Silly
Fotografia: Divulgação / Francisco Narciso

À Escuta. Silly: “As letras e as músicas do Viver Sensivelmente traduzem-me”

É com as ondas dos Açores como pano de fundo, a desbrotarem umas sobre as outras, fazendo sobressair a ambiência dos acordes de guitarra que se ouvem em ‘Introdução’, que se abre a porta para conhecermos o mundo de Viver Sensivelmente, curta-duração de estreia de Silly. É assim que se dá a conhecer no mundo da música a multi-instrumentalista, cantora e produtora Maria Bentes.

Se este momento inicial não é o suficiente para nos captar, o convite em forma de pergunta que Silly nos coloca de seguida – “Então, queres um bocado de chá?” – certamente o fará. Soa a algo mais do que um convite até, mas sim um assegurar, com um segundo “Queres?” para rematar esse sentimento, de que estamos perante aquilo que se parece com o lugar mais calmo e afável do mundo.

Não sabendo exatamente que “chá” é este que a artista nos oferece, sabemos que a música que acaba por surgir de seguida em Viver Sensivelmente é, tal e qual como os “chás” que habitualmente consumimos, uma infusão, não de sabores e aromas como as camomilas e cidreiras, mas sim uma infusão de sonoridades que servem de alimento a um mundo de introspeção onírica, que nos dá a conhecer um bocadinho de quem é a Silly e, por consequência, a Maria.

Foi com a ideia de sabermos mais sobre a cantora – uma das revelações do Espalha-Factos no ano de 2021 na música portuguesa e um dos discos nacionais do ano para o Rimas e Batidas (onde já teve vários destaques) – que a convidamos a ser a primeira visita à nova componente do À Escuta, a rubrica semanal do Espalha-Factos sobre música portuguesa, onde mensalmente vamos estar à conversa com um talento emergente da música nacional, e uma das vozes mais interessantes a florescer no hip hop português e soul portuguesas, a par de nomes como Cíntia, Nenny ou Raquel Martins.

O início de uma relação com a música e a melodia como arma criativa

Como muitos outros artistas e fiéis amantes de sons, a relação de Maria com a música começou em casa ao ouvir aquilo que os “pais ouviam”. Com o tempo, essa relação foi-se fortificando, resultando numinteresse maior em querer tocar mesmo, tocar um instrumento, seguindo as pisadas do pai, que também tocava. O primeiro contacto foi com a guitarra algures entre os 12 e 13 anos de idade, sendo esta a sua companheira musical para os anos que se seguiriam.

Silly
Fotografia: Divulgação/Francisco Narciso

Eventualmente, a ideia de aprender um segundo instrumento veio ao de cima e Maria acabou por ingressar no mundo do piano. Os três anos no Conservatório com o instrumento acabaram por se revelar essenciais para a artista, que descreve esse período como “anos muito importantes” para ajudar a desenvolver as suas habilidades enquanto instrumentista. Acaba por não ser surpresa que sejam as melodias o primeiro passo para criar uma canção da Silly. “Melodias de improviso” que surgem, sendo depois a letra intimista da artista – uma espécie de lado de cantautora misturado com MC a revelar-se – escrita para “encaixar naquela melodia”.

‘intencionalmente’, lançada em novembro de 2020, é um bom exemplo disto. A canção nasceu de um desafio colocado por um amigo, depois de a artista lhe ter enviado o beat que viria a ser o instrumental da faixa, com querer vê-la a “rimar” por cima deste. Por entre sorrisos, a artista relembra que, na altura, às vezes era definir deadlines para mim própria”, e que, apesar de não gostar de “sentar e obrigar-me a estar ali a escrever” se não estiver “a sentir” a coisa, acabou por forçar-se a tal, dado que tinha acordado com o amigo um deadline definido para entregar a cantiga. O resultado desta experiência é uma faixa extremamente criativa, onde um beat lo-fi a fazer lembrar algo que os Odd Future podiam criar se junta a dezasseis barras escritas em forma de agnóstico.

A Maria e a sinceridade na sua música

O último verso de ‘intencionalmente’ –Então tu lê na vertical a intenção com que eu escrevi” – revela muito sobre a relação existente entre a Silly e a Maria. Ao apontar diretamente para a revelação de que os versos são um agnóstico para a palavra que dá título à faixa, a artista acaba por revelar que a linha que existe entre as “duas personas” é “uma linha muito ténue”. “Acho que, cada vez mais, a Maria e a Silly estão-se a fundir, em vez de se estarem a separar”, acrescenta.

Este processo de “fusão” nota-se muito em Viver Sensivelmente. Se escutarmos com atenção, ficamos a conhecer “minimamente bem” quem é a Maria. “Tanto as letras como as músicas do EP, do Viver Sensivelmente, traduzem-me”, conta a artista. Este é um processo que já se fazia ouvir antes de ‘intencionalmente’ ou das canções do projeto. É algo que já se fazia notar nos dois lançamentos que precederam essa faixa, b, de setembro de 2019, e ‘além’, de abril de 2020, que a artista considera ser a “apresentação oficial da Silly” ao mundo.

