The French Dispatch
Fotografia: Searchlight Pictures/Divulgação

Crítica. ‘The French Dispactch’ é uma ode ao jornalismo lento

O novo filme de Wes Anderson é "uma carta de amor aos jornalistas" com muito humor negro à mistura.

Depois de um ano de adiamentos, devido à pandemia, The French Dispatch (Crónicas de França do Kansas Evening Liberty Sun) estreou nos cinemas portugueses na quinta-feira (11). O décimo filme de Wes Anderson retrata a última edição de uma revista norte-americana em França.

O trabalho começa com a morte de Arthur Howitzer, Jr. (Bill Murray), editor e fundador da revista. No seu testamento, Arthur deixa escrito que a sua morte deveria também representar o fim da revista.

Mas como é que tudo começou? The French Dispatch começou por ser um suplemento de domingo do Liberty, Kansas Evening Sun. Depois de umas férias em França, o jornalista fixou-se na cidade imaginária de Ennui-sur-Blasé e contratou escritores norte-americanos. Howitzer Jr. trata a redação como se fosse uma família. Sempre direto, não se coíbe de criticar o que pensa estar mal nos textos apresentados e prefere sempre cortar em publicidade a diminuir palavras nos artigos dos jornalistas.

O filme, apesar de ter o fio condutor da morte do fundador da revista, é um conjunto de histórias independentes: um guia pelo passado e presente de uma cidade francesa, a vida e obra de um pintor presidiário, uma revolta estudantil e um artigo culinário transformado em filme de ação. Todas estas partes demonstram os temas que sustentam a publicação: desde política à arte, passando por conflitos sociais e terminando na culinária.

Para além da estética e edição fantásticas e únicas que caracterizam a obra de Wes Anderson, o que mais me deixou intrigada com esta longa-metragem foi a sua estrutura. É literalmente uma revista, com um conjunto de artigos sem ligação entre si, mas transposta para o grande ecrã. A premissa, em si, é boa, mas esta aparente desconexão pode dar a sensação ao espectador de estar perdido.

Redação 'The French Dispatch'
Fotografia: Searchlight Pictures/Divulgação

The French Dispatch não é um filme que se esgota num primeiro visionamento. Acho mesmo que é preciso vê-lo mais uma vez para o perceber totalmente. Ainda assim, existem alguns pontos sobre ele que quero abordar.

A romantização do jornalismo

Wes Anderson nunca escondeu a sua intenção de homenagear o jornalismo. Sempre descreveu o filme como “uma carta de amor aos jornalistas”. Sem ser “um filme sobre a liberdade de impressa”, como disse à revista Charante Libre, não posso deixar de o ver como uma ode ao jornalismo e ao que este devia ser. Este trabalho é, aliás, inspirado no caso bem real da revista The New Yorker.

Comecemos pela personagem principal: o fundador da The French Dispatch. Arthur Howitzer, Jr. é um homem que decide mudar radicalmente de vida, criando a sua revista quase do zero. Ele sabe que temas quer abordar, como os quer escrever e parece dar liberdade e tempo para que isso aconteça. Todas estas histórias são contadas com um acutilante sentido de humor, tão negro nos seus temas que contrasta com a forma como são abordados.

The French Dispatch
Fotografia: The French Dispatch/Divulgação

Os repórteres são tratados quase como se fossem família. Com os nossos, tanto podemos dar o maior elogio, como podemos ser o mais brutalmente honestos possível. Howitzer Jr. critica sempre as peças do trabalhadores com respeito pelo trabalho deles, mas sem lhe faltar o rigor. É assim que se chega a bons resultados: com cooperação entre os elementos da equipa e atenção ao tempo e dedicação despendidos.

Para além disso, este editor encoraja os escritores a escreverem sobre o que os inspira, não descurando a imparcialidade necessária na profissão – a objetividade do jornalista é algo bastante debatido. Conseguimos mesmo ser objetivos face a um tema que nos toca? Não será necessária alguma aproximação pessoal para tornar o texto apelativo para o leitor? The French Dispatch é uma romantização do jornalismo, mostrando tudo o que lhe falta hoje em dia: tempo para investigar, espaço para histórias exploradas a fundo e respeito (laboral, psicológico, entre outros) face aos jornalistas.

The French Dispatch
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