Causa Própria RTP
Fotografia: Ana Brígida/Arquipélago Filmes

Crítica. ‘Causa Própria’, a história densa que é tiro certeiro na ficção da RTP

A nova série da RTP1 pode ser vista às quartas-feiras durante as próximas sete semanas.

O elenco extraordinário e a fotografia sublime diferenciam desde logo Causa Própria. As produções exibidas na RTP1 têm nos habituado a estes dois pontos que, mais uma vez, provam a qualidade do que é pensado, feito e exibido em Portugal.

A produtora Arquipélago Filmes encabeça o projeto, depois do sucesso da série Sul, atualmente também no catálogo da HBO Portugal. O género policial repete-se, desta vez com João Nuno Pinto, realizador do filme Mosquito, a dar vida a uma cidade fictícia cinzenta, sombria, cheia de mistérios que têm de ser desvendados e crimes que não podem ficar por resolver.

No primeiro episódio, é encontrado de madrugada o corpo de um jovem no jardim da cidade, abalando toda a população e em especial a juíza Ana (Margarida Vila-Nova), que não sabe do filho David (Afonso Laginha) e chega a pensar ser ele o jovem encontrado.

Nos próximos episódios, Ana irá perceber que, apesar de não ser o filho o jovem encontrado, a sua implicação no caso é mais sombria do que poderia imaginar e irá colocar em causa toda a sua vida, assim como a do ex-marido Vítor (Ivo Canelas), também ele procurador da polícia judiciária na cidade.

Causa Própria
Fotografia: Ana Brígida/Arquipélago Filmes

Elenco de luxo e personagens densas

Alguns atores que fizeram parte de Sul estão novamente presentes em Causa Própria.

Margarida Vila-Nova explora a emoção de uma forma exímia, aproximando-nos do sufoco de uma mãe dividida entre o filho e a profissão que exige tanta racionalidade. Com Ivo Canelas, o sufoco é físico e é a fotografia e realização que o mostram, quando invade a morgue no desespero de saber se o corpo encontrado poderá ser do seu filho David.

Nuno Lopes e Catarina Wallenstein, os inspetores Mário e Maria, são talvez a maior inspiração das séries de crime norte-americanas. Pouco habituados a um crime de tal complexidade num meio tão pequeno em Portugal, vão confrontar-se com as dificuldades e a intensidade de um acontecimento deste tamanho, mas parecem preparados para ele como qualquer investigador CSI, só que com menos recursos.

Maria Rueff é a advogada Alice e a sua amizade com Ana protagoniza alguns dos alívios cómicos deste primeiro episódio, fechado em dúvida e angustia. A atriz, mais uma vez, enche o ecrã cada vez que aparece, enriquecendo o diálogo com mestria.

Fotografia: Ana Brígida/Arquipélago Filmes

O núcleo jovem apresenta-nos Afonso Laginha, o filho da juíza e um dos responsáveis pelo ato criminoso, que tem aqui o seu primeiro grande papel em televisão. Sílvia Chiola interpreta Clara, outra filha do ex-casal. No tribunal, temos mais uma vez Madalena Aragão a provar a sua competência em todos os estilos, protagonizando uma cena que é pouco provável de acontecer em tribunal, mas que adensa as emoções do primeiro episódio, fora da história central.

É um elenco de luxo que entrega ao projeto uma densidade e uma qualidade que volta a distinguir as produções nacionais no canal público de televisão.

A narrativa é o mais difícil de equilibrar

A imagem e o elenco colocam a fasquia tão alta que o guião acaba por ser o que fica mais aquém, nem sempre encontrando um equilíbrio entre o real e o ficcionado. Ainda assim, é superior a muitas outras obras que chegam à televisão nacional.

Rui Cardoso Martins publicou durante quase 20 anos, no jornal Público e posteriormente em livro editado pela Tinta da China, as crónicas Levante-se o Réu, depois de assistir a mais de 700 casos de justiça em sessões públicas de tribunal. O registo varia entre o cómico, o dramático e conta sempre história e crimes reais, que aconteceram em algum ponto do país.

Essas crónicas inspiram essencialmente as sessões de tribunal: no primeiro episódio, podemos assistir a dois casos que nos mostram bem este oscilar entre o cómico e o dramático. Mais de metade do episódio é passado na sala de tribunal com o Procurador Abel (Adriano Carvalho) ao lado da juíza. Percebemos também neste episódio que Abel era muito amigo dos pais que vêm o filho morrer num ato tão violento e tão pouco comum naquela localidade, habituada a pequenos furtos e discussões familiares.

A primeira cena de tribunal dá-nos a conhecer uma personagem que não deve abandonar a história. Ruço da Tina, interpretado por Pedro Lacerda, mostra um delinquente perito mais em confusões do que em crimes, seropositivo e que associa isso aos problemas de memória que afetam todo o seu discurso. Nessa mesma cena, percebemos a pequenez do meio onde vivem, quando de uma forma muito informal a juíza lembra o réu de que andaram juntos na escola, lembrando-se Ruço de que a juíza era a melhor aluna e a mais aplicada e por isso mesmo “é que agora a doutora está aí e eu aqui”, numa pequena crítica à diferença existente no acesso a oportunidades, essencialmente económico.

A narrativa do primeiro episódio tenta prolongar, mesmo até ao limite,  o mistério em torno do jovem, sendo quase só no final do episódio que Ana e Vítor descobrem que não era o seu filho. O que não aconteceria, na verdade, num meio tão pequeno.

Esta colocação da ação no espaço é talvez o erro maior da narrativa. Não existe um equilíbrio entre o que é de facto viver numa cidade pequena em Portugal, mas que acaba por ser colmatado por ser esta uma cidade fictícia, mesmo sendo evidente que as gravações de exterior são nas Caldas da Rainha.

Todo o ambiente quase americano de crimes e tribunais fica difícil de enquadrar no nosso país e nesses meios. Ao contrário de Sul, que desenvolvia toda a história numa Lisboa pautada pela crise económica e social, que tornava desde logo tudo mais real.

A história do dilema juiz e filho podemos também ver recentemente na série da HBO Your Honor, com Bryan Cranston no centro do conflito e da qual esta Causa Própria se distingue logo no primeiro episódio pela existência de um maior realismo e de uma muito melhor exploração feita às emoções. Resta saber como se irá desenvolver a história desta série portuguesa.

A exploração do sombrio e do escuro ao nível das melhores séries europeias e americanas

Fotografia: RTP/Divulgação

A fotografia e a realização, a par com o elenco, fazem de Causa Própria um produto capaz de competir e ultrapassar tantos outros que estamos habituados a ver e ouvir nas grandes plataformas, como, por exemplo, Dark e Ozark, da Netflix.

O nevoeiro, a floresta, os planos perfeitamente aproveitados, desde o contra picado para a paisagem aos planos próximos que captam toda a emoção dos personagens. Depois de Mosquito, o filme passado durante a Primeira Guerra Mundial e no amplo território de Moçambique, João Nuno Pinto consegue fazer de Caldas da Rainha um autêntico e sublime mistério apenas com um único espaço e aproveitando-se de todo o seu mistério de forma sublime.

As produções em Portugal não são fáceis de executar e Causa Própria volta a dar motivos para nos viciarmos em séries nacionais, que com menos orçamento fazem tanto ou mais que outros produtos que gostamos – ou apenas nos habituamos – a ver no streaming. Para já basta esperar por quarta-feira e sintonizar na RTP1 durante as próximas sete semanas ou aguardar e ver em binge-wathcing na RTP Play.

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