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Crítica. ‘Dexter: New Blood’ promete um novo começo para Dexter (e para os fãs)

Dexter foi, para muitos, uma série frustrante. Ao longo das suas oito temporadas, a série passou de um drama de excelência a uma medíocre paródia de si própria. E esta evolução culminou com um episódio final detestado pelos fãs e pela crítica, visto por muitos como uma traição à personagem.

Oito anos depois, o serial killer favorito da América regressa à televisão em Dexter: New Blood. Não é exatamente uma nona temporada de Dexter, mas sim uma nova série de dez episódios desenvolvida por Clyde Philips, um dos principais escritores e produtores da série original durante as suas primeiras quatro (e para muitos, melhores) temporadas.

Michael C. Hall regressa ao papel titular, e enquanto produtor, assim como Jennifer Carpenter, no papel de Debra Morgan, embora de forma mais… alucinante.

O primeiro episódio chegou à HBO Portugal no dia 8 de novembro, com os seguintes a serem lançados todas as segundas-feiras.

Se estão céticos, é inteiramente razoável. Para além da trajetória descendente da série original, o próprio conceito de um revival por parte da Showtime daquela que foi, em tempos, a sua série dramática de excelência, seria o suficiente para fazer até os maiores fãs de Dexter duvidar do que aí vem.

Espreitámos os primeiros quatro episódios e, mesmo sem respostas a todas as perguntas, uma coisa já fica clara: pelo menos para este assassino, resta alguma vida depois da morte.

Dexter, um lobo entre ovelhas

Dez anos passaram para Dexter desde o final da oitava temporada, quando deixou o filho Harrison ao cuidado da sua ex-parceira, fingiu a própria morte durante um furacão, e se instalou no Oregon como lenhador.

Atualmente, Dexter, sob o nome falso Jim Lindsay (um tributo ao criador da personagem, Jeff Lindsay), está a residir em Iron Lake, uma pequena cidade rural no estado de Nova Iorque onde todos se conhecem e pouco ou nada acontece. Dexter, ou melhor, Jim tem uma rotina bastante estabelecida. Trabalha numa loja de armas e artigos de caça e namora Angela (Julia Jones), a chefe da polícia local.

Dexter e Matt Caldwell em Dexter: New Blood
Imagem: HBO/Divulgação

Quando o encontramos tudo parece estar bem, salvo as alucinações recorrentes, que agora usam a irmã falecida, Debra, como a voz da sua consciência em vez do seu pai, Harry (interpretado, na série original, por James Remar). Ah, e a vontade incansável de matar. Essa também não desapareceu.

Depois de um incidente que abala a vila e a chegada súbita de Harrison, já adolescente, à procura de respostas, Dexter encontra-se numa posição demasiado familiar: a de esconder segredos (e cadáveres) daqueles à sua volta enquanto tenta manter aparências – e, acima de tudo, não ser apanhado.

Alterações climáticas

Desde o inicio que New Blood tem em mãos uma tarefa complicada: simultaneamente, tenta respeitar o final controverso da série original e distanciar-se da mesma, quer com o salto temporal, quer com a mudança radical da localização da trama de Miami para Iron Lake.

Fora Dexter, Harrison e a alucinação de Debra, estamos a lidar quase inteiramente com personagens novas. Assim, no primeiro episódio acaba por ficar muita desta carga introdutória, e é só nos momentos finais que o Dexter que nós conhecemos sai cá para fora.

No entanto, a série acelera o passo de forma considerável após este início. Rapidamente, são postas em jogo diversas armadilhas no caminho para Dexter despistar enquanto age como se nada fosse, assim como breves vislumbres do que se está a passar em Iron Lake atrás das cortinas.

Michael C. Hall em Dexter: New Blood (2021)Fotografia: HBO/Divulgação

A nível da escrita, estes episódios também inspiram alguma confiança. Nos momentos em que a série aparenta entrar no ridículo ou cliché, não demora muito até percebermos que fomos alvo de uma boa subversão de expectativas. Estes golpes nem sempre acertam em cheio mas, de um modo geral, estamos muito acima dos pontos mais baixos da série.

Também a nível emocional, a chegada de Harrison é uma variável fascinante na nova vida de Dexter. Sem revelar muito, a reunião tímida e a subsequente nova relação entre os dois remete para a adolescência de Dexter, na série original, mas também subverte as expectativas, tanto da audiência como do próprio Dexter.

