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‘Birday Swamp’. Uma exposição que junta o feminino com a mortalidade e o divino

Birday Swamp é a nova exposição de Lia Von Hel, nome artístico de Lia de Freitas. A mulher é o foco desta apresentação que junta a feminilidade ao sagrado e à mortalidade. A inauguração teve lugar esta sexta-feira (29) e a exposição vai permanecer na Galeria S.T.R.A.N.G.E do Centro Cultural Alternativo, nos Nirvana Studios, durante sábado (30) e domingo (31).

Para além das peças de arte plástica – com as quais os visitantes podem interagir – os três dias serão marcados por atuações de artistas emergentes. Logo no primeiro dia, Vera Mahsati, bailarina de tribal fusion; e Bárbara Calima, ilustradora e tatuadora, marcaram presença. No dia 30, vão existir sessões de tarot com a especialista Filipa Gonçalves, seguido de um concerto às 23h com a banda rock ShiMa. No último dia, a dança toma o palco com Lovely, bailarina de vogue.

Os visitantes podem ver a exposição multissensorial, de entrada gratuita, entre as 11h e a 01h de sábado, e as 16h e as 2h de domingo.

O Espalha-Factos esteve à conversa com Von Hel sobre o processo de criação destas obras, os temas que mais a inspiram para criar e o papel espiritual da mulher na arte.

O teu nome artístico deriva da deusa da morte da mitologia nórdica, guardiã do mundo da obscuridade. Porquê adotar esse nome?

Eu identifico-me muito com o feminino na mitologia, o sagrado feminino. Sempre me senti muito ligada aos nórdicos e aos celtas. Tem sido uma descoberta interna, mas senti que fazia muito sentido com o meu trabalho porque para além de agarrar em lixo, ou seja, materiais mortos, e dar-lhes uma nova vida, a temática que eu trabalho também é muito ligada à morte enquanto processo de criação artístico. Nós, no nosso processo interno e pessoal, temos de deixar que algo morra dentro de nós para que possamos criar algo novo. E isso não tem de ser uma coisa escura e pesada. Podemos encontrar alguma leveza e beleza nesse processo, porque é um processo de criação. A morte acaba por ser potenciador do processo de criação. E daí identificar-me com esta deusa, que visualmente é metade viva, metade morta, ou seja, metade luz, metade sombra. É um bocadinho o que todos temos em nós: um lado escuro que precisa de ser iluminado e um lado mais claro que tem de ser doseado

Como é que te apercebeste que a arte, nomeadamente a arte plástica, era uma forma que tinhas de te expressar?

Fui percebendo ao longo da vida. A arte foi sempre um processo terapêutico. É um momento em que podemos estar connosco próprios, ser o que queremos ser e o que gostávamos de ser, sem medo de julgamento. A criação artística é um processo muito livre e eu acho que a minha procura interna por essa liberdade de expressão ao longo da minha vida fez-me entrar em contacto com a arte e fui descobrindo diferentes técnicas. Ao longo dos anos, fui explorando várias técnicas: primeiro, a fotografia, depois a moda e figurinos e sempre fiz colagens e desenhos. Estou a preparar a Birday Swamp há um ano e meio. Portanto, ao longo de um ano e meio, quis trabalhar suportes fisicamente maiores. Comecei a acumular muito lixo e recebi coisas que as pessoas já não usavam e vi-me obrigada a trabalhar outros formatos. Então, nasceu esta exposição imersiva em que as pessoas podem tocar e entrar em contacto com estas peças.

O nome da exposição, Birday Swamp, para português penso que signifique “pântano dos pássaros”?

“Birday” é um aforismo de “birthday” e “birds“. “Dia do pássaro” e “nascimento”, fiz uma brincadeira. “Swamp”, sim, é um pântano.

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Até a imagem e a ideia dos pássaros remeteu-me para as máscaras que se usaram durante a peste negra. Pensaste nessa associação? Porquê este nome?

Nasceu da peça principal, que foi a que depois deu aso a todo o resto da exposição, que é uma santa resinificada. Eu tenho uma ligação muito forte com imagens religiosas. Esta figura é uma deusa pássaro que dá à luz uma criatura, que é uma criatura metade pássaro, metade mulher, que nasce num pântano. Ou seja, é um pássaro que nasce de um pântano. No fundo, ela, sendo deusa pássaro, tem um bico de pássaro. Calhou que este bico fosse uma máscara da peste negra que eu tinha de uma viagem que eu fiz a Veneza. Ela encaixou na perfeição, estava destinada para estar ali. E porquê nascer do lodo? Porque nascem coisas muito bonitas do sujo, como as flores de lótus, as pérolas e o ouro. As grandes preciosidades precisam que ponhamos as mãos no sujo para as encontrar, quer seja dentro ou fora de nós.

