Foto: Ramon Freitas | página oficial de MEMA. no Facebook

À Escuta. MEMA., Conjunto Corona e Rossana são os destaques desta semana

É sábado e o À Escuta, rubrica semanal do Espalha-Factos sobre música portuguesa, está de regresso. Em mais uma edição, o destaque é dado aos novos singles de MEMA.Conjunto Corona e ao novo curta-duração de Rossana.

Falamos ainda do novo disco de Cavalheiro, do novo lançamento de Mind Safari e da nova compilação da Monster Jinx, dos novos singles de Éme e MoxilaPimenta CaseiraTaful Nicolau, da homenagem dos Perpétua a Carlos Paião e da estreia promissora dos Walter Walter.

MEMA. traz-nos o seu novo single, ‘Estou Bem’

MEMA., nome artístico com o qual se dá a conhecer a produtora e artista aveirense Sofia Marques, regressa com o seu novo single‘Estou Bem’, o seu primeiro lançamento desde do EP Cidade de Sal do ano passado e da sua participação no Festival da Canção com Stereossauro.

Sobre esta sua nova faixa, MEMA. revela que este nasceu de um ano complicado, em que a artista debateu-se com a sua saúde mental. “Vivemos com monstros que nos perseguem para todo o lado. Para mim tem sido a depressão e este ano em particular, deitou-me ao chão, estive mesmo para desistir de tudo. Mas dava por mim a responder ao habitual “então, estás bem?” com um “Sim, estou bem”, quando por dentro estava a desabar e comecei a questionar-me ‘mas porque é que eu disse isto?‘, conta em nota enviada à imprensa.

MEMA - Estou Bem
Fotografia: Divulgação

Produzida pela própria, e com colaboração de Água para a criação da faixa, de Ruby Smith na mistura e de Katie Tavini (Arlo Parks, Mykki Blanco, Sega Bodega, entre outros) no mastering, ‘Estou Bem’ é, na sua génese, uma canção de pop que revela a evolução da estética de MEMA. O instrumental brinca com as suas camadas de eletrónica, utilizando os vocais quase como um instrumento adicional para criar um ambiente que nos envolve na ansiedade presente nesta faixa orelhuda e excelentemente produzida. É quase como se a canção nos quisesse levar a acreditar que estamos bem quando, na verdade, estamos perdidos no meio das suas harmonias e texturas. ‘Estou Bem’ é um regresso belo muito bem-vindo de uma artista que ainda tem muitas cartas para dar no mundo da música portuguesa.

Conjunto Corona anuncia: ‘Mãe birei Gandim’

Para quem conhece o trabalho de dBLogos e o Homem do Robe enquanto Conjunto Corona, a sua escavação antropológica de forma fidedigna e genuína da paisagem urbana e social da Área Metropolitana do Porto não é surpresa para ninguém. O seu novo single‘Mãe birei Gandim’, prossegue das pistas deixadas por ‘Sempre a Riffar’ que talvez os Corona estejam próximos de apresentar o seu disco mais aventuroso em termos de história e sonoridade.

Inspirado por um documentário amador intitulado de E tudo o guna levou (cujas imagens são usadas para a criação do videoclipe), enviado ao grupo por “dois amigos chamados Nuno Mendonça e Manuel Pestana“, ‘Mãe birei Gandim‘ é uma faixa que volta a mostrar as influências de artistas como J Balvin ou Daddy Yankee na sonoridade deste seu novo disco. O reggaetondancehall estão lá mas são aprimorados pela produção de dB, que insere-os dentro do contexto kitsch do grupo.

Somehow, tudo se enquadra em ‘Mãe birem Gandim‘. Os vocais e barras de dB e Logos funcionam neste estilo, servindo muito para criar uma ambiência que soa urbana e noturna, capaz de homenagear e nos fazer lembrar, de forma nostálgica, por aqueles intervalos da escola onde observávamos os gunas a fazerem a sua vida no recreio, desejando ser tão fixe como eles. Um banger sem igual é este ‘Mãe birei Gandim, orelhudo, em mais uma demonstração da criatividade dos Corona.  A história prossegue no próximo dia 12 de novembro, data em que será lançado o novo disco do grupo, G de Gandim, que pretende homenagear a vida noturna da zona industrial da cidade Invicta – a “naite” portuense.

Rossana reinventa a música tradicional portuguesa em Ao Deus Dará

Rossana - Ao Deus Dará
Fotografia: Bandcamp da artista

Depois da sua pequena caixinha de sentimentos, Rossana está de regresso com um novo curta-duração, Ao Deus Dará. São seis canções, três com colaborações (Ana de LlorBonança Bia Maria), que têm um objetivo muito concreto: reinventar a música tradicional portuguesa. E se havia dúvidas que Rossana era um dos nomes mais promissores da música portuguesa, com Ao Deus Dará… deixam de haver depois disto.