Harrison (Jack Alcot) em Dexter: New Blood
Imagem: HBO/Divulgação

Dexter é levado, não só, a questionar a sua decisão de abandonar Harrison, mas também a confrontar-se com a possibilidade de que o filho, de facto, acabou por se tornar uma pessoa melhor por não o ter na sua vida.

Aqui, há que destacar o desempenho de Jack Alcott, que sobe à ocasião intimidante de contracenar com uma das performances mais bem conseguidas da televisão. Harrison herda muitos aspetos de Dexter, nomeadamente a inteligência, mas nunca é apenas uma imitação do pai.

Felizmente, a história dá bastante independência a Harrison, acabando por torná-lo numa nova perspetiva a partir da qual vemos o mundo dos adolescentes em Iron Lake. Isto faz com que o vamos conhecendo de forma mais completa, sem ser apenas pelos olhos e pensamentos de Dexter.

Olá (de novo), Dexter Morgan

Por falar em Dexter, Michael C. Hall regressa ao papel com que ficou sinónimo de forma empenhada, dando continuidade à evolução da personagem a partir das oito temporadas anteriores. Teria sido fácil “admitir derrota” e voltar ao Dexter completamente desligado da sua própria humanidade que conhecemos nas primeiras temporadas da série original.

No entanto, Hall, assim como o guião, permitem que exista uma dimensão afetiva genuína na relação de Dexter com Harrison, pela memória de Debra e, até, por Angela. A potencial desilusão de Harrison, tal como de Rita e Debra na série original, torna-se um grande motivador para Dexter, talvez até maior do que a autopreservação. Assim, sentimos um equilíbrio entre o respeito e a referenciação das temporadas menos boas, mas também corrigir curso de modo a não cometer os mesmos erros.

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Michael C. Hall e Jennifer Carpenter em Dexter: New Blood (2021). Imagem: HBO/Divulgação

Dito isto, as sequências de alucinação com Debra vão numa direção diferente da voz conselheira de Harry a que estávamos habituados. Por vezes estas cenas roçam no exagero ou melodrama, mas é uma decisão claramente deliberada para refletir o estado mental de Dexter depois de tantos anos sem saciar a vontade de matar.

Bem vindos a Iron Lake

Os restantes habitantes de Iron Lake, assim como a própria cidade, constituem um plano de fundo concretizado e imersivo o suficiente para não nos fazer sentir falta de Batista, Masuka e o resto de Miami Metro. Ao mesmo tempo, há algo entusiasmante em ver Dexter a operar num ambiente completamente novo e diferente de Miami, recorrendo a novas ferramentas e estratégias para evitar captura.

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Isto reflete-se também no estilo narrativo da série. Enquanto que a versão original era decididamente um procederal policial com uma dimensão adicional, New Blood passa menos tempo na esquadra e deixa Dexter e Harrison explorar mais o mundo à sua volta. Mais uma vez, uma escolha deliberada que confere à nova série uma cinematografia e identidade distintas do que veio antes, tentando quase “compensar” os fãs.

Michael C. Hall em Dexter: New Blood (2021). Fotografia: HBO/Divulgação

Se cumprir aquilo que estes quatro episódios prometem, Dexter: New Blood tem tudo para ser uma história extremamente competente que, em larga medida, corrige os erros do passado. Não há dúvidas de que requer conhecimento prévio da série original (inclusivamente, das partes más), mas também se distancia o suficiente para ter uma identidade própria.

Michael C. Hall continua a ser excecional no papel. Volta a personificar um homem perturbado, mas brilhante, a navegar uma vida dupla, sempre apenas um passo à frente. Ver Dexter a resolver problemas e a recorrer a todo o seu conhecimento é entretenimento em si mesmo.

Jennifer Carpenter, no papel de Debra imaginária, tem uma presença intensa e marcante mesmo que, por vezes, corra o risco de exagerar. Jack Alcott impressiona, até agora, como Harrison, e Julia Jones, assim como o resto do elenco, dão vida à população de Iron Lake, um ambiente mais íntimo em que todos se conhecem e, por isso, as consequências dos atos de Dexter na comunidade são mais tangíveis.

Para fãs, New Blood promete ser mais uma dose da mistura de tensão, perícia e mistério macabro que tornou Dexter cativante inicialmente. Mas ficam avisados: se não viram a original, este não é um bom ponto de partida.

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Dexter: New Blood
7.5