Glória
Edifício da RARET, na Glória do Ribatejo. | Fotografia: D.R. via 'Restos de Coleção'

‘Glória’. Qual foi o papel da RARET na Guerra Fria?

Glória, apesar de ser ficção, tem muitas coisas baseadas em factos reais.

A aldeia da Glória do Ribatejo é palco de um dos vários conflitos que foram travados durante a Guerra Fria, através da RARET (Radio American Retransmission). O enorme complexo foi um posto de retransmissão de rádio do bloco ocidental para o comunista. “A guerra não se faz só com armas e aí entramos nós” é uma das falas de Afonso Pimentel na série e resume bem o objetivo da RARET.

Foi instalada em 1951, na Herdade da Nossa Senhora da Glória, no coração do Ribatejo, a 73km de Lisboa, para enviar mensagens para o lado de lá da cortina de ferro, segundo o blog A Minha Rádio. Estas incluíam notícias, músicas de Amália Rodrigues e leituras de obras censuradas. As vozes, na sua maioria, eram de exilados políticos, transmitindo conteúdos traduzidos em diversas línguas.

A finalidade última da RARET era, no fundo, enviar “programas de ideologia capitalista para os países dominados pelo comunismo, nomeadamente a Checoslováquia (atual República Checa), a Hungria, a Polónia e a Roménia”, de acordo com o jornal Rede Regional, citando o mesmo blog. Uma verdadeira “guerra da informação” que tornou uma pacata aldeia no local do “maior posto da Rádio Europa Livre”.

A Rádio Europa Livre ficava em Munique, Alemanha e, daí, os conteúdos eram enviados para a central da Maxoqueira, em Benavente. Já perto do Ribatejo, os conteúdos eram gravados ou encaminhados para a RARET, o destino final antes da transmissão para a União Soviética, de acordo com a NiT.

Funcionário a trabalhar numa das antenas da RARET
Funcionário a trabalhar numa das antenas da RARET / Fotografia: Roberto Caneira

Do abandono à fama

Com a queda do muro de Berlim e o consequente fim da Guerra Fria, o posto de retransmissão tornou-se obsoleto e foi sendo desmantelado. Fechou oficialmente em 1999 e esteve abandonado até 2020, quando começou a ser reparado para receber as gravações de Glória. Durante quase duas décadas, os únicos habitantes da RARET eram o gado que de vez em quando pastava na enorme herdade.

Votada ao abandono, ainda restavam vestígios da arma contra o comunismo que outrora fora: “transmissores, máquinas de escrever e uma foto envelhecida do Papa João Paulo II”, “um jipe, máquinas industriais, fichas de alunos”, “arcas frigoríficas”, as piscinas e as velhas espreguiçadeiras, de acordo com a NiT.

Enquanto estava em operações, a RARET alterou profundamente a aldeia da Glória do Ribatejo, concelho de Salvaterra de Magos. Aleixo Fernandes, engenheiro mecânico no complexo, contou à SIC o que viveu na herdade. “Sabíamos que era um centro transmissor”, começou por explicar, “agora qual era finalidade não sabíamos. Nós éramos técnicos, puramente técnicos, não estávamos envolvidos em políticas nem nada”. Apesar de não conhecerem todos os contornos políticos do que se passava, fazia uma vaga ideia. “Sabíamos que era para os países da cortina de ferro, para os informar do que é que se passava para lá da cortina de ferro. Isso sabíamos”.

Tal como a série mostra, os conteúdos transmitidos eram traduzidos por profissionais que passavam pela Glória do Ribatejo. Mário Portugal Bettencourt Faria, antigo trabalhador no complexo, recorda um dos tradutores que colaborou na herdade, o italiano Pasqualino. “Foi até devido à sua facilidade em aprender línguas que conseguiu escapar de um campo de concentração dos países de leste”, recordou Bettencourt Faria, “segundo nos comunicou, falava fluentemente 12 idiomas. Este facto deu-lhe entrada imediata na PIDE, onde era muito admirado”.

Dois trabalhadores numa das torres da RARET
Dois trabalhadores numa das torres da RARET / Fotografia: Roberto Caneira

A produção da SPi e da RTP também captou bem a dificuldade em transmitir os conteúdos corretos e em apanhar as frequências pretendidas. Dada a elevada facilidade na captação de ondas russas, existia o risco de transmitir, não as emissões da Rádio Europa Livre, mas sim propaganda da Rússia para os restantes países da URSS.

“O Sr. Pasqualino logo nos advertia de que estávamos numa frequência errada, a Rússia. Felizmente que ele ali estava atento, pois para o português médio, a fala russa é mais ou menos como as dos países de leste. Se não fosse a sua ajuda, certamente que iríamos retransmitir não a Rádio Europa Livre, mas sim os noticiários e propaganda russos. Seria, o que se pode chamar de ‘uma grande bronca'”, contou o antigo funcionário.

Armando Oliveira, antigo serralheiro que trabalhou na RARET desde a sua abertura, contou no blog A Minha Rádio que as informações eram direcionadas aos interesses norte-americanos e que existiam espiões na URSS para informar que as emissões eram bem recebidas.

Como uma arma de guerra mudou a vida da aldeia

Para além de uma arma ideológica, o enorme complexo tinha, também, um posto médico, maternidade, áreas residenciais e piscinas para as famílias dos trabalhadores, alguns deslocados. Mas, talvez, a mudança mais importante para os locais tenha sido a criação de empregos e de oportunidades de estudo.

Segundo Roberto Caneira, historiador da câmara de Salvaterra de Magos, “foi construída uma Escola Industrial, com cursos de montador radiotécnico, montador eletricista e serralheiro mecânico”. Esta escola foi criada em 1960 e a sua frequência era totalmente gratuita. Nesta altura, já existiam 12 emissores de alta potência na herdade.

Por outro lado, estas antenas eram fruto de alguma desconfiança por parte da população. Os locais, ainda hoje, recordam o número anormal de bebés que nasciam com malformações, facto retratado na série. Mesmo em 2021, não há certezas de que as atividades da RARET e das antenas não influenciaram a saúde dos bebés no útero das mães.

Edifício da RARET, na Glória do Ribatejo
Edifício da RARET, na Glória do Ribatejo. | Fotografia: D.R. via ‘Restos de Coleção’

Avançando para a década de 1980, em maio de 1985, “uma pequena bomba explodiu perto do complexo de rádio RARET, na véspera da visita do presidente Ronald Reagan”, de acordo com a NiT. Na altura, não foram reportadas quaisquer vítimas humanas, apesar de alguns materiais terem ficado danificados. O ataque foi feito por um grupo “anticapitalista e antimilitarista”.

Já nos anos finais, a RARET recebeu oito transmissores de 250 quilowatt. Pouco tempo depois, o complexo fechou, os materiais foram dados à Junta da Freguesia da Glória do Ribatejo. Depois, foram vendidos como sucata, menos as 60 mil bobines gravadas no local. Essas foram guardadas em Lisboa até 2001, tendo sido depois enviados para a Instituição Hoover, na Universidade de Standford, nos Estados Unidos.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.