My Bloody Valentine
Fotografia: Paul Rider

My Bloody Valentine. 30 anos da disrupção sonhadora de Loveless

Num dos episódios de Artur (ou Arthur, conforme prefiram), intitulado de Binky’s Music Madness, é explorada a relação de Binky, um dos amigos da personagem que dá nome à série animada dos anos 90, com a música. Numa das cenas que constitui a trama,  Binky ouve música (usando esse instrumento arcaico que é um leitor MP3) que acaba por fazê-lo transcender, com a montagem visual do episódio a distribuir-se por entre fractais e cores psicadélicas . É uma espécie de viagem causada pelo impacto de encontrar algo novo, nunca antes ouvido pela personagem.

Este momento – o Musical Daydream de Binky – acabou imortalizado no mundo dos memes da Internet, servindo de template para representar o primeiro encontro com bandas e discos que, em primeira audição, causam o tal impacto de encontrar algo diferente. O momento captura bem a reação que se tem quando, pela primeira vez, nos deparamos com um disco que hoje, 4 de novembro, faz 30 anos. Um disco diferente de tudo aquilo que foi feito antes e que continua a soar diferente de tudo aquilo que foi feito depois, por muito que o tentassem copiar. O seu nome é Loveless, álbum seminal do género denominado por shoegaze, e segundo longa-duração dos irlandeses (e britânicos) My Bloody Valentine.

Para celebrar a ocasião, o Espalha-Factos apresenta a história de um disco e de uma banda que atingiram um estatuto de místico no seio do rock alternativo e cuja influência ainda se hoje se faz ecoar em todo o espectro do mundo alternativo.

O início e a era de goth rock dos Valentines

A história dos My Bloody Valentine inicia-se bem antes de 1991. Em 1978, um jovem irlandês-americano nascido em Queens, Nova Iorque, de seu nome Kevin Shields, conhece num torneio de karaté um outro jovem irlandês, Colm Ó Cíosóig, que “queria formar uma banda“. A Shields, dono da guitarra do grupo, e a Colm, baterista, juntar-se-ia Liam Ó Maonlaí como vocalista para formar os The Complex. O trio, que apresentava uma sonoridade punk influenciada pelos The Ramones ou Sex Pistols, estaria junto durante mais ou menos um ano, altura em que Liam abandonaria o barco (mais tarde, viria a fundar os Hothouse Flowers, um dos grupos mais bem sucedidos da música irlandesa).

Querendo prosseguir com o seu sonho, Shields e Colm acabaram a formar uma nova banda, A Life in a Day, um trio de post-punk influenciado por bandas como Joy Division ou Siouxsie and the Banshees que nunca chegaria a tocar para “mais de umas centenas de pessoas“, acabando assim a sua breve história. Não desistindo mais uma vez, o “duo” formaria, no ano de 1983, uma nova banda com o vocalista David Conway denominada de My Bloody Valentine. Inicialmente, ainda em Dublin, o grupo não tinha nenhuma formação bem definida, como conta Shields em entrevista à Buddyhead, em 2005. “Alguns concertos tinham muita gente envolvida [na banda], em outros éramos só três. [My Bloody Valentine] existia apenas como algo solto até irmos para a Europa, em 1984. Quem não quis vir para a Europa, ficou fora da banda”, relata o instrumentalista e produtor que viria a virar o líder quase espiritual do grupo mais tarde.

A ideia para a Europa que Shields refere surge a partir de uma sugestão dada por Gavin Friday, vocalista dos Virgin Prunes (cujo segundo disco, …If I Die, I Die, é uma novelty no cânone do post-punk), visto que os MBV não se conseguiam enquadrar em Dublin. Em 1984, a banda acabou a viajar para os Países Baixos com quatro elementos a bordo: Kevin, Colm, David e a teclista Tina Durkin (namorada de David à altura) que, na realidade, não sabia tocar o instrumento. O grupo ficaria no país das papoilas durante alguns meses antes de mudar-se para Berlim – ala do Oeste – onde gravariam o seu primeiro mini-álbum, This Is Your Bloody Valentine, lançado em 1985.

