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MARO
Fotografia: Divulgação / Joey Schultz

Entrevista. MARO: “Para mim, a música é sobre partilha”

MARO volta à ação munida de leveza e confiança. Em can you see me?, disco editado esta sexta-feira, 26 de agosto, a artista abraça um novo capítulo da sua vida com muito pop e upbeat à mistura. Sob um olhar introspetivo e consciente, em torno dos amores e desamores, encontramos uma MARO vulnerável ao longo de 14 faixas, não fosse ela encontrar na escrita a sua terapia. É cantora, compositora, multi-instrumentalista e produtora: ela é tudo e mais alguma coisa, mas, na verdade, é fazer música com outros que lhe dá mais prazer. Por isso, na escrita e produção conta com a indispensável ajuda de John Blanda, com Pedro Calloni na mistura e Alan Silverman na masterização.

O Espalha-Factos conversou com a artista sobre o novo álbum, sobre a sua passagem pela Eurovisão 2022 e sobre a MARO que largou tudo aos 20 anos e mudou-se para os Estados Unidos para apostar naquilo que a move: a música.

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Começaste a escrever música com 11 anos, mas só com 19 é que percebeste que querias fazer disso vida. Em entrevista à MTV Portugal, comparaste as tuas criações, durante esse período, a “uma espécie de um diário secreto”. O que te fez mudar de rumo?

Desde cedo, sempre que ouvia alguma música que gostava ou alguma música nova que descobria, ficava mega fascinada e não conseguia dormir, mas, na altura, não dei atenção. Na realidade, não olhava para isso como “calma, isto é mesmo especial”, porque, pensando bem, não é qualquer coisa que nos tira o sono. Aos 19 anos, tinha que estudar, mais uma vez, para um exame qualquer e isso aconteceu de novo, com uma música do Milton Nascimento. Então, acho que, de repente, deu aquele flash de “o que é que estou a fazer na escola (risos), tenho é que fazer música”. Nesse momento, percebi a dimensão daquela sensação, ou seja, do que a música provocava em mim.

Foste estudar música para a Berklee College of Music e acabaste por ficar a viver em Los Angeles. O que te levou a apostares numa carreira artística fora de Portugal e que impacto teve em ti?

Decidi ir para fora porque percebi que queria fazer música, que queria fazer a minha música e, para além disso, que queria experimentar e não ter tantas, digamos, regras, em nenhum sentido. Em Portugal, na altura, porque agora o panorama é diferente, fazia-se clássico ou jazz, mas como eu estava naquela de “quero é fazer as minhas coisas, quero é experimentar”, pensei logo vou ver coisas fora daqui”. Inclusive, vi também uma escola em Liverpool, ou seja, queria sítios diferentes. A Berklee era um bocado mais apelativa e acabei por concorrer também. De algumas, a Berklee respondeu no dia seguinte, a dizer que eu tinha aquelas provas de admissão duas semanas depois. Desde aí, foi tudo acontecendo. Portanto, tive mesmo aquela sensação que para ir para música, tinha que atirar-me de cabeça e fazer as minhas coisas. Lá está, em Portugal, senti que não ia conseguir fazer isso, pelo menos no início.

Acabaste por sair da tua zona de conforto…

Sim, sem dúvida! Vivi em Miraflores, em casa dos meus pais, até aos 20 anos. Com essa idade, ir viver para fora pela primeira vez, ir para os Estados Unidos pela primeira vez, falar uma língua diferente todos os dias pela primeira vez, é mesmo sair da tua zona de conforto. Não é chegar a casa, ao final do dia, cansada, e estar em família – e estar tudo certo. Não. Estás longe, tudo é novo, tudo é diferente, estás a estudar noutra língua e a conhecer mil pessoas de sítios diferentes. É tudo desconfortável, nesse sentido.

