Dela Marmy
Fotografia: Divulgação

Entrevista. Dela Marmy: “Na música, tento experienciar várias possibilidades para uma mesma ideia”

Tentar encontrar magia na música é uma tarefa que nos agrada a todos. Olhamos para a melodia que nos encanta, para a atmosfera que se cria, para o sentimento que nos invade, tudo na procura dessa magia. A art pop de Dela Marmy, projeto musical da artista multidisciplinar Joana Sequeira Duarte, permite-nos chegar a essa magia com alguma facilidade quando encontramos a sua música.

A magia da sua obra é simples: sintetizadores etéreos e sonhadores sobrevoam as texturas de cada faixa, juntamente com os vocais suaves de Joana e baterias pujantes de dream pop que conferem ritmos dissonantes às faixas. É assim no seu primeiro curta-duração, Dela Marmy, de 2019, e é assim no mais refinado Captured Fantasy, lançado em março de 2020.

Dela Marmy
Fotografia: Divulgação / Alipio Padilha

Um ano e oito meses depois do lançamento de Captured Fantasy, a música de Dela Marmy chegou finalmente aos palcos, numa tour de apresentação que se iniciou no início do mês de novembro, no Musicbox, e que termina este fim de semana. No sábado (4), a artista sobe ao palco do Passos Manuel, no Porto, e no domingo (5), é o Salão Brazil em Coimbra que a recebe. Entre o lançamento do seu mais recente EP e o início da tour, a artista, que já fez parte dos The Happy Mess – onde contribuiu na criação de dois discos -, contou ainda com uma remistura de uma das faixas de Captured Fantasy por parte de Sonic Boom.

Antes do fecho desta primeira série de concertos para Dela Marmy, o Espalha-Factos sentou-se à conversa com a artista para saber como tem sido a transição do projeto para o mundo do espetáculo ao vivo, o que inspira a artista a criar e o que espera o futuro próximo do projeto.

De onde surgiu o nome Dela Marmy?

Não tem nenhuma lógica direta. Tem um lado afetivo, porque os amigos que estudaram dança comigo chamavam-me Marmy e, quando andava à procura de nome para o projeto, essa possibilidade ficou logo assim mais evidente. No entanto, também não queria que fosse diretamente o meu nome. Se fosse para isso, teria escolhido diretamente Joana, e não queria que fosse só Marmy – queria encontrar outro nome que pudesse desviar-me um bocadinho desse lado.

Eu tenho uma gata que se chama Bambi e eu, às vezes, chamo-lhe Bambi Dela e então, quando estava a fazer jogos de palavras, veio o Dela da gata e ficou – Marmy, Dela, Marmy Dela, Dela Marmy. Tem então esse lado afetivo, de ligações com os meus amigos e, depois, com a minha super companhia, que é a gata [risos].

Ao longo do último mês, tens estado em tour com o teu último EP, Captured Fantasy. Como é que tem sido este teu regresso aos palcos?

Tem sido um regresso lindo de morrer. Na realidade, isto é a estreia do projeto ao vivo com público e com a banda, porque nunca tinha acontecido. Na altura, em abril, que era quando tínhamos os concertos de apresentação, depois de ter saído o EP [Captured Fantasy], foi tudo adiado e ficou esse peso na vida do projeto que estava a acabar de nascer. Por isso, [os concertos] eram um momento mesmo muito esperado por mim e sentia que fazia falta para completar o ciclo, para dar realmente vida ao projeto, para que não ficasse só no disco e para lhe dar esta qualidade tão importante que é a partilha ao vivo da energia entre público e artista. Felizmente, está a acontecer e está a ser mesmo ótimo. Mesmo quando não conhecem, sinto que as pessoas estão entusiasmadas durante o concerto e recebo sempre imensos elogios positivos [risos]. Isso faz-me muito feliz.

Captured Fantasy acaba por sair no final de março de 2020,durante a pandemia. Como é que foi viver esse período?