O primeiro lançamento dos MBV é, no mínimo, dissonante para quem conhece o trabalho futuro do grupo. Longe das experimentações sonoras futuras, This Is Your Bloody Valentine é um trabalho muito mais próximo de um goth rock, onde a atmosfera escura do género se encontra com uma influência notória de grupos como The Birthday Party ou The Cramps. Se os instrumentais revelam momentos interessantes de composição, é a entrega completamente exagerada de Conway que torna este miniálbum numa pequena gema do goth rock e uma novelty  na discografia dos MBV.

O mesmo, no entanto, já não se pode dizer do EP que daria continuidade à carreira do grupo, Geek!, lançado no final de 1985, já com a banda instaurada em Londres após This My Your Bloody Valentine não ter recebido a atenção que o grupo desejaria. Por esta altura, Tina acabou por abandonar, enquanto que, por via de recomendação de músicos amigos, a baixista Debbie Googe acabaria recrutada. Geek!, apesar de demonstrar já alguma influência do noise de grupos como The Jesus and the Mary Chain, é um trabalho muito menos interessante que o anterior, não apresentado particularmente nada de novo na sonoridade dos MBV.

A primeira fase dos MBV terminaria, essencialmente, aqui. Hoje em dia, os seus dois primeiros EPs são largamente esquecidos pelos fãs e a banda não tem particular gosto perante estes. No entanto, em retrospetiva, são dois discos relativamente interessantes de gothic rock – especialmente o primeiro miniálbum – e que talvez fossem muito melhor vistos se não estivessem associados ao nome de My Bloody Valentine. À altura, nenhum destes causou particular impacto e a banda chegou mesmo a ponderar acabar, sendo necessária a ajuda de Joe Foster, futuro co-fundador da Creation Records, a dar um novo fôlego ao grupo.

A era jangley dos Valentines e a saída de David Conway

Com a ajuda de Foster e da sua gravadora, a Kaleidoscope Sound, os MBV lançariam o seu próximo EP no ano de 1986, intitulado de The New Record by My Bloody Valentine. Este EP, e apesar da produção crua (se é que foi sequer produzido) que apresenta, serve um pouco como projeto de transição para o grupo. A estética de goth rock é praticamente abandonada e os MBV passam a apresentar um som mais meloso, influenciado pelo jangle pop do momento juntamente com o noise pop dos Mary Chain e as experiências sónicas dos Wire. Em particular, o que se nota neste EP é que Conway larga muito o registo que tinha apresentado nos dois primeiros EPs do grupo enquanto vocalista, adaptando-se muito melhor aos “novos” MBV. O curta-duração chegaria ao número 22 do UK Indie Charts e colocava os Valentines finalmente no mapa do mundo indie britânico e levaria a que, no início de 1987, o grupo assinasse pela gravadora independente Lazy Records.

My Bloody Valentine - 1986
Os My Bloody Valentine em 1986: David Conway, Kevin Shields, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig. Fotografia: Ken Copsey

O primeiro lançamento pela Lazy Records, o single (e EP) ‘Sunny Sundae Smile’ – o melhor e mais bem produzido música do grupo até este momento, com a sua junção entre melosidade e ruído – seria também o último a incluir David Conway, que abandonaria o grupo para prosseguir outros caminhos artísticos. O que se seguiu ao abandono de Conway foi um processo para decidir o que a banda iria fazer a seguir. Pensaram em terminar atividade, mas os avanços feitos com ‘Sunny Sundae Smile’, tanto em termos de sonoridade como em termos de chart performance (chegou ao #6 no UK Indie Single Chart), fizeram o grupo continuar. Para tal, o grupo necessitava de um novo vocalista.

A primeira tentativa para a banda chegar a um novo cantor não correu particularmente bem, com o processo a revelar-se “desastroso e excruciante“, como contou Shields numa entrevista em 1991. “Foi [um processo] muito perigoso. Cometi o erro de mencionar os The Smiths porque nós gostávamos das melodias deles e toda a coisa se tornou desastrosa e excruciante. Deviam ter visto alguns dos malucos que apanhámos!“, conta o guitarrista, produtor e compositor. Eventualmente, tal como havia acontecido com a junção de Debbie, o grupo ouviu recomendações de amigos músicos, e eventualmente experimentou com dois vocalistas diferentes: Joe Byfield e Bilinda Butcher, com a segunda a ficar com o lugar e a dividir o papel de vocalista com Shields. Com a entrada de Butcher, a próxima fase para os MBV estava prestes a iniciar-se.

