Fotografia: Amanda Matlovich/Netflix/Divulgação

Crítica. ‘Locke & Key’ é a Narnia dos tempos modernos

A segunda temporada da Netflix regressa num tom mais negro e denso, mas com um ritmo inconstante.

A segunda temporada de Locke & Key, estreou na sexta-feira, dia 22 de outubro, na Netflix. A continuação da história da família Locke regressa com novas aventuras recheadas de magia, amor, segredos e muitas traições.

Para relembrar os espectadores da primeira temporada, ou para informar quem ainda não conhece aquela que é uma das narrativas com mais potencial da Netflix, Locke & Key é inspirada numa série de livros de banda desenhada escritos por Joe Hill e ilustrados por Gabriel Rodriguez. A série acompanha os irmãos Bode (Jackson Robert Scott), Kinsey (Emilia Jones) e Tyler Locke (Connor Jessup), quando se mudam, juntamente com a mãe, Nina (Darby Stanchfield), para Mattheson, depois de o pai (Rendell Locke) ser assassinado.

Depois de regressarem à casa de infância de Rendell (Bill Heck), uma mansão antiga conhecida como Keyhouse, os Locke descobrem várias chaves mágicas. Cada uma delas contém habilidades específicas que acabam por colocar os três irmãos no caminho de Dodge (Laysla de Oliveira), um perigoso demónio que cobiça o poder das chaves.

*O texto que se segue contém spoilers da segunda temporada de Locke & Key*

No final da primeira temporada, descobrimos que nem tudo está bem quando acaba bem – literalmente! Isto porque, quando tudo indicava que Kinsey e Tyler tinham derrotado Dodge ao atirá-la para a Black Door, a vilã revela que esteve sempre um passo à frente dos protagonistas, mesmo que eles ainda não o soubessem.

A ação da segunda parte começa três meses após a aparente derrota de Dodge. Os primeiros episódios mostram os irmãos mais familiarizados com as chaves, que usam para facilitar o seu quotidiano, agora muito mais relaxado, uma vez que não têm um demónio com que se preocupar. Ou assim pensam, visto que Dodge vive na pele de Gabe (Griffin Gluck), que se torna namorado de Kinsey.

Locke & Key
Fotografia: Amanda Matlovich/Netflix/Divulgação

A primeira metade da temporada foca-se diretamente no desenvolvimento dos protagonistas e das personagens secundárias. Mas poderá este interesse pelas sub-narrativas ser a grande maldição deste novo capítulo de Locke & Key? Dividamos a resposta por chaves – criadas por mim.

A Chave do Amor

Como não poderia deixar de ser, série da Netflix não é série da Netflix sem um triângulo amoroso adolescente. Nesta trama, o coração de Kinsey oscila entre o atual namorado, Gabe, que é também nada mais, nada menos do que Dodge disfarçada, e Scott (Petrice Jones), um dos seus melhores amigos.

É de destacar o crescimento a nível emocional de Kinsey, que havia usado uma das chaves para eliminar o seu medo nos episódios anteriores e que agora o aceita como parte de si. Este processo de autoaceitação permite que o público sinta uma empatia maior pelo personagem, que era até então uma protagonista algo rude, egoísta e com tendência para cometer erros graves.

Também Nina vê uma oportunidade para seguir com a vida em frente. À medida que vamos conhecendo Josh (Brendan Hines), o novo interesse amoroso da rapariga, receamos que as intenções dele não sejam as mais puras. A busca incessante e algo paranoica do rapaz por mais informação sobre as lendas que envolvem a Keyhouse e a família Locke, juntamente com a relação que cria com Nina, tornam-no numa misteriosa adição à história. Contudo, as verdadeiras motivações de Josh são reveladas no final e não excedem de todo as expectativas que criámos ao longo dos episódios.

Locke & Key
Fotografia: Amanda Matlovich/Netflix/Divulgação

Tyler, o irmão mais velho de Kinsey e Bode, tem grande parte do seu desenvolvimento ligado à namorada, Jackie (Genevieve Kang), e ao facto de ambos partilharem um destino semelhante: serem maiores de idade em breve. Isto fará com que o casal esqueça tudo aquilo que esteja relacionado com a magia das chaves, uma vez que os adultos (com algumas exceções) não são capazes de se lembrar delas.