Foi terrível [risos]. Na altura nem me apercebi muito, porque estava a lançá-lo e a fazer várias entrevistas e então parecia que estava tudo mais ou menos no sítio. A partir do momento em que começaram a cancelar as entrevistas presenciais, showcases em rádios, começas a perceber que alguma coisa se está a passar e que as coisas não vão acontecer da mesma forma. E depois também cancelaram os concertos, e foi do género: “Oh não! E agora?“.

Depois foi tentar gerir como se continua a manter este interesse do público pelo projeto, de como é que se vai movimentar nas redes sociais, formas de apresentar e falar sobre a música. Mas senti muito a falta de ter este contacto que estou a ter agora. Por um lado, isto acaba por ser uma ‘captured fantasy’. Na altura, até achei, “que raio de nome” mas agora, realmente, a própria fantasia do disco, o objeto em si, esteve retida até agora.

Achas que Captured Fantasy perdeu algum do seu impacto ao vivo de ter ficado todo esse tempo capturado, de certa forma?

Ao vivo, acho que não. Só não consegui passá-lo a mais gente na altura [em que saiu]. Também, por outro lado, houve sempre um crescendo [para o projeto] e, se calhar, há pessoas que agora vão aos concertos que, na altura, se calhar não iriam porque ainda não tinham conhecido o projeto. Eu, entretanto, lancei mais um single em maio, uma remistura do Sonic Boom, e isso também serviu para manter essa atividade entre público e música. Portanto, houve um processo diferente, mas acho que tem o seu lado positivo também.

Dela Marmy
Fotografia: Divulgação

Em palco, as tuas canções apresentam um “novo corpo, nova textura, vulnerabilidade e sensibilidade”. De que forma é que abordas a criação da experiência ao vivo para a tua música?

A música ao vivo mostra esta fragilidade humana, inerente, onde há falhas. Num encontro, numa relação, pode haver falhas, mas podem ser elementos potenciadores também. Vejo isso dessa forma. E, também, porque mostra este lado de humanidade, de não querer tudo perfeito, deixar realmente ver este lado sensível e transparente em que não somos super-heróis – ninguém é. E eu tento trazer muito essa qualidade à composição que faço com as músicas e letras. Trazer esta ideia do humano de não ser superficial, não ser fingido nem artificial, mas sim mais autêntico, transparente e honesto.

Engraçado que fales em vulnerabilidade, porque Captured Fantasy tem também um certo nível de introspeção. Sentes que a tua música pode ter um lado de escapismo?

Tenho a certeza que a música e a criação me ajudam a compreender e a adaptar ao mundo e às situações que me vão acontecendo. Tentar perceber as coisas sem ter uma linguagem evidente e com códigos. Portanto, através de um lugar sensível, tentar fazer essa perceção do mundo e, nesse sentido, pode ser um lugar de escapismo, sim, mas também há outras coisas. Acho que é uma forma de sobrevivência também, sem dúvida, ter também um lugar onde encontro motivação e força para continuar e descobrir caminhos que me fazem pensar sobre outros temas. Há muitas coisas que eu descubro naquele lugar de criação.

Como quais?

Às vezes, fico fixa em certas ideias – por exemplo, como nos relacionamos com o outro. Nesses momentos, parece que há uma abertura para todas as possibilidades. Na música tento experienciar as várias possibilidades para uma mesma ideia e, às vezes, até possibilidades que não são tão bem aceites cultural, social e politicamente. Tento furar essas camadas e experienciá-las dessas várias formas. Muitas vezes, nesse lugar, as palavras não têm tanto poder e, portanto, é uma coisa mais de sensibilidade ou intuição, sem muito julgamento. Portanto, há um todo que se abre além da linguagem.

Enquanto Dela Marmy, tens dois EPs – um homónimo, de 2019, e Captured Fantasy, de 2020. Apesar de haver elementos comuns aos dois, que diferenças notas entre eles e como é que funcionou o processo criativo para ambos?