As experimentações sónicas e o contracto com a Creation Records

O ano de 1987 foi um ano de consolidação e de transição para os MBV. Com Bilinda agora a bordo, o grupo lançaria dois projetos nesse ano (um pouco por pressão da Lazy Records): o singleStrawberry Wine e o mini-álbum Ecstasy (atingiriam a posição #12 e #13 nos UK Indie Charts, respetivamente). Nestes dois projetos, ouvimos a importância de Bilinda ter sido adicionada ao grupo, dando toda uma nova camada sonhadora com os seus vocais, sendo que nestes dois projetos começamos a ouvir as influências de grupos como Sonic Youth, Dinosaur Jr. ou Hüsker Dü a serem incorporadas na sonoridade dos MBV – em particular em faixas como ‘Clair‘, de Ecstasy.

Em entrevista este ano à Uncut, Colm conta um pouco sobre este processo de transição. “Queríamos fazer algo mais rock. Fomos muito inspirados pela cena americana – Dinosaur Jr, Sonic Youth and Hüsker Dü. Depois o Kevin comprou uma nova guitarra e descobriu o tremolo e o efeito de reverb revertido. Isso deu-lhe um lugar novo para tocar, toda um novo mundo sónico.” O próprio Shields confirma que é por volta de Ecstasy que as experimentações sónicas do grupo começam, e que o mini-álbum podia ter sido mais aventuroso. “O disco podia ter sido muito mais aventuroso. Fizemos coisas bastante extremas com guitarras. Se ouvires Ecstasy com cuidado, consegues ouvi-las. Foi a primeira vez que brincámos com esta ideia de forma a sério no estúdio mas ainda não tínhamos o controlo necessário sobre estes som em disco, e por isso, não saiu tão bem como podia ter saído“.

My Bloody Valentine
A adição de Bilinda Butcher marcou um ponto de viragem para os My Bloody Valentine em termos de sonoridade. Fotografia: Facebook da banda

Com a banda a parecer conseguir finalmente encontrar o seu caminho, em janeiro de 1988, os MBV dariam o próximo salto, quando assinavam pela Creation Records (ex-casa dos Mary Chain, casa à altura dos Primal Scream e futura casa dos Oasis), depois de uma noite em que abriram um concerto para os Biff Bang Pow!, banda que incluía o fundador da gravadora, Alan McGee. McGee, que como muitos outros, olhava para os MBV como “uma cópia rasca dos The Jesus and Mary Chain” – como contava Shields, em entrevista ao Guardian este ano – acabou vastamente impressionado com o concerto da banda, chegando a exclamar que havia encontrado os Hüsker Dü britânicos, como relatado no livro The Creation Records Story: My Magpie Eyes Are Hungry for the Prize. Ainda antes da noite ter terminado, McGee terá convidado o grupo a gravar um single para a Creation, sendo que dessas sessões de gravação, resultariam cinco faixas que constituíram o EP You Made Me Realize.

É com este You Made Me Realize que os My Bloody Valentine dão um salto qualitativo gigante, aproximando a sua sonoridade daquilo que eram muitos dos seus concertos: altamente barulhentos e dissonantes, capazes de colocar quem lá estava num estado total de transe. Peter Kember, membro dos Spacemen 3, um dos grupos mais influentes para o surgimento do shoegaze, género que ficaria para sempre associado aos Valentines, contava numa reportagem de 2017 da Uncut, sobre a sua experiência a ver os MBV ao vivo pela altura do lançamento de You Made Me Realize. “Eles tinham-se transformado. Não sabia muito bem o que tinha acontecido, mas às vezes as bandas sofrem mudanças drásticas como esta”, conta o artista conhecido como Sonic Boom.