O objetivo de reinventar a música tradicional portuguesa é, desde logo, garantido. A junção de elementos de eletrónica, jazz e música alternativa aos arranjos das faixas tradicionais permitem que a artista expande-as em termos de instrumentação. Soam etéreas, massivas, belíssimas, dando um espaço para que os dotes vocais de Rossana (e convidados, claro) sobressaiam. É um curta-duração para ouvirmos e nos perdemos na sua atmosfera e, no final, regressarmos e perdermo-nos ainda mais nos detalhes de cada música. Certamente, este é um dos EPs do ano no mundo da música portuguesa.

Cavalheiro leva-nos à sua Ilha Digital de pop bem construída

Cavalheiro - Ilha Digital
Fotografia: Bandcamp do artista

Ilha Digital é o nome do novo disco de Cavalheiro, projeto do músico e compositor Tiago Ferreira. O longa-duração é o primeiro do artista desde 2018, ano em que lançou Falsa Fé, e conta com produção do próprio artista e de Vítor Barros (Equations), tendo sido criado com o apoio da Trabalho da Casa, programa de criação artística do gnration que promove a criação e a apresentação de novos trabalhos por artistas sediados e criados em Braga.

Algures entre um Pedro de Tróia e um Benjamim, Ilha Digital é um disco de pop bem construída, onde os sintetizadores e guitarras nostálgicas (mas ruidosas) vibram entre as baterias e grooves massivas, claramente a invocar a new wave como influência. Tudo isto, claro, sem nunca esquecer as aventuras sónicas que habitam dentro da obra de Cavalheiro, com contornos mais experimentais a surgirem nas faixas da segunda parte do disco. Por este jogo de melancolia, experimentação e nostalgia, Tiago Ferreira canta sobre a presença e impacto da tecnologia na sua (e, por consequência, na nossa) vida. A estética do disco assenta ao tema, sem dúvida, e Ilha Digital é um disco que os fãs de new wave não podem ignorar.

Éme e Moxila juntam-se para o primeiro ‘Assalto’ do seu novo disco

‘Assalto’ é o nome do primeiro single do novo disco que junta (mais uma vez) Éme e Moxila, dois alunos da Cafetra Records. Escrito, tocado e produzido pelos dois artistas, a faixa conta ainda com colaboração de Primeira Dama na gravação, coprodução e palmas e de mistura por parte de João Oliveira.

Nesta cantiga de art folk, Éme e Moxila entregam uma faixa orelhuda e delicada, mas que soa não deixa de soar ansiosa. É claro que, para dois artistas com tanta experiência junta, Éme e Moxila sabem como se complementar, e ‘Assalto’ é mais um momento que revela mais do que a química entre os dois artistas, mas também a sua amizade. Uma bela cantiga que antecipa o novo disco dos artistas, que será lançado no final do mês de dezembro deste ano.

Mind Safari celebrou o seu aniversário com Jaguar

Jaguar é o nome do novo lançamento de Mind Safari, um dos alias pelo qual assina o produtor aveirense João Melo (JOAN ジョアン, Delurdes). O disco foi lançado para a ocasião da celebração do 33.º aniversário do produtor e conta com participações da cantora Eva Paiva e de Ghost WavvvesVasco Completo em funções de remixes.

Com influências de techno, dub, música ambiente bem presentes, as faixas de Mind Safari atiram-nos para uma floresta chuvosa, num dia de neblina, onde a percussão de cada faixa se sente nas folhas das árvores e o som dos sintetizadores é nos trazido pelas brisas que vão surgindo. É um disco que nos faz dançar e, ao mesmo tempo, parar no tempo para contemplar aquilo que nos rodeia. Em suma: eletrónica para transcender, e que boa que é.

Monster Jinx regressa para uma nova compilação, Cursed, Vol. 2

Monster Jinx
Fotografia: Divulgação / Oker

A turma roxa está de regresso. A Monster Jinx traz-nos esta semana uma nova compilação, Cursed, Vol. 2 (a sucessora de Cursed, Vol. 1, lançada em 2020), que conta com 13 faixas de 13 artistas da turma roxa: DarkSunn, Raez, Mazarin, Saloio, Vasco Completo, Liquid, E.A.R.L., Maria, OSEB, NO FUTURE, Ghost Wavvves, MAF e Xando.

Se 13 é suposto ser um número do azar, aqui certamente não o é. As 13 faixas de Cursed, Vol. 2 carregam a identidade própria de cada artista em cada uma delas, mas que acima de tudo, revelam a união e compadrio que existe entre os membros da label, albergados sobre a alça de um Monstro: o monstro das batidas eletrónicas, do jogo das samples, da pista de dança, do feedback e dos traços psicadélicos que perpetuam em cada faixa. Acima de tudo, o Monstro do amor à música e à criação.