Há logo uma diferença de produção no segundo EP [Captured Fantasy], que foi produzido pelo Charlie Francis, e que fez bastante diferença. Ele tem muita experiência com bandas internacionais e consegue ter esse impacto forte na produção de um trabalho, na passagem da criação para o público e como é que se trabalha esse impacto. Pelo contrário, o primeiro EP foi produzido por mim, pelo João Hasselberg e pelo Nuno Roque e estávamos muito mais ligados à minha parte da criação e, portanto, esse  é uma extensão mais orgânica, mais natural, talvez, daquilo que já estava criado. Com o Charlie senti que houve um um impacto maior.

Sobre o processo criativo, eu criei os temas [de ambos os EPs] ao mesmo tempo – tirando um ou outro, se calhar, que nasceram mais tarde, depois de ter feito o primeiro EP. O que eu fiz foi separá-los por identidade. Ver quais estavam ligados a que grupo. Foi por aí. Por isso, essa criação tem as mesmas origens, tem as mesmas ideias sobre certas temáticas. Há essa lógica. Não são objetos separados.

É mais como se um fosse a continuação do outro então?

Sim, sim.

Em Captured Fantasy, transportas-nos para uma floresta encantada, um pouco devido às texturas das músicas, que invocam uma sensação muito sensorial, etérea. Qual é que é a relação da tua música com as sensações que pretende transmitir?

Acho interessante falares numa floresta encantada porque há muito a ideia de natureza e de como o humano se relaciona com o planeta e com o mundo. Somos mais um elemento deste todo e há esta sensação de pertença a um lugar sem sobreposição de mim, pessoa, Joana, ou nós humanos, perante outros seres que também complementam o planeta. Há esta sensação de igualdade, de equilíbrio, que sinto e que gosto de transportar. Mas isto também não é uma coisa que sinto à partida, não é o meu objetivo. São valores nos quais eu acredito e que quando estou a compor, há esta premissa de “eu sou igual a ti, e somos iguais a uma formiga, a um pássaro, a um peixe, ao oceano, ao ar“. Há uma relação com os elementos.

Na Threshold Magazine associaram cada uma das músicas do Captured Fantasy a um sentido. Se eu te perguntar para tentares associar as músicas do EP aos elementos, qual é que seria a associação?

A ‘Flying Fishes’ é claramente a água. A ‘Not Real’ o fogo, ou o ar… A‘Tempest’ é a terra, claramente, porque é sobre o planeta Terra. A Take Me Back Human será o ar… e então a ‘Not Real‘ o fogo.

Este ano, como já referiste, tiveste o privilégio de ter o Peter Kember (Sonic Boom) a fazer uma remistura da ‘Old Human’. Como é que surgiu esta nova versão da faixa?

Eu convidei-o para a fazer e ele aceitou [risos]. Eu conheci-o e já conhecia o trabalho dele com MGMT ou Beach House – que é uma das minhas bandas preferidas – e claro que, ele vivendo aqui e estando aqui perto, foi mais fácil ouvir essa ligação. Ele é uma pessoa extremamente humilde, muito generosa e também bastante ligado à natureza. Achei que fazia todo o sentido e ele aceitou fazer. Fiquei mesmo feliz e acho que deu assim uma leveza e, ao mesmo tempo, uma densidade diferente ao tema. Ele disse-me só: “Aceito, desde que eu possa fazer aquilo que eu quiser” [risos]. E eu disse “claro“.

Disseste que Beach House era uma das tuas bandas favoritas. Aproveito para perguntar: quais as tuas principais referências?

Tenho imensas. Beach House, Nick Cave, James Blake, Kendrick Lamar, Bruno Pernadas… [risos]. George Harrisson, Laurie Anderson, The National, David Bowie, The Knife, Bach, Vilvaldi. Gosto de imensas coisas diferentes e que me fazem pensar, pesquisar e ter vontade de ouvir. Às vezes, pensar sobre as músicas. Outras vezes, só ouvir as músicas, e isso é uma viagem incrível. Sim, são muitos os artistas que admiro e que estão comigo no dia a dia. Por exemplo, Floating Points, tenho ouvido imenso o último disco dele… Tudo isto varia ao longo da vida mas estes nomes que estou a dizer – e mais – mantêm-se.

