Baseado num incrível caso verídico, O Gene Rosa pretende contar uma história emocionante sobre uma grande mulher, mas as escolhas que os seus criadores tomam para a desenvolver tiram muito do potencial do filme. Estreia hoje nas nossas salas.

Depois da sua mãe e a sua irmã terem morrido vítimas de cancro da mama, Annie Parker (Samantha Morton) descobre um caroço no seu seio direito. Enquanto vai combatendo a doença, tenta também provar que não é nenhuma coincidência as mulheres da sua família padecerem todas de cancro, tomando um caminho que a levará ao encontro de Mary-Claire King (Helen Hunt), uma geneticista de renome, também a tentar provar a relação genética em alguns casos de cancro.

A minha vida é uma comédia, apenas tive que aprender a rir-me“. É com esta citação da própria Annie Parker que se inicia o filme. E Steven Bernstein tentou seguir essa ideia na construção da fita. Para isso foi criando várias (demasiadas?) situações cómicas para atenuar um pouco a carga dramática, mas o resultado não foi o pretendido. Em vez de fazer desses pequenos episódios mais humorísticos momentos de comic relief, a comédia acabou por ser o tom predominante durante toda a fita, e muitas cenas emotivas (como as mortes da irmã e da mãe da protagonista principal) tornaram-se ligeiramente idiotas.

Isto porque nem o realizador nem os argumentistas têm muito jeito para fazer uma piada bem contextualizada. Muitas delas são mal pensadas e parecem extremamente forçadas em algumas situações. Um bom exemplo disso é uma personagem da qual nem sabemos o nome que em todos os funerais tenta engatar Annie. Nem se pode chamar a este episódio (repetido desnecessariamente ao longo do filme) humor negro, pois não tem a mínima piada. Bernstein inventa ainda algumas metáforas demasiado óbvias e que fazem das suas personagens pessoas dignas de um filme de fantasia, algo evitável num filme biográfico.

Infelizmente tudo isto distrai-nos do drama principal que é, de facto, extremamente comovente e impressionante. Ninguém poderá ficar indiferente à vida de Annie Parker e, graças ao excelente desempenho de Samantha Morton, as cenas onde a vemos no hospital ou a confrontar o seu marido Paul (interpretado por um Aaron Paul que, mesmo ainda colado à sua personagem de Breaking Bad, tem uma performance interessante) são chocantes e desconcertantes. Há inclusive uma cena onde Annie janta com o Paul que culmina com um diálogo forte e até revoltante que dá a ideia de que, se fosse posta de parte a vertente dita cómica do filme, estaríamos perante um grande drama.

Seria até interessante observar exclusivamente a vida de Annie Parker, porque uma parcela do filme é reservada à desinteressante história de Mary-Claire King. King foi uma das grandes personalidades da medicina da segunda metade do século XX, mas a forma como são representados os seus estudos nesta obra banalizam completamente o seu trabalho e fazem a sua investigação parecer demasiado fácil. As cenas em que a vemos com a sua equipa em laboratórios ou em consultórios médicos não são nada cativantes e roubam “tempo de antena” às vivências da protagonista.

Sem dúvida que O Gene Rosa tinha os ingredientes necessários para ser um drama de emoções fortes, e algumas cenas comprovam isso mesmo. Mas os caminhos que se escolhem para contar a história emocionante de Annie Parker retiram muita da sua essência, fazendo deste título uma obra mediana.

5/10

Ficha Técnica

Título: Decoding Annie Parker

Realizador: Steven Bernstein

Argumento: Adam Bernstein, Steven BernsteinMichael Moss

Elenco: Samantha Morton, Helen Hunt, Aaron Paul

Género: Drama, Comédia, Biografia

Duração: 100 minutos