Fotografia: Cinemundo/Divulgação

Crítica. ‘Spencer’: a fábula de uma tragédia real

O mais recente filme de Pablo Larraín já chegou às salas de cinema nacionais. Spencer, filme que cobre um fim de semana natalício imaginário passado pela Princesa Diana, é protagonizado por Kristen Stewart no papel da Princesa de Gales e tem sido extremamente bem recebido por críticos de todo o mundo. No entanto, será que correspondeu às expectativas? O Espalha-Factos foi ao cinema e viu o filme, contando-te tudo sobre ele. 

Os primeiros segundos desta longa-metragem descrevem aquilo que vamos ver a seguir: uma fábula de uma tragédia real. É esta a descrição que nos é lançada pelas letras que aparecem no ecrã do filme realizado por Pablo Larraín, um cineasta chileno que vem fazendo uma carreira sempre muito diversificada mas especializando-se em biopics, com nomes como Jackie e Neruda na sua filmografia. 

Pablo Larraín sempre se mostrou mais interessado em ir contra a tradição geral do que um filme deste tipo. Jackie, o filme devastador protagonizado por Natalie Portman no papel de Jacqueline Kennedy nos dias da morte do seu marido, John F. Kennedy, veio comprovar que o realizador está mais preocupado em refletir sobre o passado, sem ter medo de mostrar o que realmente aconteceu.

Em Spencer, isto não é diferente. A história, um fim de semana natalício infeliz vivido por Diana juntamente com a família real imaginado pela mente de Larraín e Steven Knight, o escritor do filme, é um autêntico pesadelo. Na trama, é neste conjunto de dias que a Princesa decide finalmente pedir o divórcio a Charles, levando os filhos consigo, no meio de toda a claustrofobia e desespero.

A personagem de Kristen Stewart, desde o início da longa metragem, é mostrada como estando sempre atrasada. Quer seja para os eventos reais ou nos timings das suas decisões, mostrando uma Princesa com um o peso do mundo nos seus ombros, encurralada, deprimida e angustiada, sempre difícil de aturar e de lidar, o que acaba por ser uma escolha criativa bastante interessante por parte de Larraín.

Fotografia: Cinemundo/Divulgação

A sua personalidade está completamente desmontada da realidade, o que acaba por coincidir com a ordem de acontecimentos que vamos ver representados em Spencer. A montagem do filme – caótica, solta, confusa, surreal – é uma grande exemplificação do estado de espírito da nossa personagem principal, vivendo num ciclo vicioso de sofrimento, mágoa e autosabotagem, acabando por magoar-se a si mesma em várias instâncias só para sentir algo diferente daquilo que tem vivido, para fugir à rotina que lhe é imposta. 

Spencer é corajoso naquilo que tenta mostrar, sabendo perfeitamente que vai acabar por indignar alguns espectadores com aquilo que atira para cima de nós. A personificação daquilo que Diana era – uma pessoa imperfeita – é arrojada e acaba por ir contra as convenções gerais do que é uma biopic. Pablo Larraín é tão audaz no que faz que, a dado momento, o sentimento geral é que o chileno vai matar a Princesa na longa-metragem. 

Este projeto poderia, facilmente, ser considerado um filme de terror, uma espécie de Shiva Baby, faltando apenas a energia caótica. Mas o que falta nisso, sobra em ansiedade porque, de alguma maneira, e no meio da lentidão do filme que acaba por não ser sentida, Pablo Larraín deixa o espetador quase a cair da cadeira. É uma história de repressão, de prisão, de paranóia de uma pessoa que tem que fingir diariamente algo que não é nem quer ser. 

No meio disto tudo, temos um nome surpreendente: Kristen Stewart. A atriz tem vindo a subir a pulso desde o seu protagonismo no franchise de Twilight, fazendo uma carreira no meio dos filmes independentes e ganhando fãs nesse nicho. A sua performance enquanto Diana acaba por ser o coração deste filme. É um casting corajoso e admirável, e que acaba por resultar nas mil maravilhas, fazendo algo superior ao trabalho estupendo que Natalie Portman já tinha feito com Jackie

Pela banda sonora à base de jazz livre composta por Jonny Greenwood, um compositor que um dia vai ser visto como o Hans Zimmer do cinema de autor, Stewart vai bailando na pele da Princesa de Gales, nunca parecendo a própria Kristen Stewart. De facto, é impressionante o quão imersiva é a atriz neste papel. Numa questão de segundos, que é quando aparece em cena pela primeira vez, a atriz desapareceu e só temos Diana, uma constante até ao final do filme, arrasando em todos os maneirismos e fazendo-nos sentir toda a confusão, dor e ansiedade da personagem. 

Kristen Stewart é Princesa Diana em Spencer
Kristen Stewart como Princesa Diana em Spencer. (Fotografia: Divulgação)

Certamente não vai agradar a todos. No entanto, há que aplaudir o que Kristen Stewart e Pablo Larraín conquistaram em Spencer. É uma história de terror corajosa daquilo que é, normalmente, visto como um conto de fadas, numa reversão de género incrível em duas horas de loucura, emoção e insanidade de uma pessoa que não quer ser aquilo e que, no final, escolheu ser uma Spencer. Por estes motivos e muito mais que poderão ter sido esquecidos, Spencer é um dos melhores filmes do ano e promete arrebatar a temporada dos prémios de cinema.

Spencer está em exibição em várias salas de cinema em todo o país, desde 4 de novembro.

 

9