Apesar de todo este curta-duração ser completamente diferente de tudo o que os MBV fizeram antes, é a canção título do EP, em particular, que se distingue. O seu ruído ensurdecedor, influenciado por bandas como Sonic Youth ou Dinosaur Jr, era combinado com a melancolia do jangle pop para uma faixa de total dissonância. Ao vivo, a passagem de noise da faixa poderia estender-se até 45 minutos de duração, para uma experiência verdadeiramente extra-corporal. O barulho era tanto que poderia provocar danos estruturais aos edifícios onde se localizavam as salas de espetáculos. You Made Me Realize significou também o ponto de viragem dos MBV com a crítica, passando a ser vistos finalmente como uma das bandas mais promissoras do meio alternativo britânico. O público também ficou satisfeito, com You Made Me Realize a chegar ao #2 no UK Indie Chart.

Muitas das técnicas de guitarra e produção que Shields usaria para expandir a sonoridade do grupo surgem pela primeira vez bem construídas em You Made Me Realize, incluindo a técnica de glide guitar – que se faz ouvir em ‘Sleep’, faixa deste EP, pela primeira vez -, uma técnica que envolve tocar os acordes enquanto simultaneamente se sobe e desce (varia) o tom com o tremolo, e que Shields ajudou a popularizar no seio do rock alternativo britânico, principalmente pelas bandas conotadas com o termo de shoegaze. Sobre a forma como tocava guitarra, Shields conta no livro sobre Loveless, de 2007, escrito por Mike McGonial.  “Queria ser como o Johnny Ramone, muito bom apenas numa coisa. Eu nunca fui habilidoso [com o instrumento], e porque nunca aprendi a tocar uma escala ou algo parecido, mas como queria soar expressivo, acabei a usar o tremolo arm, que me deu algo com o qual trabalhar durante muito tempo”.

Ainda antes do final do ano, o grupo teria mais dois lançamentos, o EP Feed Me With Your Kiss, cuja sonoridade serve de ponte entre You Made Me Realize e esse segundo lançamento, o seu primeiro longa-duração, Isn’t Anything. Gravado no País de Gales e lançado em novembro de 1988, Isn’t Anything é um excelente disco, um verdadeiro marco para o género do shoegaze e o culminar do trabalho desenvolvido nos últimos EPs do grupo – Faixas como a sonhadora ‘Lose My Breath’,  a energética ‘(When You Wake) You’re Still In A Dream’ e ‘Feed Me With Your Kiss’ ou a dissonante ‘Several Girls Galore’ são essenciais para o género. A atmosfera das faixas de Isn’t Anthing é sonhadora – mesmo nas mais punk, como a faixa de abertura, ‘Soft As Snow (But Warm Inside)’ – com cada instrumental a ter a capacidade de aceder ao nosso consciente através dos vocais “sonolentos” (da melhor forma) de Bilinda e Shields e das guitarras expandidas de cada faixa, com influência forte de bandas como Wire, Cocteau Twins, Jesus e Mary Chain e A.R. Kane a fazer-se notar. O álbum foi um sucesso com a crítica e com o público alternativo, chegando ao #1 no UK Indie Chart. O  melhor (e o pior), no entanto, ainda estava para vir.

O processo tenebroso de gravação do sucessor de Isn’t Anything e a contínua experimentação do grupo

Quatro meses depois de lançarem Isn’t Anything, os My Bloody Valentine regressaram ao estúdio para iniciar o processo de composição do seu próximo disco, principalmente, por pressão da Creation, que pretendia capitalizar com o sucesso da banda. “Nós fomos para o estúdio e eles [McGee e Dick Green] achavam que íamos fazer outro disco em cinco dias. Quando ficou claro que não o íamos fazer, eles entraram em pânico.” Ao invés, o processo de gravação do sucessor de Isn’t Anything extendeu-se ao longo de 2 anos, por uma quantidade francamente parva de estúdios (bem mais de duas dúzias) e engenheiros de som (18) que, de acordo com Shields, foram todos listados nos créditos do álbum mesmo que só tivessem apenas “feito chá” no estúdio (aparentemente, desses, só Alan Moulder e Anjali Dutt tiveram um papel preponderante na gravação daquilo que viria a ser Loveless).

