O Espalha-Factos terminou. Sabe mais aqui.
White Noise
Fotografia: Netflix/Divulgação

LEFFEST. ‘White Noise’ de mão dada com o fascínio e a frustração

A comédia negra de Noah Baumbach vai ser exibida nos cinemas portugueses a 8 de dezembro antes de estrear na plataforma Netflix

Nesta segunda-feira (14), o Teatro Tivoli BBVA voltou a acolher os amantes de cinema em variadas sessões ao longo do dia, mas o grande destaque vai para White Noise, o projeto que volta a reunir Noah BaumbachAdam DriverGreta Gerwig numa comédia negra que vai gerar comoção entre quem se aventurar a assistir ao filme. Ao longo da 16.ª edição do LEFFEST, os créditos de um filme são acompanhados por uma grande onda de aplausos que ecoam pela sala, mas neste caso os aplausos foram tépidos e de pouca dura, ainda que no meio conseguia-se ouvir quem aplaudia com entusiasmo.

Num esforço para ser levada a sério no mundo de Hollywood, a Netflix vai estrear três dos seus filmes mais antecipados nos cinemas portugueses antes do seu lançamento na plataforma. Tratam-se do drama épico Bardo, também conhecido na íntegra como Bardo, False Chronicle of a Handful of Truths, de Alejandro González Iñárritu, do filme de animação stop-motion Pinocchio, realizado por Guillermo del Toro no seu primeiro projeto inteiramente animado, e White Noise, que chegará às salas de cinema a 8 de dezembro antes de a plataforma tornar o filme acessível a todos os seus subscritores a 30 de dezembro.

A comédia negra, apimentada com apocalipses e um conhecimento detalhado da vida de Adolf Hitler, é a adaptação homónima da obra de Don DeLillo, um escritor com uma pequena mas dedicada base de fãs antes do lançamento da obra de 1985 o catapultar para a atenção das massas, hoje em dia considerada como um clássico de literatura pós-moderna. O Espalha-Factos foi à antestreia nacional da adaptação de um livro supostamente “inadaptável”, e podemos afirmar que é um dos filmes mais bizarros e exuberantes que 2022 tem para oferecer.

Noah Baumbach é um cineasta que divide o seu tempo entre escrever guiões e realizar filmes, com o seu último esforço, o drama sobre divórcio Marriage Story, arrecadar seis nomeações nos Óscares de 2020, com a nomeação de Melhor Argumento Original marcar a segunda vez que o realizador recebeu a distinção. Nesta feita, Baumbach não olhou a custos para realizar White Noise, que esbanjou um total de 80 milhões de dólares (76 milhões de euros) ao longo de um período de filmagens que rondou os nove meses de duração. Um filme de proporções épicas à frente e atrás da câmara, a comédia negra destaca-se numa longa obra de produções pequenas como o mais ambicioso da carreira do realizador americano.

White Noise é uma avalanche de temas e desventuras que giram à volta de Jack Gladney (Adam Driver), um professor de estudos sobre Hitler e marido de Babette (Greta Gerwig), com a qual tem quatro filhos, que é exposto a um derramamento químico que liberta um gás altamente tóxico. Quando se apercebe da gravidade da situação, Jack é confrontado com o seu maior medo: a sua própria mortalidade. O projeto foi selecionado para abrir o Festival de Cinema de Veneza e o Festival de Cinema de Nova Iorque em agosto e setembro, respetivamente.

É difícil falar deste filme sem referir a eventos específicos da trama, muito destes essenciais para a compreensão total de uma história constantemente imprevisível. Adaptações costumam estar sempre entre a espada e a parede no que toca às liberdades e restrições criativas, por vezes sendo uma recriação fiel da obra a ser apropriada a custo da sua qualidade geral ou até mesmo uma adaptação que oferece uma interpretação distinta da história, pondo-se a jeito para criticismos por partes dos fãs do trabalho original. White Noise aventura-se por uma rota que junta o melhor dos dois mundos, onde o filme apresenta uma narrativa que acompanha a estrutura do trabalho de DeLillo enquanto incorpora elementos originais que se encaixam perfeitamente no mundo absurdo da família Gladney.

Fotografia: Netflix

White Noise é um filme dividido em três partes que não podiam ser mais diferentes umas das outras. Desde a exploração do mundo académico com uma obsessão entre um ditador alemão e um cantor que definiu o rock and roll na década de 1950, ao medo incumbido numa doença incrivelmente fatal que se mantém invisível, o filme sofre de uma inconsistência tonal que em nada ajuda um projeto que quebra quase todas as normas e expectativas de uma longa-metragem.

Há muita coisa para se apreciar a um nível visual, com uma cinematografia que merece todos os louros por conseguir balançar um filme que se recusa a ficar preso a um só género. Lol Crawley, o diretor de fotografia, usa a câmara para regulamentar uma sátira social que não vê uso a qualquer tipo de travões, sempre a aumentar a escala do filme a um ritmo alucinante mas nunca sem devida causa. Por mais excêntrica que sejam as reviravoltas da trama, há uma força crucial que une todas as três secções do filme: não deixam de estar em conflito, mas não podemos argumentar que é um filme sem lógica.