Em contrapartida, cresci mil, precisamente por conhecer pessoas diferentes, por estar fora da minha zona de conforto. Para já, logo aí, há uma espécie de crescimento pessoal. Claramente, nesses três anos, cresci, talvez, o equivalente a uma adolescência moderna. Para além disso, deu-me confiança. Não só pessoalmente – fiquei mais resolvida, mais calma – , como também musicalmente, como artista – ganhei uma confiança que veio da prática. Nesse período, comecei a cantar à frente de pessoas, a fazer concertos – não só na escola, mas também a tocar com amigos – , ou seja, comecei a exercer. Isto todos os dias. Com isso, ia cada vez mais percebendo que era isto que realmente queria fazer. Às vezes, tu escolhes, mas ainda tens que apostar e descobrir. Foi precisamente no meu primeiro semestre que pensei “ok, claramente era isto que devia estar a fazer há quinze anos”, só não sabia.

Desde a tua passagem na Berklee, começaste a apostar na promoção do teu trabalho por meios digitais. Refiro-me ao Berklee People, em que convidaste colegas para interpretarem um tema contigo. Mais recentemente, criaste ITSAME, MARO!, que percorreu as bocas do mundo pelos duetos à distância que fizeste com artistas de renome. O que mais retiras dessas iniciativas?

Para mim, a música é realmente sobre partilha. Sinto mais prazer em fazer música quando a faço com os outros. De cada um desses encontros, consigo sempre retirar alguma coisa boa, sempre mesmo. Não sei especificamente dizer o quê, mas só esse prazer e felicidade que nasce de cada vez que tu tocas e partilhas um momento com alguém, ainda por cima alguém que tu admiras, é a confirmação que estás a fazer o que tu gostas. Para além disso, aprendes musicalmente, porque estás atento e vês o que é que a outra pessoa faz. Cheguei a aprender músicas que, se calhar, não conhecia tão bem. Depois, ia ouvir e pensava “ah estou a cantar uma coisa que nunca tinha cantado” e é assim que se vai ganhando repertório, mesmo com este género de coisas. É mesmo importante, sem tu te aperceberes.

No meio disto tudo, onde entra o Jacob Collier? Sabemos que revelou-se uma espécie de fio condutor entre ti e a Quincy Jones Productions, por quem és atualmente agenciada. Que papel é que ele teve na tua evolução enquanto artista?

Ele encontrou o meu Instagram e acabou por me mandar mensagem a dizer que gostava imenso do meu trabalho, do género “um dia, gostava de fazer qualquer coisa em conjunto”. Meses mais tarde, voltou a mandar-me mensagem a dizer que ia para LA. Como ele sabia que eu vivia lá, perguntou-me se eu ia estar por esses lados e, portanto, esse encontro acabou por acontecer. O Jacob Collier teve um papel absurdamente grande. Para já, porque graças a ter tocado com ele, a Quincy Jones Productions passou a conhecer o meu trabalho, não como parte da banda, mas como artista a solo, e ficou com interesse em trabalhar comigo. Para além disso, também em termos de experiência, pois nunca tive feito uma digressão daquele tamanho. Tocámos durante um ano inteiro, pelo mundo inteiro, com um ritmo muito intenso.

Por exemplo, comecei a estudar música com quatro anos, adoro estas coisas mais difíceis e desafiantes. Na realidade, sempre tive facilidade, só que na minha música, se calhar, não exploro tanto esse lado, até porque, às vezes, para mim, as coisas mais simples é o que me toca mais. Mas, de repente, ter oportunidade de, durante um ano, tocar a música do Jacob, que é um génio da nossa geração, é completamente incrível. Ir tocar com banda, ou seja, não ser eu a pessoa da frente, estar atrás e aproveitar isso, porque adorei essa sensação de “bem, eu posso fazer a minha parte e estar a ver o concerto de outra perspetiva”. Era muito giro. Portanto, para mim, foi incrível ter a oportunidade de fazer um monte de coisas musicais que adoro e, se calhar, não faço tanto na minha música. Digamos que essa experiência deu-me também alto ritmo e estaleca num lado musical que eu tenho e não exploro tanto.

Fotografia: Divulgação / Joey Schultz

Sobre a tua participação na Eurovisão 2022, em conversa com o EFVisão, podcast do Espalha-Factos, afirmaste que tanto tu, como as cinco coristas que te acompanharam, iam “tentar por tudo que Portugal tenha orgulho da nossa atuação”. Sentes que conseguiram?