No total, cerca de 140 mil libras foram gastas no processo de gravação de Loveless segundo Shields – apesar dos rumores (e com MBV, há muitos desses) que teria atingido 250 mil (ou para outros, 500 mil) e que teria levado a Creation à falência. A história real dita, no entanto, que os problemas financeiros da Creation já haviam começado bem antes da gravação de Loveless, com o próprio McGee a explicar, numa entrevista em 2010 ao Guardian, que a gravadora “não tinha feito um centavo em dez anos” e que em 1992, quando foi vendida à Sony, “devia mais de um milhão de libras”.

Kevin Shields
Kevin Shields foi a mente principal por trás de Loveless, assumindo controlo total da visão do que seria o disco. Fotografia: Linda Nylind/The Guardian

A própria criação de Loveless atingiu um estatuto quase mítico para os fãs de rock alternativo, com os rumores de que Shields havia-se isolado no estúdio, colocando cuidadosamente cada camada das faixas do álbum como um génio obcecado até ao pequeno detalhe para criar a sua visão. Apesar da realidade não estar assim tão distante da mitologia, o “atraso” do disco vai além do processo criativo duradouro de Shields, que de facto assumiu controlo criativo total do disco e terá tocado e composto todas as faixas exceto ‘Touched’, composta por Colm. Sobre isso, Debbie conta que todo o processo “foi estranho”, porque “eu tinha de fazer muito pouco e esperar muito tempo para o fazer ”, em referência a Shields criar o álbum praticamente sozinho.

As razões principais que Shields atribui ao atraso são, essencialmente, duas. Primeiramente, o facto de a banda saltar de estúdio em estúdio barato devido à falta de fundos da gravadora para “lhes dar dinheiro para nos organizarmos ou comprar o equipamento que precisávamos”. A segunda é que a banda passou grande parte de 1990 numa tour de promoção em torno do EP Glider, que havia sido lançado durante o ano, fruto de um acordo existente entre McGee e Shields. “Um facto interessante é que nós só estivemos no estúdio um total de um ano e dez meses [a trabalhar em Loveless] e nesse período, estivemos seis meses fora do estúdio a promover o EP Glider. Só estivemos no estúdio mesmo um ano e quatro meses”, conta o artista numa entrevista de 2007 à Magnet Magazine. Butcher e Shields, depois de anos e anos a tocarem música ao vivo com decibéis elevados, acabaram a desenvolver casos de zumbido nos ouvidos (tinnitus), e isto terá também atrasado todo o processo algumas semanas enquanto recuperavam da lesão.

Glider, curta-duração lançado em abril de 1990, foi o primeiro relance da nova sonoridade dos My Bloody Valentine, com a faixa ‘Soon‘ (que viria a ser a última faixa de Loveless) e a faixa que dá título ao EP a serem os principais destaques. Estas revelam o ênfase que Shields viria a dar à técnica de glide guitar ao longo de toda a duração de Loveless, usando-a para a criação de uma sensação esmagadora de ambiência sonhadora, criada através das múltiplas camadas das faixas, obtidas pela junção de inúmeras samples à instrumentação base de cada uma. “Para nós o sampler tinha grande valor, porque em vez de apenas termos a opção de tocar sons num teclado, podíamos fazer coisas como samplar o nosso próprio feedback de guitarra e alterá-lo com pequenas adições. Deixar a parte orgânica da gravação fazer parte do ritmo da sample. Passámos muito tempo da gravação do disco a fazer esse tipo de experiências”, conta Shields a Mike McGonial. As contínuas experiências destas dinâmicas seriam ainda mais reveladas num segundo EP, Tremolo (que também continha uma faixa de Loveless, ‘To Here Knows When’,) lançado em fevereiro de 1991. Nove meses mais tarde, Loveless seria lançado ao mundo.

A genialidade da beleza ruidosa de Loveless

1991 é um ano importantíssimo na história do rock alternativo, com a sua imiscuição no mainstream via a explosão dos Nirvana e do grunge. Um ano com muitos discos fabulosos, como Nevermind, Badmotorfinger ou Screamedelica, Loveless faz parte também dessa lista (sendo que há caso para dizer que é, de facto, o melhor destes). Gravado praticamente todo em mono, Loveless é o pico da visão delineada por Shields para o grupo e demora menos de um segundo a captar a nossa atenção e envolver-nos no seu mundo sonoro. A faixa de abertura, a épica e estridente ‘Only Shallow’, abre com um drum fill que rapidamente explode numa parede de som de guitarras – o hook da faixa – levando-nos a questionar, numa primeira audição “o que raio é isto?”.

