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À Escuta. Indignu, David & Miguel e JÜRA são os destaques da semana

No fim de semana de véspera de São Martinho, o À Escuta, rubrica semanal do Espalha-Factos sobre os últimos lançamentos no mundo da música portuguesa, está de volta e com ele chegam as novidades da primeira semana de novembro. No penúltimo mês do ano começamos por conferir destaque ao novo álbum dos Indignu e aos novos singles de David & Miguel e JÜRA.

Falamos também do novo duplo single de moisés com a produção de DoisPês, a colaboração entre Teresinha Landeiro e Salvador Sobral, novos singles de MEMA., Ninguém, Garajau, Koho, Velhote do Carmo, gabrre, do novo longa-duração de Angelica Salvi e do EP de apresentação de ZD Pais.

adeus é o belíssimo regresso dos Indignu aos longa-duração

Quatro anos depois de umbra, é vez de darmos as boas-vindas a adeus, o bastante aguardado regresso dos Indignu aos projetos discográficos. Contando com menos uma faixa que o seu antecessor e 41 minutos de música, adeus está finalmente cá fora depois de já ter sido apresentado ao vivo no festival Amplifest, em outubro. Depressa se tornando num dos discos mais antecipados do ano para os fãs de pós-rock, devido à fasquia elevada dos seus singles, o disco marca a estreia da banda pela prestigiada dunk!records (em parceria com a norte-americana A Thousand Arms) e conta com a mistura de Ruca Lacerda (Mão Morta, Pluto) e a masterização de Birgir Jón Birgisson (Björk, Sigur Rós, Spiritualized).

Fonte: Bandcamp da banda

Começamos adeus com o tema ‘a noturna’, uma faixa sombria com um tom tenebroso e melodias subtis e emotivas a tentarem aparecer para nos entregar um belo cartão de visita à sonoplastia que os Indignu nos querem aqui apresentar. Entramos então numa caminhada de guitarras trovadorescas, em ‘devolução da essência do ser’, que se fazem sentir como um autêntico presságio aos momentos catárticos trazidos por este êxtases fulminantes que a banda já nos habituou, interpolando-se entre momentos divinos e trevosos que criam este turbilhão de sentidos e sensações sedantes e hipnotizantes. O piano emotivo de ‘em qualquer estranha’ chega para nos limpar o palato e para nos preparar em condições para a segunda e derradeira parte de adeus. Acaba por servir também de ambientador para o violino comovente que antecipa os riffs mais impactantes de todo o disco, na multifacetada, beatífica e belíssima ‘urge decifrar o céu’, o primeiro avanço de adeus. Culminamos então com o segundo e último tema de antecipação do disco, ‘sempre que a partida vier’, onde o estado de espírito se vai imaculando ao sermos coagidos a entrar na frieza sentimental que estas composições detalhadas e mui belas nos oferecem.

adeus é um excelente álbum de pós-rock. Fazendo-se variar entre os momentos mais sublimes  e apaziguadores, trazendo à cabeça uns Sigur Rós, e os mais agressivos e corpulentos que fazem uns Godspeed You! Black Emperor corar de vergonha, os Indignu vão buscar valências aos confins obscuros do metal nórdico, enquanto também trazem os traços celestes de uns Spiritualized, que tão bem se misturam com os contrastes de brilho e escuridão de um Panopticon

Pelo meio de harmonias disruptivas e mares cenográficos de poesia sonora, adeus é uma obra visceral, intensa, eufórica e que acima de ser ouvida, deve ser sentida. Que não tenhamos de esperar mais quatro anos para voltar a ouvir um longa-duração de Indignu, mas se tiver mesmo que ser, aqui estaremos para sentir o seu pós-rock eclético.

– José Duarte

David & Miguel viram insulares nesta business trip ao ‘Funchal’

‘Funchal’, juntamente com Ponchal (versão instrumental), é o resultado de uma residência artística realizada no âmbito do projeto Carta Branca, que teve apresentação na edição de 2021 do Aleste e que contou com o apoio da Câmara Municipal do Funchal e da Direção Regional da Cultura da Região Autónoma da Madeira.