Acho que sim! Acho que passámos o que, de facto, vivemos lá, que foi alta parceria. Mais que tudo, estávamos ali para fazer uma coisa bonita em conjunto, não interessando o resultado e acho que isso passou. Apoiámos todos os outros países, ouvimos as músicas deles, cantámos as músicas deles, estávamos bem com toda gente. Acho que, para além do momento musical, todo esse convívio e experiência também importa. Mas, sim, sinto que demos um bom nome a Portugal. Portugal é brutal e temos muito orgulho no nosso país. No final de contas, não olhámos para aquilo como uma competição, mas mais como “brutal, estão aqui não sei quantos países a fazer a mesma coisa, bora aproveitar” e acho que isso passou, as pessoas ficaram felizes.

Estavas à espera de chegar tão longe – e alcançar um 9.º lugar? É de relembrar que a tua pontuação, de 207 pontos, é a segunda mais alta do país, aumentando face ao que The Black Mamba tinham conquistado em 2021.

Não, mesmo. É assim, realmente meio que sabia que a Ucrânia ia ganhar, já tínhamos falado bastante sobre isso, mas nem me chateou. Sei que há muita gente a dizer “ah, mas isto é sobre música, não é sobre política”. Na realidade, até achei bonito, de repente, haver um continente todo unido a pegar também na competição para dizer “estamos com vocês”. Sabia que não estava a levar a canção mais festivaleira de sempre. Estava naquela de “se ficarmos em último, é na boa”. Estava um bocado até à espera disso e, depois, tudo o que surgisse ao de cima ia ser bom. Mas, lá está, gostei imenso da música, foi super bonito o momento do Festival, em Portugal, e o facto de tantas pessoas gostarem já só pensava “chegarmos aqui já foi hiper especial, somos seis a cantar em palco, vamos mas é aproveitar”. Mas, sim, foi realmente uma surpresa o resultado.

Sentes que a tua passagem pelo concurso foi um marco importante na tua vida artística e pessoal?

Sim, sem dúvida! Sempre quis construir a minha carreira aos poucos, com calma, mas sentia que, estranhamente, o meu país não me conhecia tão bem – não a mim, mas ao meu trabalho. Tinha mais gente a ouvir e a conhecer em qualquer outro país do mundo do que em Portugal, que é o meu país. Então, fiquei “ok, vou aceitar o convite do Festival”. Aliás, já tinha dito que “não” três anos antes, quer dizer, três anos consecutivos mas antes. Esta foi a primeira vez que pensei “se calhar passo, vou ao Festival, levo uma música que sou eu e, mesmo que fique em último, pelo menos as pessoas ficam: calma, mas quem é esta MARO, como é que eu nunca ouvi falar sobre ela?”. Essa era a ideia, de todo estava à espera de chegar e, de repente, ter uma música que criou mega impacto. Desde aí, aconteceu tudo.

Depois da Eurovisão, fizeste uma digressão por Portugal. Levaste até ao público temas antigos e recentes, num set acústico, juntamente com a tua banda e algumas convidadas especiais. Qual foi o feedback do público?

Incrível! Pessoas que já conheciam [o meu trabalho] disseram que era muito giro estar a ouvir agora novos tema. No entanto, para mim, a melhor coisa foram as pessoas que só conheciam a música que levei ao concurso. Fui perguntando, em alguns concertos, quem é que só conhecia a ‘saudade, saudade’ e havia sempre quem levantasse o braço. Isso, para mim, foi o melhor feedback, ou seja, ter pessoas que só conheciam uma música, mas que resolveram investir tempo, energia e, em alguns casos, até dinheiro, para ouvir mais e conhecer mais. Portanto, saber que as pessoas gostaram do tema a esse ponto, trouxe-me hiper felicidade. Também depois ouvir essas mesmas pessoas a dizer que gostaram de tudo o resto que ouviram… Percebi que realmente valeu a pena ter ido ao Festival e à Eurovisão, porque teve mesmo um impacto grande.

