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Fotografia: iStock

Dia da Memória Trans. Porque precisamos honrar as vítimas de crimes transfóbicos

O Dia Internacional da Memória Trans assinala-se no dia 20 de novembro com uma manifestação em Lisboa. Mas, porquê celebrar este dia?

O Dia Internacional da Memória Trans assinala-se no dia 20 de novembro, apenas desde 1999. Pretende honrar todas as pessoas transgénero, vítimas de homicídio motivado por ódio e preconceito. Segundo a plataforma Transgender Respect, através do mapa Trans Murder Monitoring, em 2020, 363 pessoas trans foram assassinadas por todo o mundo. Ainda há muitos países sem dados disponíveis.

Este ano, o dia foi marcado por uma manifestação e vigília em Lisboa, com início no Largo do Intendente, às 13h30. O evento é organizado em parceria com várias associações, entre elas: Transmissão, Rede Ex-Aequo, Casa T, Anémona e Ação pela Identidade. A vigília pretende homenagear as vítimas de crimes transfóbicos. Mais tarde, o microfone abrir-se-á para sessões de artistas trans.

As associações também querem usar esta manifestação para mostrar a sua revolta contra a discriminação socioeconómica, no acesso à saúde e na segurança que as pessoas trans sofrem diariamente. “Sabemos que estas vidas não são tiradas ao acaso. Por todo o mundo, os níveis de violência transfóbica aumentam ano após ano. Com uma ligação profunda à brutalidade racista, machista e xenófoba, a violência que sofremos ocupando corpos trans é uma violência que mata“, lê-se no manifesto.

A violência a continuar e os dados a faltar

Entre 1 de janeiro de 2008 e 30 de setembro de 2019, foram assassinados 3314 pessoas trans e de género diverso. Só na Europa, foram 148 as vítimas. Independentemente do país, 61% destas pessoas eram trabalhadoras do sexo, sendo que a maioria morreu baleada. As restantes foram esfaqueadas e/ou agredidas.

No ano passado, morreram mais de 300 pessoas às mãos do preconceito e do ódio. Os países onde foram reportadas mais mortes foram o Brasil (157), México (64) e Estados Unidos da América (37). A América do Norte e, principalmente, a América Latina, são as regiões em que estes crimes foram mais frequentes. Na Europa, morreram, ao todo, 14 pessoas. As vítimas eram da Rússia (4), Itália (4), Espanha (2), França (1), Finlândia (1), Turquia (1) e Azerbaijão (1).

De janeiro a novembro de 2021, o Trangender Murder Monitoring estima que 282 pessoas trans morreram às mãos do ódio e do preconceito. A maioria das mortes aconteceu no Brasil (92), México (46) e Estados Unidos (40). A Europa registou 11 desses crimes, sendo que um deles aconteceu em Portugal.

Ilustração de uma mão a segurar uma fita com as cores da bandeira transgénero a voar.
Ilustração de uma mão a segurar uma fita com as cores da bandeira transgénero a voar.

Gritar pelas vozes silenciadas

Recuemos até ao início deste ano. Angelita Correia, 31 anos, mulher brasileira trans, foi encontrada morta em Matosinhos no dia 11. Estava desaparecida já desde dia 2. Tinha saído de casa no primeiro dia do ano para visitar uma amiga, disse então ao marido. A mulher vivia no Estado de Goiás e chegou a Portugal em 2016. Casou-se dois anos depois com o marido, português. Era instrutora de dança e terminara recentemente uma formação em personal trainer.

No dia em que desapareceu fez uma live no Instagram a pedir ajuda porque se sentia em perigo. “Ela disse que estava sendo ameaçada, mas que não tinha medo. Em seguida, a live pausou. Minha sobrinha chegou a ligar para ela depois e contou que a Angelita estava muito nervosa, olhando para os lados e pedindo para ligar para o marido dela”, contou a irmã ao Público. Mais tarde nesse dia, o companheiro tentou ligar-lhe, sem resposta.

Vanesa Campos, 36 anos, peruana, vivia há dois anos em Paris. Era prostituta e foi morta na noite de 16 para 17 de agosto na capital francesa, em 2018. Morreu alvejada enquanto tentava proteger um cliente de uma tentativa de assalto. A sua morte motivou protestos e homenagens um pouco por todo o mundo nesse ano. A primeira ação foi realizada em Portugal, no Jardim de Santos, junto à Embaixada Francesa.

Gisberta, o caso que acordou Portugal

Gisberta / Fonte: Arquivo Panteras Rosa

Ninguém se poderá esquecer de Gisberta Salse Junior, morta há 15 anos e deixada no fundo de um poço, no Porto. Foi assassinada por 14 rapazes menores, agredida e violada sistematicamente durante dias, de acordo com a BBC Brasil. Era prostituta e vinha do Brasil, onde os casos de pessoas trans assassinadas eram (e continuam a ser) muito mais frequentes. A morte de Gisberta ‘acordou’ o país para a discriminação dos membros da comunidade LGBT+ e consequências da sua marginalização.

Foram criadas e aprovadas leis para melhorar o acesso de todos os géneros à Justiça, educação e emprego. Para além disso, “foi aprovada a concessão de asilo a transexuais estrangeiros em risco de perseguição. “Portugal transformou-se num dos países mais avançados do mundo no tratamento à igualdade de género. As leis criadas nos últimos 10 anos possibilitaram que um número grande de homens e mulheres trans conseguissem integrar-se na sociedade”, explicou à BBC Brasil, em 2016, Nuno Pinto, investigador do ISCTE e, na altura, diretor da Ilga (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero).

Em 2021, surgiu a proposta de dar o nome de Gisberta à rua onde viveu na condição de sem-abrigo durante duas décadas, para que estes crimes e as condições de vida das vítimas nunca sejam menosprezados. A petição foi aberta pela Comissão da Organização da Marcha do Orgulho LGBT no Porto (COMOP). Citada pelo Público, Verónica Rubi, representante d’A Traça, “coletivo de pessoas trans e não binárias na COMOP”, disse que imortalizar o nome de Gisberta é “uma forma da cidade reconhecer, formalmente, um compromisso com todas as mulheres trans, seropositivas, sem-abrigo e trabalhadoras do sexo que continuam a ser alvo de marginalização, 15 anos após a sua morte”.

(Des)Igualdade no acesso à saúde

Porém, ainda há muito a fazer até chegarmos à igualdade de direitos e oportunidades de acesso para todos os membros da sociedade portuguesa. Ainda este ano, Guadalupe Amaro (Guada), angariou 15 mil euros através de doações de mil pessoas entre 30 de junho e 3 de julho. O objetivo? Conseguir realizar a cirurgia de redesignação de género.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Guada explicou a imensa felicidade de finalmente ter atingido este objetivo – ajudada por uma comunidade de amor digital – mas deixa um alerta: as pessoas trans não podem viver da caridade da Internet. Neste momento, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) só tem uma equipa, em Coimbra que faz este tipo de cirurgias e os tempos de espera podem ser elevadíssimos. A alternativa é recorrer ao privado, com os preços das cirurgias a atingirem os 15 mil e os 20 mil euros.

“Uma questão de saúde que afeta tanto a comunidade trans não pode estar entregue a sorte e privilégios. Saúde é um direito básico que deve ser acessível a todos, com qualidade, e as pessoas trans devem ser incluídas nessa equação”, afirmou ao DN. Avançou ainda ter receio “de que as pessoas fiquem muito confortáveis com o sentimento de “missão cumprida”. Contudo, deixa o seu desejo: “Quero tentar usar isto como oportunidade para avançarmos mais.”

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