Claro está que, sendo 13 faixas de 13 artistas, é notório que esta compilação seja vastamente eclética, abraçando sonoridades que vão da eletrónica feita para a pista de dança de DARKSUNN, E.A.R.L. ou Raez, até ao nu-jazz dos Mazarin ou o indie pop de Saloio. Pelo meio, há um pouco de tudo: o hip hop de Liquid, o trip hop de Vasco Completo, o trance de NO FUTURE, as experimentações sónicas de Ghost Wavvves ou M.A.F.. Há muito a ouvir em Cursed Vol.2 e cada faixa serve de porta de entrada para o mundo de cada artista, que pode e deve de ser explorado mais a fundo por quem só agora irá descobrir a Monster Jinx. Compilação amaldiçoada? Nada disso.

Perpétua homenageiam Carlos Paião com a sua versão de ‘Playback’

Depois de terem lançado um dos discos de estreia mais fortes do ano, Esperar Pra Ver, os aveirense Perpétua estão de regresso com uma nova faixa – uma cover de Playback’, lançada no dia de aniversário do grande Carlos Paião (1 de novembro), a convite da Câmara Municipal de Ílhavo. Na sua versão de ‘Playback’, os Perpétua capturam a diversão e estranheza da original, incutindo-lhe a o seu cunho de indie pop – como qualquer boa cover deve de fazer. A homenagem é bem conseguida e, com certeza, Carlos Paião estaria satisfeito com a versão do grupo aveirense.

Pimenta Caseira mete-nos a dançar com ‘Dá-me Tudo’

Pimenta Caseira
Fotografia: Divulgação

Os Pimenta Caseira começam a traçar o caminho para o seu disco de estreia. O coletivo fixado na Rua Cor de Rosa, no Cais do Sodré em Lisboa, e constituído por Fred Martinho aka B.E.R.A (HMB), na guitarra e talkbox, Gui Salgueiro aka Yanagui, nas teclas, Zé Maria no saxofone, sintetizadores e vocoder e Ariel Rosa na percussão, revelou esta semana o primeiro single de antecipação para esse disco, Dá-me Tudo.

Recheado de grooves bem delineadas e um instrumental com influências de G-Funk e eletrónica – em particular, dos Daft Punk – ‘Dá-me Tudo‘ é uma canção bem orelhuda e que nos faz querer movimentar e dançar nas pistas de danças de locais como o Tokyo ou o Lux. É uma entrada bem apetitosa para o mundo dos Pimenta Caseira cujo menu inteiro vamos descobrir muito brevemente no seu disco de estreia que tem missão de “levar a audiência numa viagem de primeira classe mas sem rumo pré-definido, onde a improvisação é rainha e os instintos e oficio dos músicos são postos à prova em prol de algo maior”.

Taful Nicolau revelam o seu segundo single, ‘Não Vai Dar Mais’

Não Vai Dar Mais é o nome do segundo single dos Taful Nicolau, duo constituído por José Maria TafulSérgio Nicolau.

Nesta sua nova cantiga de rock, onde a influência dos The Doors se faz notar, os Taful Nicolau voltam a assumir-se como um dos grupos promissores do rock português. A groove é mantida ao longo da faixa, separada por guitarras cruas e pelo vocais quase kitsch do duo. A faixa soa suja, como uma boa canção de rock clássico deve de o ser, e acaba a explodir num belo solo de guitarra, em mais um momento que revela a capacidade do duo enquanto instrumentalistas. É manter o olho debaixo dos Taful Nicolau, porque eles ainda vão ter mais para dar.

Walter Walter estreiam-se com ‘Verão’

Desde que ouvimos por aí umas demos perdidas dos Walter Walter, trio do Barreiro constituído por André Amado (voz e guitarra), David Yala (baixo e coros) e Afonso Ferreira (bateria e coros), que estávamos à espera de um lançamento oficial por parte do grupo. Esta semana, a espera finalmente compensou, com o single de estreia do trio, ‘Verão’, a ser lançado ao mundo.

Neste single de estreia, os Walter Walter transportam-nos para um final de tarde de verão, para uma praia distante, prontos para nos colocar a dançar com o seu garage rock meets sunshine pop nostálgico. Há toques de The Strokes e The Lazy Faithful, há uma atmosfera algures ali entre Mac deMarco e Rex Orange County, e há riffs bem pomposos a surgir nas guitarras do grupo pelo meio das grooves dançáveis desta faixa.

O verão de 2021 pode já não voltar, mas os Walter Walter estão bem já a tempo de iniciar o verão de 2022 com faixas como esta. Até lá, ainda há bem tempo. Por agora, o single de estreia do grupo confirma o potencial e como um dos grupos a observar no ceio do indie rock português.