Ao abordar uma compra ambiciosa de OLX, a faixa emana responsavelmente todas as qualidades e critérios que uma música de David & Miguel – leia-se, David Bruno e Mike El Nite – deve ter. Enquanto recebemos os detalhes desta viagem de negócio, recebemos a já habitual declaração amorosa pelo que é típico da terra em que se passa a ação documentada no tema, neste caso, recebemos as tão saborosas referências aos paus de loureiro, à poncha, às bananas e obviamente a uma das marcas mais exportadas da região, a marca CR7.

É um pequeno mas agradável projeto este dado pelos mui gentis David & Miguel, sem nunca esquecer claro, as sedutoras guitarras de Marquito (aka Marco Duarte).

– José Duarte

JÜRA regressa em voltarpramim’

voltarpramim é o mais recente single de JÜRA, artista emergente que se estreou em 2020 com a edição de ‘ÉS O AMOR‘, mas que tem vindo a conquistar cada vez mais pessoas e espaço sobretudo ao longo deste ano, sobretudo após o lançamento do seu primeiro EP, jüradamor, em maio. Para além do lançamento deste single, a novidade estende-se: ‘voltarpramim‘ fará parte de uma edição especial em vinil do referido EP, com data de venda anunciada para 15 de novembro.

Fonte: Divulgação

A canção explora a fundo o amor próprio e o regresso às raízes, como a própria artista explica: “Voltarpramim é decidir escolher-me de todas as vezes. Calar o mundo. Sentir o peso, ir embora e deixar ficar o amor. É um fim sem ser e um início que não é. É ir a saber que tudo o que cantei senti. E quando jurei não menti.”, conta no comunicado enviado à imprensa.

Envolta em ritmos que conjugam o R&B, a pop e o hip-hop, ‘voltarpramim‘ é ainda encoberta por uma vibe lo-fi que permite a que a voz ímpar de JÜRA se destaque para cantar aquele que tem sido o seu mantra: “o amor, a dor, a dordamor.

Kenia Nunes

É o duplo single de moisés sobre a produção de DoisPês

Em ano de estreia nos longa-duração, com o lançamento do disco valsa até ao fim, moisés está de regresso aos lançamentos com este single em dose dupla, ‘abençoado/no chão’. Com este lançamento também temos a estreia de moisés na “não-produção”, tendo-se focado nas palavras enquanto as batidas ficaram a cabo do prolífico produtor Dois Pês.

Fonte: Divulgação

Na primeira metade, encontramos um moisés abençoado, que ao despir a sua alma, vai largando umas introspeções palavradas sobre o som melódico do portuense DoisPês. Na reta final, o rapper e produtor solta um refrão que para além de ser colar facilmente ao ouvinte, é também deveras romântico, associando o amar-te ao ir a marte, tal é a paixão sentida. Ao cairmos no chão, os drums fazem sentir-se mais que na sua antecessora e moisés rende-se aos efeitos de voz para continuar com esta ambiência que cambaleia entre ébria e reflexiva.

Mais um retrato exemplar do bom hip hop que vagueia pelo cenário da música independente em Portugal.

– José Duarte

Teresinha Landeiro recebe Salvador Sobral em ‘A Lei da Recompensa’

‘A Lei da Recompensa’ é o nome da faixa onde Teresinha Landeiro recebe Salvador Sobral como convidado de eleição e conta com composição de Pedro de Castro.

No comunicado partilhado com a imprensa, a jovem fadista explica de onde nasceu a colaboração e retrata o espírito da faixa. “Durante a pandemia, ainda quando as casas de fado iam abrindo timidamente, e as pessoas tinham medo de sair à rua, o Salvador era presença assídua na Mesa de Frades. Penso que essa foi uma das razões para eu acreditar que a admiração é mútua, e foi isso que me encheu de coragem para o convidar a cantá-la comigo. Uma canção sobre dar amor, ensinar a receber amor, e um dia ser recompensado pelo amor que soubemos dar, só poderia ser cantada em conjunto com alguém que é amor em forma de Arte. Obrigada Salvador!”

Desenhada a partir de “icónicas noites” passadas no espaço Mesa de Frades, em Alfama (Lisboa), ‘A Lei da Recompensa’ revela-se magnânima na sua beleza. A voz de Salvador Sobral encanta-nos – como sempre e como é de esperar – e Teresinha canta com a dor necessária, transportando-nos por caminhos perdidos onde o medo vai sendo preenchido por aconchego e união. Entre o compadrio existente ambos os artistas, numa perfeita química, e muita emoção, ‘A Lei da Recompensa’ é uma mais que belíssima faixa. Para ouvir e deixar que a emoção tome conta de nós. Nós não nos responsabilizamos por quem deitar uma lágrima ou outra a escutá-la.