É obrigatório a ‘saudade, saudade’ estar no alinhamento?

Acho que sim, pelo menos por mais algum tempo. Percebo, às vezes, que os artistas se fartem de cantar certas canções, mas, ao mesmo tempo, acho que é um bocado injusto. Neste caso, as pessoas estão a conhecer-me mais agora por causa da ‘saudade, saudade’. Não posso ir para um concerto – quer dizer, posso, mas acho que não seria justo – e não cantá-la. Há quem diga “ah, mas o artista faz o que quiser”, mas se há ali um elo de ligação que fez as pessoas quererem vir conhecer mais, acho que é justo e generoso da nossa parte, mesmo que já estejamos super cansados. É pensar do tipo: “esta é para vocês e obrigada por estarem aqui”.

Revelaste ao Gerador que os volumes que lançaste em 2018 foram “o fechar de um capítulo”, pois “não eram onde eu estava musicalmente”. O it’s OK e o MARO & Manel também foram uma espécie de “impulso”. É seguro dizer que este can you see me? representa um novo capítulo da tua vida?

Sim! Quer dizer, representava, porque isto foi feito há dois anos, o Covid é que atrasou. Agora, estou com 12 álbuns no computador à espera de serem gravados (risos). Mas, sim, claramente representa uma fase mais leve, em que finalmente estou a explorar um som que queria explorar há uns anos. Não estou a pegar em coisas antigas, gravar e lançar. Escrevi tudo em 2020, com este meu melhor amigo, o John Blanda, mega pianista e produtor do Minnesota. Ok, tem dois anos, mas é uma cena atual, porque representa uma fase recente da minha vida, lá está. Inclui muito o meu 2018 e o meu 2019. Por exemplo, 2018 foi o primeiro ano em que vivi realmente sozinha, com um quarto só para mim, aos 24 anos. 2019 estive em digressão o ano inteiro, vivi coisas diferentes e fui crescendo muito como pessoa. Comecei a ver a vida de um jeito mais leve, a viver coisas mais felizes e, se calhar, deixei de estar tão dorida de coração, sabes? Acho que este álbum apanha essa nova maneira que de ver as coisas. Nova, que não é nova, porque eu nem sei onde mudou, mas houve ali uma altura de crescimento e que se nota neste álbum.

‘am i not enought for now?’, ‘we’ve been loving in silence’, ‘it keeps on raining’ e ‘like we’re wired’ foram as amostras que lançaste em antecipação a este projeto. Alguma razão em específico?

Há umas que tu só sabes. No dia em que escrevemos a ‘we’ve been loving in silence’, sabia que ia ser um single. Não sei se por ser super simples… Mas tanto o John, como eu, adorávamos e houve aquela cena “ah, esta é de certeza”. As outras tu ouves e pensas no que tu queres mostrar primeiro. A ‘am i not enough for now?’ também foi assim. Quando a escrevemos e acabámos de a produzir, sempre que a ouvíamos, ficávamos sempre felizes e bem dispostos. Também achei que, se calhar, não iria ser tão comercial, mas só o facto de poder haver a chance das pessoas sentirem um pouco da alegria que eu e o John sentíamos quando ouvíamos essa canção, ficámos “ah, então lançamos essa”. Supostamente ia lançar um último single, que era o nome do álbum, mas até acabámos por guardar.

A propósito da ‘we’ve been loving in silence’, ficaste a cargo da direção artística do videoclipe. Isso ajuda a tornar a tua visão para este universo mais ao teu gosto?

