Glória
Fotografia: Paulo Goulart/Netflix/Divulgação

‘Glória’. Sabe tudo sobre a primeira série portuguesa da Netflix

A primeira série no catálogo da Netflix totalmente pensada e produzida em Portugal estreia esta sexta-feira

Glória é o assunto do momento em Portugal. Não é para menos: falamos da primeira produção da Netflix totalmente feita em Portugal, que se estreia esta sexta-feira (5). Contamos-te algumas curiosidades que podes ainda não saber.

Projeto estava na gaveta há mais de dez anos

O primeiro pensamento é porquê contar agora uma história baseada em factos ocorridos no final da década de 60 em Portugal.

Pedro Lopes, autor e argumentista da série, explicou em entrevista ao jornal Expresso que “a história esteve tantos anos fechada no meu caderno que só fazia sentido pegar nela quando houvesse condições de poder fazê-la bem. Este interesse da Netflix, conjugado com os restantes parceiros, permitiu ter aqui um projeto com uma dimensão que não é normal na indústria”,  algo com um “orçamento diferente”.

Mas a história já tinha a pesquisa “muito avançada” e já tinha “ido ao apoio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), tínhamos ganhado e estava tudo em andamento, mas a partir daí foi completamente redesenhado”, conta na mesma entrevista. “Em janeiro de 2019, e já com avanços significativos no projeto” numa reunião “com a Netflix em Miami” surgiu a “luz verde para avançar”. O único aviso do gigante do streaming era que a série não podia ser “parecida com nada”.

Tempo e dinheiro diferenciam esta produção nacional

O apoio da Netflix permitiu um orçamento pouco comum em produções no nosso país. Traduzindo o investimento, Pedro Lopes fala de “um trabalho de escrita de 12 meses para 10 episódios, mais seis meses num processo de reescrita. Depois tivemos quatro meses de filmagens. O tempo que há para o desenvolvimento de um projeto destes é incomparável”.

Para além do tempo, houve ainda o apoio de Juan Mayne e Alice Molinari, da Netflix, que apoiaram e não transformaram o projeto em “algo diferente do que o seu criador tinha pensado”. Este feedback ajudou toda a equipa a “chegar ao sítio certo”, confirma o argumentista que contou também com o realizador Tiago Guedes “na altura de fechar melhor os episódios”.

Glória
Fotografia: Netflix/Divulgação

O processo de construção

Glória foi pensada, criada e produzida totalmente em Portugal, com o fôlego de um investimento estrangeiro. Os números oficiais, disponibilizados pela SPi indicam mais de 150 atores (60 não-figurantes), mais de 130 pessoas na equipa no set, filmagens em vários pontos do país e cerca de 20 empresas envolvidas no projecto.

Para além destes, há a destacar a importância do trabalho de pesquisa e dos consultores históricos a trabalhar directamente com a equipa criativa. Na mesma entrevista, Pedro Lopes informa que “ainda foi possível fazer uma recolha oral junto das pessoas que trabalharam na RARET. Falar com quem conheceu aquela verdadeira cidade nos seus tempos áureos”.

As cenas foram gravadas em casas da RARET, o centro transmissor controlado pelos EUA. Estas casas são as originais e foram recuperadas. Nada foi gravado em estúdio. A RAdio RETransmissão era uma espécie de pedaço americano no Ribatejo, numa herdade com cerca de 200 hectares de onde eram enviadas as mensagens ocidentais e pró-democracia liberal para os países para lá da Cortina de Ferro.

As escolhas de Pedro Lopes

Glória
‘Glória’ é a primeira série portuguesa original da Netflix. | Fotografia: Netflix/Divulgação

Para Pedro Lopes, a escolha de Tiago Guedes para realizar o projeto foi à partida “óbvia”, pelo percurso do realizador em filmes como Coisa Ruim e A Herdade. O criador espera que este seja apenas um ponto de partida, “uma porta para outras séries portuguesas na Netflix e que esse talento possa agora voar e que o mercado profissional se possa alargar e ser mais global”.

A escolha do protagonista foi também muito intuitiva. João Vidal é um engenheiro de famílias ligadas ao Estado Novo, recrutado pelo KGB para assumir missões de espionagem. Pedro Lopes entregou a Tiago Guedes “um personagem em desequilíbrio”. Em declarações ao jornal Público, o realizador explica que a escolha de Miguel Nunes foi “fácil”, pois havia a premissa de que “fosse um homem empático”.

João Vidal é o ponto de partida de toda a série e de grande parte da promoção efectuada até agora. Assim, trata-se de uma “série character driven, centrada num engenheiro eletrotécnico nascido no seio de uma família burguesa — educação católica baseada nos valores do regime de Salazar, estudos concluídos, serviço militar cumprido em Angola — cuja vida muda na antiga colónia portuguesa”.

O elenco fica completo com Victoria Guerra, Carolina Amaral, Afonso Pimentel, Adriano Luz, Joana Ribeiro, Albano Jerónimo, Marcelo Urgeghe, Sandra Faleiro, Carloto Cotta, Maria João Pinho, Inês Castel-Branco, Rafael Morais, Leonor Silveira, Matt Rippy, Stephanie Vogt, Jimmy Taenaka, Ana Neborac e Augusto Madeira.

Os personagens não são reais, mas a história sim

Se já te perguntaste se os personagens de Glória são reais, temos que te dizer que não. “João Vidal não existiu e Mia, a telegrafista russa e agente do KGB desaparecida das instalações da rádio, também é fruto da imaginação de Pedro Lopes —, mas o enquadramento histórico é real e faz parte da memória de quem lidou de perto com uma realidade portuguesa da Guerra Fria, entretanto esquecida (ou nunca conhecida) por muitos”.

O que se passava em Portugal na segunda metade da década de 60

Elementos da equipa do Espalha-Factos já viram a série e comprovaram que “as narrativas fora da narrativa principal mostram-nos o que vivia Portugal na altura”.

No final da década de 60, Portugal vivia refém de uma ditadura e a emigração atingia números alarmantes, causando a desertificação das regiões mais carenciadas do país, onde a emigração chegava a números ainda mais elevados. A fuga à Guerra Colonial era um dos principais fatores desta emigração, contexto que assume também um papel essencial nesta narrativa.

Este êxodo teve um impacto direto no envelhecimento da população, sobretudo nas regiões do interior, que até hoje Portugal ainda não soube resolver. Glória do Ribatejo é um exemplo disso, considerada a vila mais ribatejana de Portugal, é hoje habitada por cerca 3224 pessoas e podemos arriscar que metade deles nem saberá sequer a importância de ter a história da sua terra espelhada no maior servidor de streaming a nível mundial.

Os membros da equipa que já a viram contam sem spoilers que estamos perante uma “série muito tensa” em que “o suspense nunca para e está sempre a aumentar”.

Em declarações à agência Lusa, o criador da série afirmou recentemente que acredita que a presença no “líder no streaming com mais de 293 milhões de subscritores e presente em mais de 190 países, possa trazer visibilidade a Portugal e à nossa indústria”.