– Miguel Rocha

MEMA. revela um lado ‘Imortal’

A caminho do seu longa-duração de estreia, Sofia Marques (aka MEMA.) revela ‘Imortal’, o seu segundo single de 2022, depois de em abril ter revelado ‘Descontrolado’.

Sobre esta ‘Imortal’, no comunicado enviado à imprensa, MEMA. refere o seguinte. “‘Imortal’ é um tema que escrevi para me lembrar de viver o momento, parar de pensar demais e de tentar agradar a outros ou obsessivamente pensar no que os outros pensarão de mim”.

‘Imortal’ é uma faixa que inicia por caminhos da eletrónica mais etérea e espaçosa, desenrolando-se por entre caminhos da folk, do rock e, claro está, da pop, lembrando um pouco algumas explorações de Rina Sawayama (nota para os vocais de Sofia nesta faixa – há algo na entrega e nas melodias que revela bem a influência da autora de SAWAYAMA na artista aveirense) pelo universo do multigénero. 

Envolta em melancolia e magia com teor dançável, ‘Imortal’ emerge de um espaço volátil e emocional mas, e como nos tem habituado MEMA. nos seus últimos lançamentos, sempre com abertura para um refrão a demonstrar o seu calo para fazer canções pop não convencionais que não perdem qualquer capacidade de serem orelhudas à mesma.

– Miguel Rocha

É o ‘Silêncio’ de Ninguém

‘Silêncio’ é o novo single de Ninguém.

Será que a palavra ninguém, estará intrinsecamente conectada com o conceito de silêncio? Pergunta parva, ou talvez até sem nexo, mas é que se pensarmos bem, silêncio é o som propagado por ninguém, pois este se baseia na supressão de ruído e se ninguém emana ruído, presumo que o que nos resta seja silêncio. De qualquer das formas, este Ninguém, artista enigmático do cenário independente português, soltou-nos aqui um ‘Silêncio’ musicado. Uma balada ternurenta tecida sobre uma calmaria harmônica sobre a qual este tal Ninguém vai largando umas palavras bonitas e deixando os ouvidos dos ouvintes num pleno estado de conforto.

A música sucede ‘Nada, Ninguém e Sombras’. Portanto, em tom de curiosidade, perguntamos para o ar, será que vem aí projeto? Sabemos que ninguém vai responder, mas não custa nada tentar.

– José Duarte

‘Viciado em Ti’ é mais uma demonstração da qualidade dos Garajau

André Pires Costa e Tiago Luz são os Garajau e a sua música continua a encantar-nos. Com ‘Jardim’ e – especialmente – ‘Ferver’, deram os primeiros passos da qualidade aparente dos seus lançamentos e esta ‘Viciado em Ti’ mantém a sequência viva de boas canções do duo.

Descrita como uma “canção sobre o amor que não conseguimos largar”, como podemos ler na descrição do teledisco, ‘Viciado em Ti’ vive do seu refrão orelhudo, invocando a influências de uns Os Azeitonas na sua instrumentação pop rock, e da componente romântica da canção, sempre presente na sua duração, a querer levar-nos até *aquela* pessoa. O incentivo está lá: a bola agora está do nosso lado. Da parte dos Garajau, a história continua – e mal podemos esperar para ver o que lançam a seguir.

– Miguel Rocha

Koho curte o fim de semana em ‘Sábado‘ e ‘Domingo

Sábado‘ e ‘Domingo‘ são os novos singles de Koho, nome artístico de Pedro Gonçalves que, em 2020 deixou a bateria para passar a frontman. Seduzido pelo rock psicadélico e pela música eletrónica dos anos 80, dessa inspiração nasceram canções como ‘Window Daze‘ e ‘Amiga‘, e agora, este par de canções.