A ‘além’ revela-se como uma espécie de oddity até agora na carreira de Silly e talvez assim fique para sempre. A canção é a única da carreira da artista que não apresenta um instrumental em que esteve envolvida na sua criação. Ao invés, o tema apresenta um instrumental criado pelo dinamarquês Sebastian Salon, num momento de junção artística de DIY (Do It Yourself) digno de Gen-Z.

Silly
Fotografia: Divulgação / Amorim Abiassi

Numa altura, o Youtube era uma ferramenta em que ia encontrando alguns instrumentais e ia gravando por cima deles”, relata a artista. “Encontrei o instrumental do Sebastian, gostei muito e decidi gravar por cima. E lancei. Foi a única vez que fiz isso e, honestamente, duvido que volte a fazer, porque agora sinto a necessidade de produzir aquilo que eu faço, mesmo que seja com outro produtor a fazê-lo para mim”, revela Silly.

O que fica a ligar esta oddity ao restante catálogo da Silly é que a música em si não perde nenhuma da honestidade que aí abunda. Parte disto provém da forma como a artista encara o mundo, refletindo-o através das letras introspetivas e interpretação sincera, mas outra parte surge através do DIY associado à artista. Isto aplica-se tanto à sonoridade, onde há uma certa sujidade lo-fi, “uma coisa muito caseira”, característico do DIY atual movido pelo bedroom pop, como à forma como começou a carreira enquanto Silly, distribuindo ela própria as primeiras canções por plataformas como o Bandcamp ou Souncloud a partir do quarto. “É um processo super sincero e honesto, estar aqui sozinha – e eu adoro estar só aqui sozinha – a criar. És só tu e a tua música”, conta.

A sonoridade eclética no currículo da artista

Se a honestidade liga todos os lançamentos de Silly, o que certamente não os liga entre si é a sonoridade. Isto não é dito de uma forma pejorativa, bem pelo contrário. O que torna a música da cantora tão fascinante é o quão diferentes conseguem soar as faixas, mantendo contudo uma identidade própria (ajudada pela tal estética DIY), que nos faz saber que estamos a ouvir a artista – seja no lado mais R&B onírico em ‘chão’, no chill hop de ‘além’ ou no hip hop alternativo de ‘intencionalmente’.

Além disso, conseguem ouvir-se influências de jazz, da bossa nova e da MPB já nestas canções, o que faz com que se torne algo complicado “encaixotar” a música de Silly. Talvez o termo mais somatório seja o de hip hop alternativo, mas parece-nos que talvez o termo de neo-soul (à portuguesa, acrescentamos) seja um mais adequado – não fizessem as criações lembrar um pouco artistas do género, como Arlo Parks ou Cleo Sol, também reconhecidas pela forma como combinam vários géneros musicais nas criações.

Mas a própria artista não tem interesse em conferir apenas uma etiqueta à música que cria. “Eu não me quero encaixar em nenhuma caixinha ou numa só”, refere, contando que até considera “limitativo” e “perigoso” olhar para a criação nesse sentido. “Quando eu começo uma ideia, não estou propriamente a pensar a que é que isto faz soar. Posso começar com uma ideia que está muito a soar a bossa nova, pronto. Mas não foi premeditado, não foi uma cena pensada”, relata.

Silly
Fotografia: Divulgação/Rita Matos

No entanto, e porque às vezes do lado de quem escreve é preciso tentar fazer o exercício de compartimentar para melhor passar uma certa ideia, a comparação com Arlo Parks, particularmente em Viver Sensivelmente, parece justa e adequada. Há qualquer coisa de semelhante na forma como ambas as artistas juntam vários géneros musicais no mesmo projeto e até na mesma faixa, tudo sempre com uma estética ligeiramente lo-fi e homemade, que confere a tal honestidade brutal à música.

Essa estética continua-se a fazer ouvir pelas canções do curta-duração, mesmo que a sonoridade soe mais refinada, em parte pelas contribuições conferidas por Pedro da Linha nos créditos de produção, mas também resultante da evolução da artista nesse campo com o passar do tempo. “Conheci o Pedro da Linha através de um amigo”, conta a artista, tendo depois surgido a oportunidade desta colaboração, após o manager ter mostrado ao produtor as maquetes. “Ele colou muito na ideia, acho que gostou mesmo muito, e decidiu que queria juntar-se e fazer isso comigo”, explica.

Viver Sensivelmente: um motto para Silly

A presença de Pedro da Linha não é a única que ficamos a conhecer em Viver Sensivelmente. No R&B suave e onírico de ‘Vida a Mil’, podemos ouvir um instrumental da autoria de EU.CLIDESoutro dos artistas revelação de 2021 para o Espalha-Factos –, enquanto na grandiosa ‘Sem Tudo’, que fecha o curta-duração num momento belíssimo inspirado pela bossa nova, ouvimos a presença da dupla de produtores brasileiros DEEKAPZ.