Qual foi o objetivo que te motivou a fazeres esta exposição?

Eu passei a aceitar a morte por estar tanta gente a morrer à nossa volta. Houve muita gente, até pessoas que nos eram queridas, que morreram. Não só literalmente, mas também psicologicamente no sentido em que também cortámos ligação com muita gente. Esta exposição é um ato de amor em que resgato esse contacto físico e emocional com tantas perdas e mortes que tivemos.

A matéria visceral e o caos cósmico do submundo são temáticas já presentes na tua obra. Porquê o enfoque nestes temas ao longo da sua carreira e, em especial, nesta exposição?

Desde há um ano e meio que eu tenho trabalhado estes temas dentro de mim. É também uma experiência de autoconhecimento e de crescimento pessoal. Sinto que agora é o momento de parir este filho (eu chamo às minhas criações “filhos”). Daí essa iminência em mostrar ao mundo esta experiência sensorial, porque estivemos confinados durante muito tempo e a fisicalidade e os afetos foram castigados. [A pandemia] foi um período em que nos vimos obrigados a olhar mais para dentro, logo, usei a minha introspeção para a uma partilha destes momentos que eu espero que toquem às pessoas, que as façam entrar em contacto com uma parte delas que estava às escuras e que, assim, possam iluminá-las quando saem da exposição. Estas coisas só fazem sentido se as partilharmos e eu senti essa iminência. O timing coincidiu com a pandemia. Obviamente que o que está à nossa volta também nos influencia.

Achas que a pandemia te ajudou a criar?

Os condicionalismos que tivemos foram um potenciador. Obrigaram-me a encontrar uma certa liberdade interna, dentro de mim, e essa liberdade foi através da expressão artística. No fundo, veio de tudo aquilo que eu já trabalhava ao longo destes anos. A temática da mulher foi um tema muito presente ao longo da minha vida, mesmo quando eu fiz a minha tese de mestrado e me foquei no significado das cores e os efeitos psicológicos das cores nas heroínas da banda desenhada. Ou seja, eu sempre gostei muito de explorar esta temática feminina de vários ângulos, desde o bonito àquilo que é menos bonito e à criação mais visceral, mas que também faz parte do sagrado que somos nós, as mulheres. Acho que estes condicionalismos todos me obrigaram a olhar para dentro de uma maneira diferente e a criar de uma maneira, também, diferente.

As peças foram construídas com materiais que encontraste na rua. Achas que é importante aliar a arte à sustentabilidade?

Sem dúvida, acho que sim. Não só a arte, mas para todas as formas expressão e de estar. Acho que isso é mesmo importante rentabilizar melhor os recursos que temos no planeta. Não é só reciclar, mas fazer upcycling. Ou seja, não é destruir para criar novo, é dar uma nova vida a uma coisa que estava morta. São dois processos de criação diferentes. Acho que o upcycling é o grande desafio. Felizmente, estou integrada numa comunidade que estimula muito isso. Os Nirvana Studios trabalham muito com o upcylcing e é uma escola fantástica.

Achas que é possível existir beleza no grotesco e harmonia no caos?

Acho que sim, se o encontramos. Às vezes, esse processo é muito desesperante. No fundo, é aceitar. Se nós reconhecermos que ele existe, já estamos a aceitar. Se aceitarmos, não deixamos de achar bizarro, ou não deixamos de sentir dor. Essa dor continua a existir, mas nós aceitamo-la como parte de nós, assim como a escuridão e os medos que temos e, assim, o processo fica mais leve. É isso que tento transmitir na minha arte. É possível encontrarmos sentido de humor e leveza mesmo naquilo que pode ser mais grotesco, visceral e sujo. Apesar de, à primeira vista, a minha arte ser uma coisa pesada e gráfica e visceral, as pessoas conseguem identificar que há um lado divertido que todos nós temos dentro de nós e que é uma criança interna que só temos de resgatar. Não há problema nenhum em nos rirmos de uma coisa que é pesada. Fomos castigados durante muito tempo, ao nos dizerem que, se algo é mau, temos de lidar com tristeza. Mas as pessoas podem sentir tristeza e também se podem rir, não é? Nós vivemos isso e não estamos a retirar valor de uma coisa para a outra. É substituirmos o “isto ou aquilo” pelo “isto e aquilo”. Não tem de só luz ou sombra, os dois podem coexistir.

