Porto Post Doc. “Mais dias e mais salas” no regresso ao formato original

A 8.ª edição do festival de Cinema do Real vai ter lugar nas salas de cinema da baixa do Porto de 20 a 30 de novembro

Nos últimos dias de novembro, mais de 99 filmes voltam às salas de cinema da baixa do Porto para a 8.ª edição do Porto Post Doc. Após uma edição mais limitada devido à pandemia, o festival retorna ao formato original, com cinema, performance, festas e fóruns de discussão.

Esta quinta-feira (4), Dario Oliveira, diretor do festival, Tiago Guedes, diretor do Teatro Municipal do Porto, Guilherme Blanc, diretor do novo Cinema Batalha e João Vasco Gonçalves, do Canal 180, importante parceiro do evento, estiveram presentes no Café Rivoli para apresentar a programação final da 8.ª Edição do Porto Post Doc.

Dario Oliveira explorou todos os detalhes do programa e sublinhou a importância de adicionar mais espaços, este ano, aos habituais Rivoli, Passos Manuel, Planetário e Casa Comum. Nesta edição, o festival passa ainda pela Sala Estúdio Perpétuo, um “cinema de bairro, reaberto recentemente,” e ainda pelo Coliseu AGEAS, que vai receber a sessão de encerramento.

“O programa deste ano alonga-se por onze dias”, decisão que surgiu “depois de um ano muito particular, em que tivemos de fazer exatamente o contrário”.  A competição internacional tem dez filmes em estreia nacional, “que arriscam bastante” na secção que é a grande aposta “nas novas linguagens do cinema do real”.

Após uma “conversa informal” com o músico Caetano Veloso, foi aprovada a ideia de usar o nome Cinema Falado, um ensaio cinematográfico feito pelo músico nos anos 60 e que “encerra em si um grande significado”. A secção apresenta filmes falados em língua portuguesa, oriundos não só de Portugal mas também do Brasil, São Tomé e Príncipe e coproduções com a Áustria e Espanha. Desta secção fazem parte Distopia,  de Tiago Afonso, um dos grandes vencedores do Doclisboa, e também No Táxi do Jack, de Susana Nobre, eleita Melhor Longa-Metragem Portuguesa na última edição do IndieLisboa.

Também em português, “com vista a descobrir jovens talentos”, a Competição Cinema Novo reúne dez curta-metragens realizadas por estudantes. É uma das secções com apoio do Canal 180, grande parceiro do festival na procura de novos talentos.

Imagem do filme Don’t Go Gentle – a film about Idles
Don’t Go Gentlea film about Idles (Fotografia: Divulgação/Porto Post Doc)

A secção competitiva, Transmission, considerada a mais importante do programa do festival, vai decorrer, na sua totalidade, no Passos Manuel. Este ano, conta com Don’t Go Gentle – a film about Idles, sobre a banda pós-punk de Bristol, num filme que cria “um sentimento de proximidade enorme” e que é um dos mais esperados da programação e, também, um “quase autodocumentário” a propósito da carreira “fulminante e cheia de polémicas” de Moby.

Consideradas “imperdíveis” pela organização do festival, a abertura e o encerramento baseiam-se em performances e “sessões de cruzamento artístico”. A noite de abertura é celebrada com um cine-concerto que revisita o clássico de 1930 do cinema português, Maria do Mar de Leitão de Barros, numa versão musicada por Bernardo Sassetti, interpretada por Pedro Burmester e pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa. A encerrar, uma “instalação de vídeo e performance musicas” de As Filhas do Fogo, de Pedro Costa, e Os Músicos do Tejo.

A importância de uma nova sala de cinema

Imagem do filme Ljubomir Stanišić- Coração na Boca
Ljubomir Stanišić – Coração na Boca (Fotografia: Divulgação)

Este ano, após longos anos de encerramento, a Sala Estúdio Perpétuo, mais longe da baixa, no Marquês, vai receber um programa temático de novo documentário português, um lugar “onde vão acontecer coisas novas para o festival”, nomeadamente um jantar com filme, Pato Pathos, de Cunha Pimentel, que trará o “envolvimento dos vários públicos” e dos “vários tecidos sociais da cidade”, importantíssimos para que o festival volte a ter o “ambiente de festa que tinha quando nasceu há oito anos”. Destaca-se ainda o filme Ljubomir Stanišić- Coração na Boca, de Mónica Franco, em estreia, e ainda Do Bairro, de Diogo Varela Silva, parte também da programação do Doclisboa e que, “embora seja um filme sobre a gentrificação de Alfama”, é relevante nesta mostra da cidade do Porto por “aquilo que está a acontecer a algumas partes da baixa, uma gentrificação acelerada, fruto dos tempos que correm”.

Ideias para esquecer o fim do mundo: “Nós éramos aqueles que sabiam, mas não entendiam”.

Este é o tema central deste festival, a partir da “utilização de um título brilhante do mestre Ailton Krenak, que nos ajudou a fazer esta programação”. Através de uma troca de filmes e ideias, surge um conjunto de filmes e de conversas baseado nas palestras realizadas pelo líder indígena entre 2017 e 2019.

São filmes que “apresentam problemas concretos mas também soluções” para não vingar a “visão catastrófica” e, sim, a esperança à “luz de ideias alternativas às lógicas consumistas que, cada vez mais, aniquilam as diferenças e limitam as formas de pensar da nossa existência”.

Este tema central abrange filmes entre o documentário e a ficção, que nos levam a “desejar mais das nossas vidas” e a querer “resgatar o que nos é recusado em tempos de informação desenfreada”.

Os cineastas em foco

Este ano, estarão em foco dois cineastas que, apesar de não fazerem “filmes sobre questões climáticas”, estão no mesmo “universo de análise, de crítica”. Um deles é o jovem cineasta Theo Anthony, que tem estado no foco dos festivais internacionais, e que com apenas 32 anos tem já um vasto leque de obras que criticam, sobretudo, o “novo capitalismo da informação”.

Do Paquistão, com uma “apresentação muito mais polémica”, chega-nos Basir Mahmood. As suas curtas-metragens vão ser apresentadas de uma forma muito diferente: num loop de 70 minutos que irá estar durante 12h no Passos Manuel, desde as 16h da tarde às 4h da manhã. Como o autor pediu, será “uma instalação de vídeo apresentada fora de uma galeria, numa sala de cinema”.

Nem só de filmes totalmente terminados vive um festival de cinema

À semelhança do que aconteceu no Doclisboa, a indústria tem um tratamento especial neste festival portuense. Assim, haverá também uma Secção Arché Porto, com 4 projetos ‘work in progress’, sob a tutoria do brasileiro Sergio Oksman. No seguimento da ideia de trabalho coletivo, volta a ter lugar este ano o 180 Media Laboratory, resultante de uma parceria com o Canal180, “um espaço que se propõe a abrir novos horizontes para velhos formatos de exibição, através do desenvolvimento de um conjunto de ações experimentais”.

O objetivo desta parte do festival é de desenvolver projetos em diferentes fases de execução, permitir a troca de ideias e, também, alcançar um prémio de financiamento que permita evoluir ainda mais os projetos.

Esta programação, pensada para “vários públicos” que se mostram “atentos aos temas da nossa época e ao novo cinema português e internacional”, está disponível no site do festival, e a baixa do Porto já está pronta para “onze dias de maratona de filmes e encontros espontâneos”.