Sim, mas, imagina, não sou daquelas pessoas que quer fazer tudo sozinha. Tem sido assim, porque não tenho ainda sources, fundos, para trabalhar com quem quero, mas normalmente as ideias estão sempre lá. Tem sido muito amador, mesmo com os álbuns passados, fiz sempre tudo sem dinheiro nenhum. Já foi uma luta ir estudar para fora, bolsas e não bolsas, portanto, para mim, é assim: vou-me focando na música e, um dia que tenha recursos, começo a fazer a parte visual mais forte. Mas, enquanto não tenho recursos, o que faço é o seguinte: se há algum conceito que seja simples o suficiente, como foi o caso do Salvador Sobral –  aliás, já tinha esta ideia há anos, de começar uma música e, de repente, ter outro artista, não outra pessoa qualquer, mas outro artista a cantar como se a música fosse dele – , pergunto a um amigo qualquer, vamos para um estúdio barato, com uma câmara parada e fazemos uns planos giros. Não é preciso recursos desde que o conceito seja giro. Mas respondendo à tua questão diretamente, se por acaso houvesse um artista de fora que tenha uma visão brutal de uma música minha, tudo certo. Não penso que tem que ser a minha visão. Lá está, a parte da partilha. Portanto, não só na música, mas na arte em geral, no mundo criativo, acho que é sempre incrível juntar ideias. É giro encontrar também pessoas que me ajudem a tornar isso um conceito possível.

‘when mama used to sing’ é a faixa que abre este disco, trazendo na bagagem uma forte carga emocional e pessoal, em termos de lírica e ambiência sonora. Logo nos primeiros segundos, escutamos umas vozes, que parecem retiradas daquelas filmagens antigas…

É exatamente isso (risos).

Interpreto isto como uma revisita às memórias da tua infância. Que significado tem esta canção para ti?

Esta canção é tudo, na realidade. A minha mãe foi a minha introdução à música, a minha mãe é professora de música e foi quem nos pôs, a mim e aos meus irmãos, a estudar desde pequeninos. Comecei a ter aulas de piano aos quatro anos. Estar, hoje em dia, a fazer o que amo na vida deve-se à minha mãe e, depois, ao meu pai, que me foi mostrando, ao longo da vida, as minhas atuais músicas preferidas, os meus atuais artistas preferidos, ou seja, bebi isso do meu pai. Achei muito incrível, no sentido de fazer sentido, esta ideia de começar um álbum, que finalmente é mais recente, com aquele tipo “Lááá” que aparece de base. Ia muito a concertos de música clássica, porque a minha mãe era do mundo clássico e, antes de começar um concerto, tu afinas e queres tentar afinar com o Lá. De repente, ao ouvires isso, pensas que o álbum vai começar, ou seja, está tudo a afinar agora. Há precisamente uma filmagem, quando tinha quase dois anos, em que estou a cantar e a minha mãe a falar e também a cantar. Tirei o áudio desse vídeo e usámos como sample, exatamente por isso, estamos a começar com o que foi o meu começo neste mundo, mesmo sem saber.

Continuas a escrever canções numa visão introspetiva, mas o teu estado de espírito mudou totalmente. Os teus trabalhos anteriores são escritas melancólicas e nostálgicas. Neste álbum, sinto que estás mais com os pés assentes na terra em relação ao amores e desamores, abordando essa temática de uma forma mais leve e consciente. ‘never been so sure’, ‘but now i let you go’, ‘secrets i’m trying to keep’ ou ‘can you see me?’ são exemplos perfeitos. O que te influenciou exatamente na escrita?

Tenho escrito e ainda escrevo sobre coisas que vivi, acontecimentos mais pessoais e foi exatamente isso. Fui percebendo coisas mais leves. Mas, lá está, acho também que são fases da vida. Por exemplo, este monte de música que está agora no meu computador, na realidade, são um monte de coisas outra vez mil melancólicas e, talvez, mais parecidas com o it’s OK. Mas, o que me inspirou agora foi isso, vivi uma fase realmente mais leve, mais feliz e mais resolvida. Acho que isso se mantém, mas não quer dizer que, no futuro, não tenha dias tristes, em que escreva coisas mais pesadonas.

De certa forma, a música é, para ti, a ferramenta principal para te ajudar não só a organizar as tuas vivências, como também a saber lidar com elas…

Exatamente! Sabes quando dizem que faz bem chorar? Para mim, é mais: faz bem escrever. Quando estou incomodada com alguma coisa, super triste ou super feliz, parece que a maneira que encontro de expor isso, de me sentir mais leve e melhor, é sempre pela música.

