sem nenhuma razão.

A Mulher à Janela
Fotografia: Divulgação/Netflix

A história, que ao começar possui  as características de um thriller interessante, em muito se assemelha à A Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock (1954), quando comparamos a história de Anna Fox (Adams) com a da personagem hitchcockiana do ator James Stewart: uma mulher sofre de agorafobia e vive reclusa (e de uma maneira quase claustrofóbica) na sua casa há meses, passando boa parte do seu tempo como voyeur, observando a vida dos seus vizinhos pela janela.

Separada, possui uma filha que vive com o pai, e passa a viver a vida “dos outros”, a tomar os seus copos de vinho e a receber visitas do seu psiquiatra que, por vezes, toca repetidamente no assunto – “e como está a andar a vida dos seus vizinhos?”

Por ser uma pessoa dependente de medicamentos controlados e do álcool, ela vive incerta até dos seus próprios pensamento, que Amy Adams mostra de forma excelente. Entre a sua vida e a das outras pessoas, ela depar-se a com uma nova família que se acabou de mudar para o prédio da frente, enquanto a família Russell se mudou para o outro lado da rua – e Anna observou cada movimento deles com muito cuidado.

O primeiro membro da nova família que ela conhece é o jovem Ethan (Hechinger), que vai visitá-la, entrega-lhe um presente, mostra-se para Anna como um menino inofensivo e com tristeza no olhar. Posteriormente, e numa cena que acredito que não tenha mais do que oito minutos, temos a presença de Juliane Moore, que se apresenta como a matriarca da família, Jane Russell, e que tem uma leve e íntima conversa com Anna. Esta é uma das melhores cenas do filme, que mostra o lado conturbado de Anna com a espontaneidade de Jane e muito vinho.

A Mulher à Janela
Fotografia: Divulgação/Netfllix

O que veria a seguir seria uma sequência confusa: a morte da personagem de Jane, que é vista por Anna e pelos seus olhares que nunca dormem, e a tentativa de uma mulher desacreditada em fazer valer a sua palavra. Ela liga para a polícia e acusa o então “marido”, Alistair Russell (Gary Oldman), de ser o responsável pelo homicídio da sua esposa, ao que o mesmo alega que ela está viva, só que essa Jane Russell é diferente, interpretada pela atriz Jennifer Jason Leigh. Com isso, a polícia percebe que houve uma “confusão” e não acredita nas alegações de Anna, que se vê confusa e fragilizada, pois não tem como provar o que disse e em muitos momentos ela mesmo não acredita em si.

A partir desse ponto, o filme descamba e passa a ser um retalho de cenas até chegar ao desfecho final. Com a exceção de Amy Adams, os outros atores tiveram pouco tempo de cena e tornam-se figurantes numa história que se centrou na vida da psicóloga e nos seus traumas.

A continuidade do filme, entre o motivo de sua fobia e dos seus transtornos, e a sua tentativa de descobrir o que realmente tinha acontecido, traz um final cliché e trashy, que nada soma as expectativas criadas e transforma a última hora do filme em uma maçante finalização do enredo.

Com a exceção da atuação de Amy Adams, o filme pecou mesmo com um bom elenco e boa equipa. Oferece possibilidades imensas, mas acaba por cair nos excessos de um género ligado ao terror, com os efeitos às vezes ultrajantes que tal abordagem implica.

 

 

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