Por mais incoerente que o filme possa parecer, White Noise é uma viagem arrebatadora num mundo a rebentar pelas costuras. O próprio filme começa com Murray Siskind, um professor obcecado por Elvis Presley interpretado por Don Cheadle, a apresentar uma palestra que defende os acidentes de carro em cinema americano como um género essencialmente alegre e despreocupado –  uma estranha introdução, mas é uma que encapsula o filme em que se encontra. Tanta coisa se sucede durante a primeira hora que é impossível de desviar o olhar, como se se tratasse de uma das casualidades mencionadas na abertura. Inerentemente, este é um filme que aborda um medo vinculado na estrutura da sociedade e um que se encontra constantemente num canto das nossas mentes, sempre à espreita. O pavor pela morte é a grande temática do filme, que apresenta um grande leque de críticas sociais que vão atrás da subcultura de consumerismo num mundo ditado pelo capitalismo, onde as prateleiras de um supermercado e marcas servem como um refúgio dos nossos medos.

Fotografia: Netflix

Pelo meio o filme ainda dilui-se em outras formas de comentário sobre a religião e a subestimação da perspicácia de criança, mas a morte, mais concretamente o grande mede à sua volta, é o cordel que une todo o discurso e ansiedade que a trama apresenta. Todas as preocupações e motivações da família Gladney giram à volta dessa exasperação, e de certo modo é uma ótima forma de solidificar a idolatria quase medonha pela conclusão natural do ciclo da vida. O filme chega a mencionar brevemente que Babette chegou a colecionar livros sobre o oculto para descobrir uma maneira de evitar a morte, escondendo-os na cave para que ninguém na família descobrisse os seus estudos (apesar de uma das crianças facilmente os encontrar num esconderijo desleixado).

Baumbach, enquanto guionista, faz uso preciso, com um toque do ridículo, dos diálogos entre as suas personagens, com personagens a trocar diálogos que tanto têm de graciosidade como observações mal-humorados que se encaixam lindamente na comédia inexpressiva do filme. O guião do filme é uma máquina de precisão, conseguindo adaptar até os cenários mais inconcebíveis do livro para um corresponde visual. Mesmo quando está à beira de transbordar, Noah Baumbach é um maestro que orienta a orquestra através de um caos organizado. Pode não ser um sentimento partilhado por muitos, mas é um afinco que mostra todas as qualidades do cineasta em primeira mão.

A barafunda do mundo do filme é mais fácil de engolir graças ao esforço dinâmico e química fenomenal entre todos os atores em cena, com leitura impecável de diálogos e expressões físicas que ajudam a tornar o ambiente do filme mais credível (isto é, dentro dos possíveis). Apesar de já se ter provado capaz enquanto ator dramático, Adam Driver sobressai com uma performance cómica excelente, ofuscando quase todo o resto do elenco com a genialidade do seu trabalho. É raro ver um filme de comédia que tanto investe no absurdo sem se retrair em território familiar, com medo de ser demasiado extravagante, mas Baumbach e Driver usam o burlesco como medalha de honra.

Fotografia: Netflix

Greta Gerwig, parceira regular nos projetos do realizador, não lhe fica atrás, navegando com sucesso dois lados fulcrais para a perceção da personagem: o superficial, em que Babette parece ser mais uma dona de casa que passa a vida com a cabeça na lua, e o misterioso, que acaba por ser grande parte do terceiro ato do filme. Os atores mais jovens, que constituem o agregado familiar, podiam ser uma distração no meio de tanta desordem, mas acontece o exato oposto. Algumas das piadas mais memoráveis do filme ficaram a seu encargo, e num filme abarrotado de grandes atores, Sam Nivola, Raffey Cassidy e May Nivola provam-se merecedores da sua presença no grande ecrã.

Sobre a sua conclusão, há pouco que se lhe diga. Enquanto as dimensões disparatas da trama diminuem, os comentários sociais saem disparados, deixando pouco espaço entre as críticas para o espectador poder respirar e processar o que viu antes da próxima começar. “Somos criaturas frágeis rodeadas por um mundo de factos ferozes“, é a frase que Jack narra perto da conclusão do filme, num esforço para consolidar a narrativa como uma obra incompleta apesar de as palavras caírem por terra. É uma tarefa complexa tentar concluir um filme que tanta coisa experimentou, mas a sua conclusão débil pode servir como mais um tópico de discussão para as mensagens do projeto que auxiliar um final narrativo. Fica aqui o aviso, e a recomendação, de que os créditos do filme são compostos por uma sequência coreográfica que não se relaciona a nenhum elemento narrativo do filme, mas consegue ser simultaneamente uma boa dose de entretenimento e uma sumarização das grandes críticas consumeristas da trama.

White Noise acumula-se a uma grande barafunda construída à volta de peças de grande prodígio. Baumbach provou-se digno de contar uma história impossível de levar ao cinema, e há quem defenda que ele fracassou em fazer um filme compreensível. Os seus esforços terão de falar por si mesmos, e o filme pode não ter os ânimos que merece por causa da sua excentricidade na época de prémios que se avizinham, mas White Noise é uma das experiências mais alucinatórias que a programação de longas-metragens de 2022 tem para oferecer, e é uma que deve ser experienciada pelo menos uma vez.

White Noise
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