“Se me matam, levantarei os braços do túmulo e serei mais forte”. A história do dia 25 de novembro

A 25 de novembro assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres e o dia não foi escolhido ao acaso

Em 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas, instituiu o dia 25 de novembro como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. A escolha cumpre uma homenagem às irmãs Mirabal, assassinadas em 1960 e um eterno símbolo da resistência dominicana.

Quem são as três Mariposas?

Nascidas numa família rica da região de Salcedo (República Dominicana), Patria (1924 – 1960), Minerva (1927 – 1960) e Maria Teresa (1935), opuseram-se veementemente à ditadura de Rafael Trujillo, que vigorou na República Dominicana entre os anos de 1930 e 1961, naquele que ficou conhecido como o regime trujillista. Durante esse tempo, todos os direitos civis foram violentamente reprimidos e todos os opositores perseguidos até à morte.

Rafael Trujillo dominava e controlava totalmente o país e as três irmãs e os seus respetivos maridos, ativistas políticos, estavam na linha da frente das lutas para derrubar o ditador. Trujillo não tinha problemas em declarar publicamente que os seus grandes problemas e oponentes seriam a Igreja e as irmãs Mirabal.

Para responder às ameaças de que eram vítimas, Minerva Mirabal assumiu, publicamente e sem medos, que “se me matam, levantarei os braços do túmulo e serei mais forte”. Uma frase que com o desenrolar dos acontecimentos tornou-se a bandeira de toda a luta e a representação mais fiel de quem foram estas três mulheres.

A 25 de novembro de 1960, as três irmãs viajavam para visitar os seus maridos presos, quando foram intercetadas e violentamente assassinadas. Foram enforcadas, espancadas e o carro atirado de um precipício para simular um acidente rodoviário. Quando assassinadas, tinham entre 26 e 36 anos e 5 filhos.

O crime causou indignação e resposta imediata de toda a população, tendo terminado no assassinato de Rafael Trujillo, seis meses depois. Fez-se cumprir assim a promessa de Minerva Mirabal e o assassinato sangrento das três mulheres foi um dos principais momentos desencadeador da queda do regime trujillista.

Com todos os acontecimentos, as três irmãs converteram-se num símbolo mundial da luta da mulher e ficaram eternizadas como Las Mariposas (as borboletas). Em 2020 a revista Time distinguiu-as como as mulheres do ano 1960.

Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres

Desde o seu assassinato, o dia 25 passou automaticamente a ter um forte significado na América Latina. E, em 1981, durante o primeiro Encontro Feminista da América Latina e Caribe (Encuentros Feministas Latinoamericanas y del Caribe) em Bogotá, foi declarado como dia de luta contra a violência contra a mulher.

Em 1999 a Assembleia Geral das Nações Unidas designou o 25 de novembro como o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. O termo “violência contra a mulher” está definido pelas Nações Unidas como “todo ato de violência baseado no género que tem como resultado possível ou real um dano físico, sexual ou psicológico, incluídas as ameaças, a coerção ou proibição arbitrária da liberdade, que pode ocorrer tanto na vida pública quanto na vida privada”.

Pretende-se assim que neste dia sejam organizadas atividades para sensibilizar sobre este problema e para celebrar as mulheres que, como se não soubessem o significado da palavra medo, abdicaram da própria vida para derrubar um regime que destruía o seu país há três décadas.

Chegamos a 2021. Que caminho (ainda) nos falta percorrer?

A 25 de novembro devem ser assinaladas, para nunca serem esquecidas, todas as questões de violência contra a mulher. Sejam elas a violência doméstica, a mutilação genital feminina, o casamento infantil, o assédio e a violência sexual.

Em Portugal, realizou-se pela primeira vez (entre 17 e 18 de novembro) o Fórum Contra a Violência, da responsabilidade da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). Foram discutidos temas como os mecanismos de intervenção nas 72horas após uma denúncia, as medidas judiciais que visam a proteção da vítima e afastamento da pessoa agressora e o apoio psicoterapêutico a crianças e jovens na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica.

Para assinalar este ano o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, foi iniciada a campanha #PortugalContraAViolência, para alerta para os impactos deste crime não só nas mulheres mas também nas crianças.

A Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) iniciou uma campanha que procura “desconstruir ditados populares, enfatizar a necessidade de rutura com preceitos culturais que continuam a justificar e legitimar o injustificável, deixando às pessoas vítimas e testemunhas uma mensagem de que existem alternativas, que passam especificamente pelas respostas de apoio e proteção que constituem a rede nacional de apoio às vítimas de violência doméstica (RNAVVD)”.

#PortugalContraAViolência – Divulgação CIG

Em declarações à agência Lusa, Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, revelou que, até ao final do mês de setembro, 19 pessoas foram mortas em contexto de violência doméstica: eram 14 mulheres e cinco homens. A violência doméstica levou também mais de 31 mil pessoas a serem atendidas e outras duas mil a serem acolhidas na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica. Rosa Monteiro assume que “são números brutais” e que por isso mesmo “têm de nos continuar a inquietar”.

Há lutas que parecem nunca ter um fim mesmo se pensarmos em toda a evolução conseguida durante os últimos anos. Urge sempre falar, não esquecer, recordar, não ter medo. Porque, como assume o slogan da campanha deste ano, inspirado na preocupação crescente nos casos de violência doméstica durante a pandemia, “enquanto houver uma mulher vítima de violência doméstica, não vai ficar tudo bem”. E, com a força da luta das Mirabal, estamos cá a 25 de novembro e em todos os dias do ano.

A violência contra as mulheres e a violência doméstica são crime público e uma responsabilidade coletiva. Ligue 800 202 148.
Outros c
ontactos que podes usar para denunciar algum caso:
Linha Nacional de Emergência Social (LNES) – 144
Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) – 116 006
UMAR – 21 886 70 96
Estrutura de Missão Contra a Violência Doméstica – 21 312 13 04
Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres:
– 21 798 30 00 (Lisboa)
– 22 207 43 70 (Porto)
Associação de Mulheres Contra a Violência – 21 380 21 60
Associação Portuguesa de Mulheres Juristas – 21 759 44 99
Fundação Byssaia Barreto (Coimbra) – 239 83 20 73

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