Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘Passing’ é uma estreia corajosa para Rebecca Hall

Um dos filmes mais aguardados do ano já chegou à Netflix. Passing é a estreia de Rebecca Hall enquanto realizadora e conta com duas das melhores atrizes do momento nos papéis principais. No entanto, será que corresponde às expetativas? O Espalha-Factos viu o filme, contando-te agora tudo sobre ele.

Passing, o nome do filme, é também um termo utilizado nos Estados Unidos, referindo-se às pessoas de um certo grupo racial que conseguem ser aceites ou percebidas como membros de outro. Popularmente usado por pessoas negras de forma a fugir à segregação social e discriminação, este é, sucintamente, a história deste filme.

Na trama, Tessa Thompson é Irene, uma mulher que se identifica como afro-americana e que está casada com Brian, um médico negro interpretado por André Holland. Para além de Irene, temos Clare, aqui interpretada por Ruth Negga, que “passa” diariamente por branca enquanto vive uma vida em Nova Iorque casada com John, um homem racista interpretado por Alexander Skarsgård. 

Fotografia: Netflix/Divulgação

A dado momento, Irene e Clare encontram-se aleatoriamente num lobby de hotel, iniciando todo o plot. As duas vão trocando memórias nessa pequena conversa que têm, fofocando sobre pessoas passadas e momentos presentes. Eventualmente, Irene, que nesse dia estava a tentar enganar as massas passando-se por branca, acaba por conhecer John, o tal marido racista de Claire, que, tal como todos os preconceituosos que sentem que estão à volta de pessoas tal e qual como eles, baixa a guarda e diz, sem qualquer problema, que odeia pessoas negras.

É neste momento que a realização maravilhosa de Rebecca Hall, uma atriz mais conhecida pelos seus filmes de terror do que por outra coisa qualquer, começa a mostrar para o que veio, metendo-nos diretamente no meio do terror psicológico interior que Irene está a passar naquele momento, com as expressões faciais de Tessa Thompson, uma atriz que merece o “Monte Olimpo” já há imenso tempo, a serem sempre subtis o suficiente para nos deixar, tal como ela, desconfortáveis.

Enquanto que o brilhantismo deste filme pode muito bem ser atribuído a Ruth Negga, que já anda a ser falada para os Óscares do próximo ano, e Tessa Thompson, e com razão, já que são a alma da história, Passing beneficia imenso do olho de Rebecca Hall, que acaba por ter uma das estreias mais corajosas, confiantes, audazes e brilhantes das últimas décadas. A cinematografia, um preto e branco magnífico filmado em 4:3, é de cortar a respiração tal como a banda sonora hipnótica composta por Devonté Hynes, mais conhecido no mundo da música por Blood Orange. 

A única coisa que acaba por tramar Passing, por assim dizer, é o guião. Escrito por Rebecca Hall, o filme, que a dado momento estava a ser uma aula de como fazer suspense e de como criar uma atmosfera em cinema, de repente, transforma-se mais numa espécie de Cenas de Um Casamento, continuando muito bem realizado mas pecando pelo guião que deixa de ter as coisas que nos meteram na ponta da cadeira nos primeiros vinte minutos.

Apesar de tudo, Passing acaba por ser um filme a ter em conta para os prémios em 2022. Toda a gente está no topo das suas capacidades, tirando a escrita, naquele que é um projeto que mais parece um sonho distante e que acaba por sentir-se muito refém de um bom argumento. Rebecca Hall tem um futuro brilhante enquanto realizadora pela frente, mas é melhor parar de escrever os seus guiões.

Passing está disponível no serviço de streaming da Netflix.

6.5