Faz sentido porque, lá está, existe beleza mesmo nos objetos que não queremos, que achamos que são lixo, e depois acabam por se tornar arte.

Exato. Conseguimos encontrar sempre beleza em alguma coisa. E a beleza não é só visual. Eu tento sempre fazer coisas harmoniosas, porque eu procuro essa harmonia dentro do caos, mas a beleza não tem de ser uma coisa pura e límpida. Nós encontramos beleza para além daquilo que é visual. Há beleza na essência das coisas ou na mensagem que elas trazem.

Tendo em conta que o feminino é o tema central da tua exposição, achas que as mulheres foram apagadas da arte enquanto criadoras e que agora é o momento de, não só se afirmarem enquanto artistas, mas fazerem a sua arte focar-se nas mulheres?

Acho que é um bom manifesto enquanto mulher se a artista sentir essa necessidade, acho que faz todo o sentido. Eu também gosto de ver homens a sacralizarem a figura feminina. Acho que deve existir essa diversidade que permita aos homens trabalharem temáticas femininas e vice-versa, acho que é toda uma riqueza. Eu, enquanto mulher, sinto essa missão, vem comigo, com a guerreira que eu tenho dentro de mim. Sinto que tenho de empoderar esta parte criadora e servir de ímpeto para outras mulheres se expressarem e darem voz à sua liberdade através de todas as formas de expressão. Sem dúvida que fomos castigadas ou apagadas durante muitos anos e acho que está na altura de darmos voz a todas nós.

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A exposição também junta atuações de artistas emergentes, desde a dança à música e mesmo passando pelo tarot. Porquê esta junção de formas de expressão numa única exposição?

Em primeiro lugar, porque acho que arte faz sentido se for transdisciplinar. Criarmos sinergias entre artistas é uma riqueza imensa. Nós, artistas, conseguimos chegar às pessoas de uma forma muito única, chegamos de coração e a entrega é muito grande. Por outro lado, todas estas formas de expressão são potenciadoras umas das outras. Também potenciam os sentidos. Sentirmos o cheiro ou não é diferente. Vermos ou não vermos é diferente. Todos estes sentidos fazem da nossa experiência algo diferente. Eu quis reunir estas artes, precisamente para, de alguma forma, serem um potenciador dos visitantes quando estão em contacto com esta experiência imersiva. A motivá-los a procurarem dentro de si e fora de si experiências sensoriais que lhes permitam viver algo que ainda não viveram. Ter uma experiência que não tiveram.

Por exemplo, a tatuagem existe já há imensos anos, é muito tribal e resgata a nossa essência guerreira, de querermos ter uma marca de algo que vivemos e que queremos levar connosco. O tarot é algo mais místico, a partir do qual procuramos resposta para certas coisas, tentamos encontrar um sentido para determinadas experiências e, portanto, ajuda muito a dar um resinificado àquilo que nós somos e queremos para nós. Não há respostas para tudo nem controlamos tudo. Temos de ter um ato de fé de entregarmos, não só o processo de criação, mas a nossa própria vida – que também é um processo de criação – àquilo que está para lá de nós. Ao que não vemos, que não cheiramos, que não sentimos, mas que percecionamos e intuímos. Portanto, o tarot vai buscar a intuição que eu quero que as pessoas tentem sentir dentro delas. A intuição está entre a emoção e a razão e temos de encontrar o equilíbrio. A dança também é uma forma de expressão muito bonita e mesmo ela pode ser muito grotesca, linda e harmoniosa ao mesmo tempo. No fundo, todas estas artes, à sua maneira, mostram a beleza dentro e iluminam os lados mais escuros da vida.  Por isso, eu quis juntá-las e fazer aqui uma sinergia para as pessoas poderem ter uma experiência no Birday Swamp que seja um renascimento delas próprias.

Quais são as tuas expectativas para a exposição?

Gostava que o maior número de pessoas consiga ter esta experiência porque a exposição só dura três dias. Portanto, quero que venham e que saiam com uma memória física no corpo, seja ela boa ou má, e que, dentro delas, na sua vivência pessoal, que as enriqueça de alguma maneira ou que as faça olhar para dentro. E que se divirtam porque a exposição é muito divertida para quem souber aproveitar. É um momento de introspeção que não tem de ser pesado porque as pessoas podem tocar nas peças, com cuidado e amor, porque foi feito também com muito cuidado e amor [risos]!

E para ti? O que se segue?

As minhas expectativas enquanto artista passam por expor em mais galerias e chegar a outros públicos e outros países onde possa partilhar com esta experiência. Gostava muito de poder chegar a outras pessoas que ainda não tiveram o contacto com a exposição.