Doclisboa percorre os caminhos do Cinema Brasileiro

Produções sobre a Cinemateca Brasileira e o Cinema Marginal Brasileiro foram projetadas nesta que é a 19.ª edição do festival

Um conjunto de curtas-metragens foram enquadradas numa emissão especial do Doclisboa dedicada à Cinemateca Brasileira, apresentada por Sérgio Silva, ex-programador. Na programação deste festival, fez ainda parte O Bom Cinema, documentário sobre a história do surgimento do Cinema Marginal Brasileiro, também conhecido como cinema pós-novo.

Na noite do primeiro sábado de festival (23), o pequeno auditório da Culturgest recebeu uma pequena plateia para contar a história da Cinemateca Brasileira. Sérgio Silva, ex-programador apresentou a sessão de cinco curta-metragens, e deixou claro que “os filmes são menos duros do que o momento que vivemos” e afirma que são “para um presente e um futuro do cinema Brasileiro”. Considera ainda que estas obras são também de suma importância para “alertar o mundo para o que vem acontecendo nos arquivos”. Esse alerta faz todo o sentido uma vez que estamos perante “documentos históricos que retratam a história do cinema brasileiro”.

A primeira curta-metragem, O Guru e Os Guris conta a história de Maurice Legeard (1922-19997), fundador do Clube de Cinema de Santos e assumidamente apaixonado pelo cinema, a partir de imagens de arquivo. No filme ele passeia pela cidade enquanto dá a sua opinião sobre o que distingue o cinema brasileiro do europeu e americano. Para sublinhar a negligência de que é vítima o cinema brasileiro, reflecte que o Clube de Cinema de Santos foi criado no mesmo ano da Cinemateca Francesa, que tem agora já cerca de 4 a 5 mil filmes, enquanto, à data da gravação do filme, o Brasil continuava “de chapéu na mão”.

A curta-metragem foi gravada por Jairo Ferreira em 1973. A Cinemateca de Santos deve grande parte do seu acervo a Maurice Legeard, responsável por fazer chegar à cidade filmografia do Japão, Polónia, França, Rússia, Inglaterra e China, que dificilmente iriam chegar à cidade.

A Voz e o Vazio: a Vez de Vassourinha, de Carlos Adriano, percorre durante dezassete minutos imagens sobre o trajectio de Vassourinha (1923-1942), que faleceu apenas com 19 anos, mas conseguiu deixar um marco de originalidade na música brasileira, no seu percurso de sambista paulistano, apesar de ter sido depois apagado e esquecido pela história da música, sendo estas imagens importantes para não permanecer sempre ao esquecimento.

As mulheres estão representadas neste ciclo especial pelas mãos de Ana Maria Magalhães que retratou as Mulheres de Cinema. O filme pretende focar o momento em que as mulheres começaram a ter lugar no cinema brasileiro, até à situação atual, em que ocupam funções em todos os momentos da produção e comercialização de filmes e telenovelas.

As mulheres em destaque são Carmen Santos, hoje considerada um dos maiores mitos femininos brasileiro e que foi uma das primeiras a produzir e dirigir filmes no país. Há ainda lugar para um rápido percurso pela carreira de Carmen Miranda, a diva que eletrizou o Brasil e o mundo e para Leila Diniz, eternizada pelo papel de Maria Alice, em Todas as Mulheres do Mundo (1966), ao lado de Paulo José. A atriz foi acima de tudo uma defensora do amor livre e do prazer sexual e ficou para sempre lembrada como um símbolo da revolução feminina, ao romper com preconceitos e tabus. Foi casada com Domingos Oliveira e Ruy Guerra, também eles grandes nomes do cinema brasileiro.

Cinemateca Brasileira: da construção às diversas tragédias

Não podia faltar, nesta sessão especial sobre a Cinemateca Brasileira, o documento de Ozualdo R. Candeias de 1993 que fala sobre a transferência para a sede atual, que ficou destruída com o incêndio de julho de 2021. Antes dessa transferência, a cinemateca estava dispersa em vários lugares da cidade de São Paulo.

A Cinemateca estava fechada desde agosto de 2020, devido a um despedimento coletivo. Em julho deste ano, um incêndio destruiu cerca de quatro toneladas de documentos sobre políticas públicas de cinema no Brasil assim como deixou praticamente extinguida a memória das instituições e programas audiovisuais brasileiros“.

O incêndio não foi o primeiro que aconteceu na instituição que possuía40 mil filmes e curtas-metragens além de programas de televisão e filmagens de jogos de futebol que contam a história do audiovisual do Brasil desde 1897.

Este desleixo e o acidente já anunciado, têm sido defendidos por vários cineastas brasileiros como sinal do desprezo pela cultura e pelo cinema desde o início da presidência de Jair Bolsonaro.

A história do Cinema Marginal Brasileiro 

Parte da secção Heart Beat, o filme O Bom Cinema de Eugénio Puppo foca no movimento do Cinema Marginal Brasileiro, também conhecido como Cinema Pós-Novo.

Uma das principais produtoras da época situava-se na zona da Boca do Lixo, centro da cidade de São Paulo. Entre 1920 e 1930 circulava um polo cinematográfico, onde se instalaram empresas como a Paramount e a FOX. Entre os anos 60 e 80, o mesmo polo passou a ser a zona do cinema independente, desvinculada dos incentivos governamentais.

Rapidamente se iniciou um caminho de produções mais comerciais, mais baratas, com liberdade criativa, mas pensadas sobretudo para conquistar público e obter retorno financeiro. Mas o abandono chegou a essa zona, como símbolo do desprezo da cultura no país irmão e, a partir dos anos 90, a área passou a ser uma zona extremamente degradada, de tráfico e consumo de droga, conhecido por Cracolândia.

Numa altura em que a cultura e o cinema brasileiro imploram por apoios, esta série de documentários é importante para perceber o percurso feito até agora e a importância de não deixar morrer uma das áreas com mais qualidade do país. O Doclisboa continua até ao próximo dia 31.