Como pingos de chuva a caírem num sábado chuvoso, a canção instrumental conquista pela calma e pelo aconchego, não descurando de todo de uma vertente enérgica. Já ‘Domingo‘ é invadida por uma melancolia que se revela nos momentos em que a música fica mais parada, onde os ritmos estagnam e o som é mais baixo, apenas para voltar a subir novamente, mostrando a fórmula constante e consistente de que é feita. A eletrónica de Koho veio para arrebatar e, com este lançamento duplo-conceito, instiga a nossa curiosidade para aquilo que aí vem.

– Kenia Nunes

Velhote do Carmo revela o seu ‘Saco de Box’

Depois de ‘Mau Andar’, Velhote do Carmo revela ‘Saco de Boxe’, segundo avanço de Páginas Amarelas, primeiro curta-duração a solo do artista envolvido em projetos como Zanzibar Aliens, Stckman ou Guy Proença.

Em ‘Saco de Boxe’, temos a oportunidade de escutar uma malha analógica deliciosa e enternecedora, recheada de personalidade própria. Convida-nos ao passo de dança melancólico e romântico quando nos envolve nas suas harmonias pop, abraça-nos com a delicadeza dos vocais deste Velhote, desaguando-nos num belíssimo refrão influenciado pelo universo da pop dos anos 60. Tudo correto, tudo no sítio – e a repetição é obrigatória. 

Tal como ‘Mau Andar’, ‘Saco de Box’ convence-nos: parecemos estar perante uma das estreias mais auspiciosas de 2022. Páginas Amarelas tem data de lançamento marcada para o próximo dia 11 de novembro com selo Discos Submarinos.

– Miguel Rocha

‘água de beber’ abre o próximo ciclo de gabrre

Dois anos após estrear-se com tocar em flores pelado, gabrre, multi-instrumentista, compositor e produtor brasileiro a residir faz dois anos em Lisboa, dá início a um novo ciclo de lançamentos com ‘agua de beber’, o primeiro avanço de don´t rush greatness, o seu segundo longa-duração.

Inspirada “de forma bastante peculiar por uma visita em Mali, na África, pelo Google Earth” e pela visitas do artista a “um restaurante de comida brasileira em Lisboa” durante o período de confinamento, ‘água de beber’ joga entre o neopsicadélico de uns Animal Collective e a folk dissonante de Mount Eerie, conjugados num universos de pop dissonante, mas enternecedora, onde a voz de gabrre nos vai guiando por todos os cantos e recantos da canção – e olhem que há muitos a visitar.

don’t rush greatness tem data de lançamento prevista para os primeiros tempos de 2023.

– Miguel Rocha

A harpa de Angelica Salvi fixa Habitat

Habitat é o segundo longa-duração da harpista Angélica Salvi. O sucessor de Phantone e vem solidificar a presença da instrumentista que, para além destes projetos a solo, tem participações em músicas dos mais variados géneros, tendo colaborado com Ece Canli e Moullinex, por exemplo.

No disco, Salvi formula um trabalho de “memória, familiaridade e relações” a partir do abstrato – a artista retira a formalidade inerente a um instrumento como a harpa, desfazendo-se das conceções e atribuindo-lhe um significado seu, abrindo espaço ao etéreo, à magia e ao sonho. A construção sonora e a experiência de um exercício de força e de calma é aguçada. Angélica Salvi surge com a harpa enquanto musa onde, a cada nota, constrói-se Habitat.

– Kenia Nunes

Alta Indefinição é o EP de apresentação de ZD Pais 

Eu já nasci com a corda ao pescoço / Isso define o que sou” são as primeiras palavras de Alta Indefinição, o EP de debut de ZD Pais. Está lançado o mote das próximas quatro canções: ansiedade e um temor existencial que parece definir uma geração permeiam as letras de José Pais, o faz-tudo deste projeto que ganha agora asas para voar. ‘Alta Indefinição‘, ‘Independente‘ – será que é assim tão bom sê-lo? –, ‘Pelo Sim, Pelo Não‘, mantra cantado sob calmaria instrumental; ‘Cerveja no Topo do Bolo‘ e ‘Poço de Contradições‘: são estas as canções que compõem o EP de ZD Pais, um jovem que, na realidade, é da terceira idade.

ZD Pais pertence àquela gangue dos indie boys tristes, puxando ora Mac DeMarco ora The Walters, e trazendo uma pitada de rock à lá Urge Overkill. Há algo de inerentemente catártico em cantar a uma só voz os males de uma geração – façamo-lo com ZD Pais.

– Kenia Nunes