Tens uma colaboração neste álbum, na ‘juro que vi flores’, com o Milton Nascimento. Tens vindo a afirmar que “ele é das razões mais óbvias pelas quais estou a cantar”. Quando escreveste esta canção, pensaste imediatamente que tinha que ser cantada com ele ou essa ideia surgiu mais tarde?

A ideia surgiu mais tarde, porque a ‘juro que vi flores’ e a ‘secrets i’m trying to keep’ são as únicas canções do álbum que, na realidade, escrevi – escrevi quando o Covid começou, quando fui viver para o Brasil – sozinha. A ‘secrets i’m trying to keep’ no piano e a ‘juro que vi flores’ na guitarra. Depois, no fim de 2020, ou seja, quando estive outra vez com o Blanda, fizemos mais umas músicas, acabámos e aí pensei: “olha, tenho duas músicas que sei que não fizemos juntos, mas acho que fazem mil sentido para este álbum”. Por alguma razão, adorava ter este fio condutor. Nesse momento, pensou-se que a ‘juro que vi flores’ ia fazer parte do álbum. É a única música em português e, de repente, imaginei o Milton, porque escrevi aquilo num português do Brasil. Não é um super português do Brasil, porque não sou brasileira, mas surgiu de ter vivido lá. Então, imaginei-o logo a cantar, mas, sim, só quatro a seis meses depois.

‘i’m just afraid, i’m so afraid’ fecha este ciclo, talvez por representar uma espécie de afirmação pessoal, onde surges sem receios de abraçar a tua realidade?

Foi precisamente isso! Para já, acho que, basicamente, é uma canção super de fecho, é meio espacial e parece que engloba tudo o que acabámos de ouvir antes, ou seja, as 13 canções anteriores. É como se desse um abraço a todas as faixas (risos) e pronto, acabou. Portanto, para mim, fazia sentido assim. Mas, lá está, também acho que é a música mais vulnerável que escrevi até hoje, porque estou diretamente a falar sobre uma coisa que, para mim, é um problema, ainda hoje em dia. Não tem metáforas, nem maneiras bonitas de se falar, é direto. Estou a fechar um ciclo e gostei de o fechar com uma abertura de uma porta nova. Estás a ver aqueles episódios de uma série que sabes vão dar por terminado uma temporada… Para mim, é um bocado isso. Como eu nunca abri dessa maneira específica, como eu abro no ‘i’m just afraid, i’m so afraid’, achei giro deixar para o fim exatamente para fechar com uma porta aberta.

MARO
Fotografia: Divulgação / Joey Schultz

Em termos de sonoridade, os teus cinco álbuns anteriores são à base do acústico. Enquanto que este disco é mais pop, mais upbeat e mais enérgico. Como é que ocorreu essa transição de sonoridades entre trabalhos?

Está quase sempre relacionado diretamente com quem colaboro. Por exemplo, o EP que lancei no ano passado [PIRILAMPO], com o NASAYA, também é muito mais eletrónico, porque ele é um produtor de eletrónica. Gosto disso. Consigo trazer muito de MARO com as pessoas com quem vou trabalhando e elas também. Neste caso, este [som] veio mesmo da junção de MARO com John Blanda.

De certa forma, também acabas por mostrar a tua versatilidade…

Sim, também… Já me disseram, a nível de equipa, dizer o que funciona ou o que não funciona. Na verdade, prefiro só ir fazendo o que gosto e, realmente, não pensar nisso. Faço o que me move and that’s it do que estar a pensar “ah, neste estilo é onde vendo melhor, então vou fazer isto”. Para mim, isso não faz sentido.

Porquê o John Blanda para a produção e escrita deste álbum? O que acrescentou ele?

Ele acrescentou tudo a este álbum. Somos incríveis juntos. Sempre que estamos juntos sai uma música em cinco minutos, depois entramos na brincadeira, e, logo a seguir, mais uma música em cinco minutos. Escrevemos mesmo muito bem juntos. Não sei, acho que fico mega inspirada por ele e ele fica mega inspirado por mim. É uma equipa criativa muito forte, que tenho a certeza que vou viver para sempre.