Dizes que tens vontade de pesquisar e ouvir. Acabas por estar a par das coisas mais atuais, que estão a sair?

Sim, gosto muito também de ouvir coisas novas e surpreender-me. Estava a pensar nos IDLES, Porridge Radio ou Savages também, que também gosto de rock e punk. As novidades também são boas para perceber como é que as pessoas estão a abordar a música. Mas ai está, também ligo muito ao passado e tento sempre ouvir coisas que já ouvia há 20 anos porque me continuam a fazer sentido.

Como artista multidisciplinar, estando também envolvida em dança e em artes plásticas e visuais, como é que todas estas vertentes acabem por surgir na tua música?

Primeiro, em termos de composição, sinto que há uma ligação desde da arquitetura – estudei arquitetura, também – à dança. Há muitos elementos transversais à composição – texturas, ritmos, silêncios, espaço, vazios – que vêm de diferentes perspetivas e tento experienciar essas diferentes perspetivas que fui adquirindo na música.

Depois, num todo, faço sempre questão de ter uma capa, fotografias também com artistas que eu admiro e com qual trabalhei em conjunto. Não é porque goste, mas porque sinto que faz sentido. Só assim é que faz sentido, como um todo. Pensar na música como algo que não é só música, mas sim como sendo algo que é dar um bocado da Joana, os interesses, aquilo que eu sou, para fora. Depois também tento inserir a dança nos vídeos que faço. Sinto mesmo que também fazem parte de mim. O concerto também tem esse lado de performance. Para mim, só faz sentido estar em palco se eu estiver a usar o corpo na sua totalidade.

Dela Marmy
Fotografia: Divulgação / Alipio Padilha

Há um esforço para que haja um complemento, para que seja uma extensão de quem é a Joana?

Sim. É como se fosse eu, mas dividida nas suas várias áreas. Só que neste caso é a Dela Marmy [risos]. Uma das razões pelas quais não queria dar o meu nome ao projeto é também para abrir outras possibilidades futuras. Se me apetecer fazer outra coisa totalmente diferente, se me apetecer dar outro nome, dou.

Para terminar: depois desta série de concertos terminar no próximo fim de semana, com um espetáculo no Porto (Passos Manuel) e outro em Coimbra (Salão Brazil), o que se segue para a Dela Marmy?

Eu espero que se sigam mais concertos no próximo ano, não é?

Ainda com este EP?

Sim, porque são os dois EPs e isto agora é que está a ter mesmo piada [risos]. Está a fazer sentido tocarmos mais e estamos a receber feedback mesmo muito bom. Tocar, tocar e tocar só vai fazer crescer o espetáculo e, por isso, para mim, faz todo o sentido continuar a tocar este EP – porque ainda é novidade para as pessoas porque a maioria, se calhar, nem me conhece, não é? Portanto, é continuar com ele.

Eu também já estou a criar um novo álbum, um LP , mas não sinto que seja para o ano que vá ser lançado, porque também quero ter tempo para ele e dinheiro para o fazer. Agora o que quero mesmo é tocar. Estive tanto tempo, desde 2019, a querer tocar. Aliás, em 2019, quando lancei o primeiro EP, não quis tocar e fiquei a adiar para 2020, quando saísse o segundo.

Os bilhetes para os concertos de Dela Marmy no Porto (Passos Manuel) e em Coimbra (Salão Brazil) ainda estão à venda na Ticketline e na Bol. A entrada nos espaços requere a apresentação de um Certificado Digital COVID da UE, de comprovativo de vacinação que ateste o esquema vacinal completo ou de um comprovativo de realização laboratorial de teste com resultado negativo.