Loveless
A capa de Loveless já invoca uma espécie de sonho distante.

É um sentimento válido, na boa verdade, mas à medida que nos deixamos envolver com cada faixa de Loveless, simplesmente aprendemos a aceitar a sonoridade sonhadora e as texturas dissonantes do disco, criadas pela manipulação de guitarras levada a cabo por Shields. Somos cobertos por elas, especialmente em faixas como a catarse distante de ‘Come in Alone’, a dissonância de ‘Sometimes’ ou o quase baggie desorientante de ‘Soon’, talvez a faixa mais “feliz” do disco. As influências do grupo estão todas lá em Loveless – as experimentações sónicas de Wire ou A.R. Kane, as atmosferas dos The Cure e Cocteau Twins, o ruído do noise pop dos Mary Chain, o sampling do hip hop dos Public Enemy ou Beastie Boys. Estão é completamente distorcidas para criar algo novo.

A disrupção levada a cabo pelo grupo, e principalmente por Shields, é particularmente notável nas canções mais “pop” do disco, onde as paredes de guitarra são atiradas como arma de hook. A já referida ‘Only Shallow’ é um exemplo disso, mas também ‘When You Sleep’ – a canção com estrutura mais “normal” do álbum – e ‘What You Want’ obedecem a esta fórmula. O hook não é nenhum vocal, mas sim as experimentações de Shields com o instrumento, numa espécie de jogo onde a dinâmica quiet-loud dos Pixies se transforma numa dinâmica de sonho e dissonância. A movimentação entre estas faixas e as mais experimentais mantêm-nos sempre prontos a levar com mais uma camada de reverb, tornando o disco numa verdadeira experiência sonora consistente, onde mesmo a “pior” faixa (‘Blown a Wish’) serve de extensão a toda a ambiência de Loveless – uma espécie de sonho distante em que se anseia por algo que nunca vai chegar.

A reinvenção da guitarra de Shields, os vocais sonolentos, sonhadores e andróginos deste e de Butcher, que mal se percebe o que se está a cantar – de acordo com o líder do grupo, cerca de “30 a 50% das adivinhas feitas com as líricas online estão erradas” (o grupo nunca revelou oficialmente as líricas das suas faixas) – a bateria distante e constante, tudo isto serve para alimentar a experiência auditiva que é Loveless.  A primeira vez que uma pessoa ouve este disco é irrepetível – é um jogo constante entre não entender o que está a acontecer e simplesmente deixar-se afogar na sua atmosfera. Os Valentines também acabariam a afogar-se em Loveless, mas não da melhor forma.

A implosão da banda e a espera interminável por novo material

Durante todo o longo processo de gravação de Loveless, as tensões entre Kevin Shields e Alan McGee aumentaram de forma constante. Em 2004, ao Guardian, McGee explicava que “[O processo de gravação de] Loveless foi um factor no meu colapso pessoal“, muito em parte pelo comportamento passivo-agressivo de Shields durante todo o processo, que o próprio admite na mesma entrevista: “Fui eu quem causou mais danos emocionais“. O resultado do aumento das tensões foi a Creation ter largado os My Bloody Valentine pouco depois do lançamento de Loveless, com McGee a referir: “Era ele [Kevin] ou eu”. Shields conta que, na manhã a seguir a McGee ter-lhe informado que “iriam seguir caminhos diferentes”, a banda já tinha 11 ofertas diferentes de grandes gravadoras, assinando eventualmente pela Island Records.

Com o dinheiro do seu novo contracto, a banda prosseguiu a construir um estúdio no sul de Londres, mas eventualmente as coisas descarrilaram. Problemas técnicos com equipamento e problemas financeiros para a banda colocaram pressões adicionais no grupo que, nos próximos cinco anos a seguir a Loveless, lançariam apenas duas covers: uma da faixa de Louis Armstrong,  ‘We Have All the Time in the World’, para a compilação Peace Together, e uma de ‘Map Ref. 41°N 93°W’, para um disco tributo aos Wire, que tanto influenciou o trabalho dos Valentines.