Se a presença de EU.CLIDES surge após uma relação de amizade de “algum tempo”, alimentada pelo amor de ambos à música, a presença dos DEEKAPZ surge também através do manager da artista. “Nós cruzámo-nos, começamo-nos a falar da possibilidade de eu fazer algo com um instrumental deles, mas como eu sentia a necessidade de ter a mão na produção e tinha aquele tema [a ‘Sem Tudo’] que levava muito para a cena de bossa nova, acho que ninguém melhor que eles para trazer essa verdade toda de lá”. Esta manifestação da inclusão do duo é mais uma vez a questão da honestidade a entrar em jogo, com a artista a procurar captar as ideias do bossa nova da forma mais autêntica possível nesta faixa que termina num mar de cordas grandiosas que parecem antecipar o caminho que Silly poderá traçar.

Antes de chegarmos a esse ato final, há outros momentos de beleza pura para disfrutar em Viver Sensivelmente. Veja-se a canção ‘Assobio’, que talvez seja a melhor faixa do EP (admito, é a minha favorita), incluída também no ano passado na compilação de Novos Talentos da FNAC. Esta revela-se como uma canção relaxante, mas orelhuda, com um instrumental que soa a sonhos distantes e aconchegantes, recheado por sintetizadores oníricos e guitarras que servem de base à letra e flow de Silly, ambos cativantes, a soar como uma brisa a passar por uma relva verde, cheia de leveza no movimento.

Se já referimos a letra introspetiva de Silly várias vezes ao longo desta escriba, é natural que no presente projeto isto volte a surgir. Parece haver um cuidado extra para que, de certa forma, haja algo a ser revelado. Será a tal tradução de quem é a Maria através da Silly, representada através das letras e música do EP.

Silly - Viver Sensivelmente
Fotografia: Divulgação

Basta ver, por exemplo, que a primeira música, ‘Introdução’, abre com o som do mar dos Açores – onde a artista nasceu – e que foi uma viagem entre Serpa, no Alentejo, local onde cresceu, e o atual local de residência, algures na Margem Sul, que inspirou a ambiência natural de ‘Vida a Mil’, que se faz ouvir um pouco por todas as músicas do EP. ‘OSN’ é outro bom exemplo disso, com a canção a deslizar entre o psicadelismo da MPB e um R&B alternativo e onírico.

No seu refrão orelhudo de ‘OSN’, ouve-se Silly a cantar “À minha volta tudo é/Só sonho em mim” e talvez não haja melhor resumo do EP que este momento. É sincero e introspetivo, onírico e revelador de que toda a ambiência deste curta-duração aponta para uma sensibilidade que faz parecer o título uma espécie de motto para a artista. Talvez seja por isso que a cantora revela que o “o nome do EP, Viver Sensivelmente, esteve super bem definido” – era necessário transmitir essa mensagem, dar esse sentido que já era ecoado desde o lançamento de ‘além’.

Um futuro risonho ao virar da esquina

“Sou uma artista Covid. É a realidade que eu conheço”. É assim que, em tom de brincadeira, Silly acaba por iniciar o relato de como tem sido viver este último ano e meio de crescimento enquanto artista durante uma pandemia, que começou com ‘além’ e culminou em Viver Sensivelmente. “É incrível tudo o que me tem acontecido e estou a aproveitar isso para fazer aquilo que eu curto mais, que é fazer música”, conta, deixando também a nota de que, em 2022, poderão vir a ser conhecidas já novas cantigas – mas “sem fazer grandes promessas”.

Silly
Fotografia: Divulgação/Rita Matos

Este futuro que se avizinha risonho para a artista também envolve uma mudança na forma como o projeto de Silly se apresenta. Se inicialmente era só a artista sozinha em palco, quando se apresentou pela primeira vez na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, em dezembro de 2020, como parte do ciclo A Vida Continua, as próximas visitas a palcos vão ser efetuadas em formato de banda ao vivo.

Com a banda, para mim, vai ser melhor, porque enquanto música, vais-te desligando um bocadinho mais do computador, dos beats e assim, para uma cena mais live, e mais tocada, mais viva, indica Silly sobre esta mudança. A isto adiciona que os concertos ao vivo são, para ela, “uma sensação incrível”, fruto da relação criada entre artista e público que, em palco, se revela “imediata”.

É incrível ter o privilégio de poder tocar para outras pessoas”, refere, apesar de, neste momento, ainda não haver datas marcadas para a apresentação de Viver Sensivelmente neste novo formato. Vamos ter que esperar um bocadinho mais, mas aguardar nunca fez mal a ninguém – especialmente por coisas que têm tudo para ser catitas quando acontecerem.