Eunice ou carta a uma jovem atriz
Fotografia: Doclisboa/Divulgação

Doclisboa fecha 19.ª edição com homenagem a Eunice Muñoz

A sessão dedicada à atriz contou com a projeção de 'Brincadeiras de Gente Crescida' e 'Eunice ou carta a uma jovem atriz'.

A última tarde da 19.ª edição do Doclisboa decorreu este domingo (31) e teve uma sessão especial dedicada à atriz Eunice Muñoz. Em exibição na sala Manoel Oliveira do Cinema São Jorge estiveram o programa da RTP Brincadeiras de Gente Crescida, exibido originalmente em 1962, e o documentário Eunice ou carta a uma jovem atriz, de Tiago Durão.

A abrir a sessão esteve Nuno Costa Moura, diretor do Museu Nacional do Teatro e da Dança, que resumiu o percurso profissional da artista e leu a “carta a uma jovem atriz”, escrita em 1956 por importantes elementos da cultura portuguesa, tais como Jorge Sena, Almada Negreiros, António Sérgio e Sophia de Mello Breyner Andersen. A carta define aquela que “em cena vive profundamente a poesia” com uma “rara alma de artista”.

Nuno Costa Moura sublinha que falar sobre Eunice é falar sobre grande parte da história do espetáculo em Portugal nos últimos 80 anos. É falar de alguém que viveu com “aversão à estagnação criativa”, realça.

Na primeira parte da sessão, foi exibido o primeiro episódio da série da RTP Cenas da Vida de uma Atriz, escrito por Costa Ferreira, com Eunice Muñoz em destaque na sessão. Aqui interpretava Gabriela Vilar, uma estrela do teatro nacional. O episódio está disponível na página RTP Arquivos.

O encontro do teatro com o cinema em ‘Eunice ou carta a uma jovem atriz’

Tiago Durão, realizador do projeto, esteve presente mais uma vez no Cinema São Jorge e revisitou as palavras que disse na mesma sala, na antestreia do filme a 3 de outubro. Os minutos que, “53 anos depois” retratam o lado íntimo de um dos maiores vultos do teatro português e servem também para passar o testemunho à neta Lídia Muñoz, para “ver continuado o sonho do teatro”, foram inspirados no filme de João César Monteiro, dedicado a Sophia de Mello Breyner Andresen em 1969.

A ligação ao teatro está presente durante todo o filme. São várias as imagens daquela que é também casa para Eunice, intercaladas entre imagens quotidianas do lar com a neta Lídia. É aqui que somos convidados a entrar, para com as duas revisitar memórias e imagens de 80 anos dedicados à profissão que não se separa em nenhum momento da mulher, mãe e avó. Juntas “abrem-nos as portas à sua intimidade e aos seus rituais domésticos, convictas de que o teatro é mais real do que a vida”, revela Tiago Durão.

As vozes de Luís Miguel Cintra, Ruy de Carvalho e José Raposo guiam-nos num casamento com várias artes em simultâneo. Aqui falamos de teatro, cinema, poesia e até de música, com as composições de Maria João Pires.

Eunice Muñoz Doclisboa
Fotografia: Doclisboa/Divulgação

Eunice e Lídia Muñoz, a serem elas próprias, iniciam e terminam a longa-metragem com idas à janela, onde contemplam o quotidiano e a beleza das pequenas coisas, tão importante quando percorremos as nossas memórias. Percebemos que, mais do que pesar no passado, o tempo é de passar o testemunho e deixar um legado aqui, com a voz e o corpo da neta.

Esse testemunho vai continuar para lá deste filme e com a peça À Margem do Tempo, que irá marcar o fim da carreira de 80 anos de Eunice Muñoz, na digressão de 2022. O projeto é também parte integrante de Eunice ou carta a uma jovem atriz em alguns momentos, em que vemos as artistas a estudar a personagem que partilham em palco, a senhora Rasch, em mais um final de tarde de um dia normal e igual aos anteriores.

Este filme é acima de tudo uma passagem de testemunho, onde avó e neta se completam e onde Eunice percorre o passado a pensar no que há de vir e no legado que irá deixar. Como certeza, temos que a família Muñoz vai perdurar por mais décadas de história. Nos cerca de 40 minutos em que somos também parte desta família, temos como certo que é importante homenagear as figuras maiores da cultura e arte no nosso país enquanto ainda as temos connosco, tal como tivemos Eunice nesta tarde de domingo no Cinema São Jorge.

Para além de Tiago Durão, a produção contou com argumento baseado em textos de Florbela Espanca e António Barahona da Fonseca e a direção de fotografia foi feita com Frederico Velez. O projeto vai estar em mais de 30 salas de cinema em todo o país a partir do dia 4 de novembro,

Eunice ou carta a uma jovem atriz
6.5