Porquê ele? Desde já, descobri-o na Berklee. Quando fui viver para LA, já o conhecia, já éramos amigos e ele até tinha vindo a Portugal fazer uma viagem. Só que quando fui para lá, não tinha casa e ele deixou-me ficar em casa dele, que era uma casa mínima, que já tinha cinco macacos (risos) e que tinha uma cama de solteiro que nós dividimos durante um mês e meio. Lembro-me de dormir quase em sardinha, do género “ok, boa noite” (risos). Não houve aquela sensação de ficar farta e precisar do meu espaço e vice-versa. Aliás, acabámos por nos sentir hiper compatíveis: mega amizade, mega respeito e mega confiança. Ficou, portanto, uma coisa pessoal tão forte, tão bonita e tão rara, pois não se encontra em qualquer pessoa este tipo de ligação. Depois, a parte musical foi muito fácil. É um parceiro de trabalho para a vida.

MARO
Fotografia: Divulgação / Joey Schultz

O álbum é maioritariamente em inglês. Esta questão é uma ideia pré-definida ou surge no momento em que começas a escrever?

É sempre no momento em que começo a escrever. Não sei se vou mudar isso em breve, mas, para mim, quanto mais genuíno, melhor. Sou muito essa pessoa: tem de ser natural – mesmo com a minha cara ou com o meu estilo. Quanto menos forçar as coisas, melhor. Sou mais feliz assim. Na música, é a mesma coisa. Quando sai em português, sai em português. Quando sai em inglês, sai em inglês. Às vezes, até é o som que puxa para certa maneira. Outras vezes, foi porque, antes de nos sentarmos a fazer música, ficámos três horas à conversa, em inglês, isso acaba por influenciar. Por exemplo, nós fizemos algumas em português – não saíram neste álbum, mas devem sair mais tarde – , porque ele estava a trabalhar cá em Portugal. É o que sai, simplesmente, não filtro. Prefiro não parar o processo, acabando por pensar: “pronto, agora estou a escrever em inglês, para a frente, de certeza, que vou escrever mais em português”. Foi precisamente o que aconteceu nestes últimos dois anos, quando este álbum já estava terminado, escrevi um monte de música nova em português, portanto está tudo certo.

Nível de orgulho em torno deste álbum?

Muito orgulho, se não nem o lançava. Claro, tu quando ouves, começas a pensar onde podias ter feito melhor, o que mudarias… Se calhar, daqui a seis meses, eu ouço-o e penso “ah, não gostei do que cantei” ou “esta escolha aqui não era a melhor”, mas foi um processo tão divertido. Trabalhámos muito para fazer isto bem feito, até ao fim. Tem que haver sempre orgulho e olhar para a coisa como “que bom, está feito e é incrível”, mesmo que daqui a um ano ache uma bosta. Temos que estar felizes pelo que fizémos e seguir em frente.

MARO
Fotografia: Divulgação / Joey Schultz

Depois deste ano atarefado, o que podemos esperar nos próximos tempos por parte da MARO?

Em setembro, vou fazer uma digressão pelos Estados Unidos. Depois, acho que uma digressão pela Europa também, em outubro/novembro, e talvez mais uns concertos em Portugal. 2023 penso que mais alguns concertos, mas, na realidade, quero dedicar-me a gravar estes 12 álbuns que já referi. São projetos diferentes e com pessoas diferentes – quero viver um pouco mais isso. Acho que o Covid nos tirou um bocadinho essa parte, deixou-nos a todos desmotivados. Os artistas deixaram de tocar como queriam, deixaram de estar tão ligados à música, em contrapartida, ficaram mais ligados à parte da logística, equipas e redes sociais, coisas que não sei se me fazem muito bem.

Tens artistas com quem gostavas de colaborar futuramente?

Mil! Um que eu tenho falado muito e que poderia ser uma referência, assim num futuro próximo, é o Justin Vernon dos Bon Iver.