Apesar de inicialmente a gravadora ter resolvido os problemas financeiros da banda – durante vários anos, a banda recebeu um salário chorudo para apresentar novo material – eventualmente, em 1995, Debbie e Colm “abandonaram” o grupo para se juntarem aos Clear Spot e formar os Snowpony, respetivamente. Butcher e Shields continuaram a gravar, mas em 1997 também a guitarrista e vocalista abandonava o barco. Sozinho e incapaz de apresentar um terceiro álbum, Shields perdeu-se. Tornou-se um recluso durante um ano e ficaria anos sem lançar material original, ficando-se por colaborador e produtor de vários projetos.  “Perdi-me. Perdi o que tinha e pensei: não vou lançar um disco de porcaria.”, contava o artista ao Guardian em 2004.

Shields regressaria a composições originais para a longa metragem Lost in Translation, de Sofia Coppola, em colaboração com Brian Reitzell (à altura, baterista ao vivo dos Air). Por esta altura, já os MBV estavam em hiato total e, depois de vários anos sem apresentarem material novo (apesar de, tanto de acordo com Butcher como Shields, haver pelo menos um disco inteiro semi-terminado), a Island Records abandonou o grupo totalmente em 2002. Seriam preciso mais seis anos para os MBV se voltarem a reunir para um concerto e mais cinco para que novo material do grupo finalmente visse a luz do dia, com o seu terceiro longa-duração, m b v.

m b v acaba por conferir o desejo que Shields pretendia – não lançar um disco inferior a Loveless. É a continuação da exploração das texturas como via para criar sonoridades, soando a uma extensão de muitas das ideias de Loveless, mas focando-se mais na criação de ambiência pura. É um disco de total dissonância e transcendência, onde se nota uma crescente influência de música eletrónica, recheado de complexidades e detalhes para uma experiência auditiva que só os Valentines conseguem entregar. É o último lançamento da banda até ao momento.

A espera interminável por novo material, parte dois, e o legado mítico de Loveless

Desde que m b v foi lançado que Shields apresenta uma cassete riscada sobre possível novo material dos My Bloody Valentine. As constantes promessas de nova música “no próximo ano” prosseguem e, até agora, não foram cumpridas. No dia 31 de maio deste ano, para a ocasião dos 30 anos de Loveless, a banda anunciou que havia assinado com a gravadora Domino Recording Company e disponibilizou toda a sua discografia pós-1988 (desde do EP You Made Me Realize) nas plataformas de streaming pela primeira vez e uma nova fornada de CDs e LPs da discografia do grupo. A promessa de nova música ficou, outra vez, na mesa – um duplo álbum, prometeu Shields. Acreditar em Kevin, isso, já é com cada um. Na verdade, os MBV não precisam de lançar mais nada – o estatuto, enquanto a sua influência se sentir, está garantido. Como Shields indica: “Não sinto que precisa de fazer uma grande declaração apenas de uma vez. Posso, eventualmente, só ir colocando coisas cá fora“.

O estatuto cria-se, mas o mito dos MBV continua vivo no mundo do rock alternativo e além. 30 anos depois, Loveless continua a ser um marco para o rock alternativo, o pico máximo de um género cujo nome é literalmente pessoas a olhar para os seus sapatos enquanto brincam com os efeitos das suas guitarras. Bandas como Ride ou Slowdive, Failure ou Hum, The Smashing Pumpkins ou Mogwai, Deftones ou Deafheaven, são bandas que, contemporâneas ou não, foram diretamente influenciadas pelas experimentações sónicas dos Valentines. Isto são apenas exemplos: a lista completa seria quase infinita com toda a certeza. E na boa verdade, nenhum outro álbum soa como Loveless, nem nenhuma outra banda soa como My Bloody Valentine. Quando finalmente somos libertados das texturas do disco, no final do seus 48 minutos, a realidade a que regressamos é, de facto, essa.