Andrew Garfield em Tick Tick... BOOM!
tick, tick...BOOM! (L-R) ANDREW GARFIELD as JONATHAN LARSON in tick, tick...BOOM!. Cr. MACALL POLAY/NETFLIX © 2021

‘tick, tick… BOOM!’ é um musical excruciante e aborrecido

Um dos projetos mais aguardados do ano chegou à Netflix. tick, tick… BOOM! é a estreia de Lin-Manuel Miranda na realização de longas-metragens e conta com um enérgico Andrew Garfield no papel principal deste musical, baseado na vida de Jonathan Larson, um compositor teatral dos anos 80 e 90 que sente o seu tempo chegar ao fim. Será que corresponde às expetativas?

Numa altura em que os musicais estão a entrar cada vez mais na moda cinematográfica, por assim dizer, Lin-Manuel Miranda tem sido um nome que vem aparecendo em vários elencos e equipas técnicas de numerosos projetos, tanto em cinema como no teatro. No seu currículo aparecem trabalhos como In The Heights, Vivo, Hamilton ou Encanto, dramas que acabaram por ser muito bem recebidos pelo público.

TICK, TICK…BOOM! Andrew Garfield as Jonathan Larson, in TICK, TICK…BOOM! Photo Credit: Macall Polay/NETFLIX ©2021

tick, tick… BOOM! acaba por ser o que segue, naquela que é a sua estreia como realizador. No seu núcleo, é contada um pouco da vida de Jonathan Larson, um lendário compositor e dramaturgo americano que, nos longínquos anos 90, lançou o aclamadíssimo Rent, um musical em que acabou por nunca meter os olhos em cima, já que acabaria por falecer na noite de estreia desse trabalho.

A história de tick, tick… BOOM! acaba por estar muito ligada com o passar do tempo e com o medo de não fazer o suficiente. Jonathan Larson, muito bem interpretado por Andrew Garfield, sente que a janela de oportunidade para fazer um musical que o lance para o Olimpo dos dramaturgos musicais está a fechar-se e, a muito custo, anda o filme todo a tentar acabar superbia, uma ópera rock que vem sendo lapidada há mais de oito anos.

Enquanto isto, Larson vai trabalhando como empregado de mesa para tentar pagar contas, já que não tem um tostão no bolso, as suas relações vão ruindo e os seus amigos vão desaparecendo, quer seja pelas circunstâncias da vida ou pela morte que os atinge do nada. O título deste filme, apesar de ser o mesmo nome dado ao musical real escrito por Larson, que reflete na semana que nos é mostrada no filme, acaba por revelar muita da pressão que a personagem principal vai sentido ao longo deste projeto.

Uma história confusa por culpa do realizador

Andrew Garfield, um ator que é mais conhecido por ser o Homem-Aranha do que por outra coisa qualquer, vai carregando este filme com o seu talento, mostrando a ansiedade e as crises de confiança que Jonathan Larson vai passando nesta trama. A história contada por Lin-Manuel Miranda, apesar de ser relativamente fácil de contar no papel, acaba por ser uma confusão, muito por culpa das decisões artísticas do realizador, tanto ao nível da direção como da história.

O aspeto musical e o destino aparente da história são ambos estranhos, a um ponto onde até a música, ainda que agradável, parece fora do sítio. Estamos perante um caso em que o guião é fraco e o realizador não sabe ocultar isso com o que vai mostrando no ecrã. Não há sentimento mostrado pelas personagens que possa mudar isso. 

Lin-Manuel Miranda, durante estas duas horas de tick, tick, BOOM!, parece mais preocupado em parecer genuíno do que em contar uma história que faça sentido e que não se perca no meio de todo o sentimentalismo. E isto acaba por fazer com o que o espectador não se sinta conectado com a história, algo absolutamente indispensável num filme como este.

Não ajuda que a história do artista que magoa tudo e todos à sua volta e desculpa a sua maldade com o seu foco nos seus projetos seja algo que já vimos um milhão de vezes. Lin-Manuel Miranda, por outro lado, nem tenta pôr algo novo nisso, é cliché atrás de cliché até ao final do filme, que é o único momento que parece verdadeiramente genuíno depois da primeira metade desta longa metragem, que acaba por parecer muito maior do que é.

Tecnicamente falando, nem aqui o filme se salva. A edição, que no início parecia um dos pontos altos, acaba por falhar constantemente, tal como a cinematografia e uso de efeitos visuais que parecem maus quase de propósito. Não fosse Andrew Garfield dar uma das melhores performances deste ano e tick, tick, BOOM! seria esquecido cinco minutos depois do final do filme. É uma pena, Jonathan Larson merecia algo melhor e, acima de tudo, merecia ter sido escrito com um pouco mais compaixão. Fica para a próxima, Lin.

tick, tick, BOOM! está disponível no serviço de streaming da Netflix.

Andrew Garfield em Tick Tick... BOOM!
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