19 anos depois, Olga Roriz volta a apresentar uma das suas peças mais reais: Propriedade Privada. Do elenco original, apenas atuará Carla Ribeiro, mas nem por isso deixaremos de ver um conjunto de bailarinos que a coreógrafa considera “à altura”. Dia 22 e 23 de maio, sete intérpretes sobem ao palco do Centro Cultural de Belém para dançar uma peça que percorre as atrocidades humanas ao longo do século XX. Será que o mundo mudou assim tanto de há 19 anos para cá?

A faltar pouco mais de uma semana para a estreia, a companhia ensaia a peça como se fosse dia de espetáculo. Já com o cenário remontado, os figurinos em ordem, apuram-se os pormenores para que o espetáculo possa coincidir com aquele que marcou uma fase da companhia. A coreógrafa que comemora 40 anos de carreira e 20 de companhia , falou com o Espalha-Factos sobre o regresso de Propriedade Privada.

“Ao longo da minha carreira nunca fiz uma peça tão politicamente expressa como a Propriedade Privada

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Olga Roriz tem uma longa experiência na coreografia e Propriedade Privada surge num dos culminares da sua carreira. Decorria o ano de 1996 e a companhia formada em 1995 apresenta esta peça que apresenta explicitamente cenas de violação, sexo e tortura. Todas estas representações servem para mostrar problemas da realidade. Aliás, todo o trabalho da coreógrafa assenta na vida real. Como a própria considera : “A dança não é uma arte abstrata, obviamente que não, basta ter o corpo e a pessoa para ser toda muito concreta. Mas não tendo a palavra, às vezes é complicado tu conseguires passar o que as pessoas podem pensar.”

Essa dificuldade esteve presente na receção a alguns espetáculos de Olga. Esta não foi a primeira vez que a coreógrafa trabalha essas imagens tão explícitas em palco. Nos anos 80, ainda não existia um público muito preparado para as novas possibilidades da dança em Portugal e a coreógrafa já apresentava espetáculos como Três canções de Nina Hagen. Na rua, Olga chegava a ser confrontada como se fosse ela a pessoa violenta e como se as bailarinas fossem maltratadas. Nada disso! O palco exigia que o público pensasse sobre os problemas da sociedade.

“Foi a peça mais longa de criação que eu tive. Foi muito pensada”

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Durante nove meses, um grupo de bailarinos formado por Sónia Aragão, Carla Ribeiro, Lina Santos, Suzana Queiroz, Ludger Lamers, Fabrizio PazzagliaLuis Carolino construíram a Propriedade Privada de 1996. Em 2015, a única presença que se mantém é Carla Ribeiro, que Olga frequentemente chama de oráculo. Quando surge alguma dúvida, lá está Carla a recorrer à sua memória. Algo que se demonstra que Propriedade Privada fica bem enraizada no corpo, como diz a coreógrafa.

Para todos os outros, é uma estreia. Através do vídeo, Olga Roriz exigiu aos bailarinos que seguissem a versão de 1996: “eu tinha de ser fiel à própria peça”. O tempo não era muito, tiveram dois meses desta vez. E nesse tempo teriam de aprender a viajar. Esta é uma peça fragmentada e os bailarinos terão várias personagens. O que não facilita a missão de que quem assume o desafio.

E se no elenco estão Carla RibeiroBruno Alexandre, Bruno Alves, Marta Lobato e Sylvia Rijmer, que já trabalharam com Olga, há André Campos numa primeira experiência com a linguagem da coreógrafa. Depois, há também Beatriz Valentim com apenas 19 anos. Beatriz frequentou a escola da companhia, a FOR- Dance Theater, no ano passado e estreia-se nesta peça que exige uma enorme base técnica e artística. “É muito emocional, vai-se fazer uma mulher cheia de experiência”, diz-nos a coreógrafa com confiança na bailarina.

Porque ser coreógrafa é também encontrar a motivação dos bailarinos. “Mais que eles virem procurar-me eu tenho que os encontrar num sítio muito íntimo, no âmago mesmo de cada um para perceber como é que cada um deles me pode dar certas coisas”, afirma Olga. Esta não é uma peça criada de propósito para o corpo deles, por isso a coreógrafa tem tentado perceber as suas motivações. Para Olga, o trabalho passa por descobrir:  “que essas motivações também sejam as tuas e entrar no corpo daquele bailarino e fazer com que o corpo daquele bailarino entre um pouco em ti e percebas onde tu te vais encontrar dentro daquele corpo e em cada uma daquelas cenas.”

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Nesta peça, a exigência da coreógrafa prendeu-se muito ao real: “aqui não havia um faz de conta”. ” O que é que é real? Tem a ver com gestualidade e com a maneira de estar”, conta-nos Olga. Por isso, quando lhe perguntam o que é a Propriedade Privada, Olga diz sempre que é muita coisa, é uma peça em que a imagem fala por si.

Na busca pela realidade também se auxilia no cinema. Em 1996, esta peça surgia numa homenagem aos 100 anos do cinema. A coreógrafa fez uma procura entre as duas artes: “como é que nós, pessoas que fazemos espetáculos ao vivo, como é que nós podemos competir com o cinema, com a realidade do cinema, onde as coisas são mais reais que a própria realidade.” Os recursos são vários, a palavra é um deles. Desde diálogos de filmes de Michael Caine, o Padrinho ou Sex Symbol de Almodóvar, Propriedade Privada é feita de questões e afirmações vindas das vozes dos bailarinos em várias línguas.

“mesmo para quem viu o espetáculo é também uma novidade”

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Uma das bússolas do espetáculo é o cenário. Desenhado por João Mendes Ribeiro e reconstruído por Luciano Silveira conduz o espetáculo. A intenção da coreógrafa era que fosse um platô, que ao longo do espetáculo se pudesse desmontar e mostrar vários planos, como no cinema. Conseguiu. Duma remontagem para este espetáculo, saiu um mesmo cenário. Um cenário que pode ser uma parede de rua onde se passam cenas de sedução ou uma violação. As imagens que podemos ver foram colagens feitas pela coreógrafa ou por alguns dos bailarinos.  As colagens são diversas desde jornais dos anos 70 a imagens de divulgação de Génesis de Sebastião Salgado. Virado aos poucos surgem cenas interiores desde um casal numa cama, sexo no elevador ou um tango com vários bailarinos.

E será que após 19 anos passados os problemas sustentados no cenário são os mesmos? Olga interrogou-se sobre isso: “o que foi engraçado para mim foi procurar ou tentar encontrar razões, justificações e pontes de coisas que me preocupavam naquela altura e percebi que agora ainda continua tudo na mesma e ainda encaixa muito bem na situação atual do mundo, do país e do ser humano. Isso por um lado é triste, porque já passaram 20 anos”, afirma a coreógrafa. No entanto, confessa estar expectante com a receção do público tanto do que viu a peça em 1996 ou de uma geração que nunca teve essa oportunidade.

Propriedade Privada expressa-se claramente contra o anti-semitismo e os problemas sociais. Ali em palco existe um retrato de uma faceta do ser humano. A coreógrafa recorda que em 1996: “Havia uma parte da peça em que não houve um espetáculo em que não saíssem uma série de pessoas, por ser muito violenta” . Vamos ver se desta vez o público já está disponível para encontrar na dança uma representação do real.

Fotografias de Alípio Padilha