Talvez se lembrem do que aconteceu com Peter e Susan em As Crónicas de Nárnia? A inspiração neste clássico parece quase óbvia, dado que as situações são muito semelhantes. Embora seja um arco narrativo bonito de acompanhar, acaba por tornar Tyler num protagonista pouco protagonista, passe a redundância. De facto, não existem muitos momentos dedicados ao irmão mais velho que não sejam também relacionados com Jackie, o que obscurece a sua riqueza enquanto uma das personagens mais importantes da trama.

A Chave da Memória

O passado é um dos componentes mais importantes de toda a estrutura narrativa de Locke & Key. Seja através de flashbacks ou de relatos das próprias personagens, a trama está repleta de mistérios sobre a origem das chaves mágicas e sobre a história dos Locke.

Locke & Key
Fotografia: Amanda Matlovich/Netflix/Divulgação

A segunda temporada traz à ribalta duas personagens que na primeira temporada prometiam ser das mais complexas: Duncan (Aaron Ashmore), irmão de Rendell, e Erin (Joy Tanner), amiga e primeiro interesse amoroso do patriarca da família Locke. Ambos servem como forma de interligar de maneira exímia as duas gerações presentes nos eventos da série, permitindo ao público conhecer mais sobre o passado da família, sobre os riscos que as chaves trazem consigo e que perigos podem estar à espreita.

A Chave do Mal

Esta é a chave essencial para o sucesso de qualquer história de fantasia. Dificilmente se fazem bons protagonistas sem bons vilões – e em Locke & Key a premissa não é diferente.

Dodge, interpretada por Laysla de Oliveira, foi um dos grandes destaques da primeira temporada. Infelizmente, a atriz de ascendência brasileira não teve o merecido destaque nesta nova parte, visto que a personagem que interpreta esteve sob o disfarce de Gabe, com o intuito de se aproximar de Kinsey e, consequentemente, das chaves. Apesar de Gluck se ter demonstrado bastante carismático como Dodge/Gabe, é quase impossível esquecer que é apenas um adolescente, o que automaticamente retira parte da imponência que a personagem tinha quando interpretada por Laysla. Já para não falar que querer reunir todas as chaves para criar o próprio exército é uma motivação demasiado genérica para uma vilã com tanto potencial como Dodge.

Locke & Key
Fotografia: Amanda Matlovich/Netflix/Divulgação

Talvez tenha sido por essas mesmas razões que colocaram Eden (Hallea Jones) como parceira de Gabe. A personagem consegue dosear de forma magnífica a sua maldade, loucura e humor e ainda causar alguma empatia à la Harley Quinn pela forma rude como é tratada por Gabe.

 A Chave da Ganância

A segunda temporada de Locke & Key peca por tentar meter o Rossio na Rua da Betesga. Com isto, não quero dizer que a trama não tenha arcos narrativos bem explorados e desenvolvidos. Quero, no entanto, dizer que são demasiados para tão poucos episódios, o que resultou numa segunda metade da temporada com um ritmo excessivamente frenético, intenso e, por vezes, desapontante. So much to tell, so little time.

Tendo como inspirações óbvias obras literárias e cinematográficas bem conhecidas, como Harry Potter e As Crónicas de Nárnia, a produção consegue, no entanto, prender facilmente o espectador ao ecrã, entretém e cumpre a missão a que todo e qualquer filme ou série de fantasia de propõe: ser imersivo.

Fotografia: Amanda Matlovich/Netflix/Divulgação

A segunda parte de Locke & Key prima pela complexidade e criatividade que traz aos arcos das personagens, pecando apenas por não ter tempo de os desenvolver a todos de maneira mais pormenorizada. Depois de um final algo anti-climático, a temporada deixa pontas soltas por resolver e culmina com a chegada de um novo vilão. Ainda assim, a cativante história dos Locke, os efeitos especiais melhorados – com destaque para os manequins endiabrados da mente de Eden – e as atuações de excelência por parte do elenco – grandes elogios a Jackson Robert Scott -, fazem desta uma das séries juvenis com mais potencial na Netflix.

Tendo em conta que as gravações para a terceira temporada terminaram em setembro, resta a esperança de que não teremos que esperar muito até descobrir onde nos vão levar as próximas aventuras da família Locke. Até lá, “Aloha!”.

7.5