Fotografia: Cinemundo/Divulgação

Crítica. ‘Dune’ é épico em todos os sentidos da palavra

A longa-metragem chegou esta quinta-feira (21) aos cinemas portugueses e é uma das maiores obras cinematográficas do ano.

O mais recente filme de Denis Villeneuve já chegou às salas de cinema nacionais. Dune, como foi chamado, é uma autêntica ópera no espaço, protagonizada por Timothée Chalamet, Jason Mamoa, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac e Zendaya, entre muitos outros nomes de renome. O Espalha-Factos viu o filme e conta-te tudo sobre uma das maiores experiências cinematográficas do ano.

O ano era 1965, longínquo para a maioria de nós. Nesse ano, viria a ser publicado Dune, um livro escrito por Frank Herbert que viria a tornar-se um marco no mundo da ficção científica e uma autêntica referência no mundo da escrita pela sua complexidade e pela maneira como aborda os mil e um temas que retrata. Desde então, muitos tentaram trazer esta obra para o grande ecrã, com nomes para todos os gostos, apesar de ser um projeto considerado impossível de filmar.

O único a conseguir trazer Dune para o cinema, desde aí, foi David Lynch, que em 1984 lançou a sua versão visual do livro, mas que acabou por ser vítima de uma produção problemática, tornando-se num flop total. Os anos foram passando e passando, até que chegamos a 2017 e Denis Villeneuve agarrou no projeto.

Villeneuve, um canadiano de gema, desde cedo mostrou que trata o cinema por “tu”, tendo o talento de poucos hoje em dia. Os seus primeiros filmes, especialmente Incendies – A Mulher Que Canta (2010), Raptadas (2013) e O Homem Duplicado (2013), mostram uma voz cinemática como pouco se viu nos últimos anos. No entanto, foram O Primeiro Encontro (2016) e, acima de tudo, Blade Runner 2049 que convenceram meio mundo que, se calhar, Denis conseguia dar vida a Dune como nunca ninguém o fez.

A verdade é que os anos foram passando e a antecipação foi aumentando – e de que maneira. Vítima da pandemia que vamos atravessando, o projeto foi atirado para 2021, com um lançamento mútuo nas salas de cinema e no streaming. Antes disso, o realizador descreveu o filme como uma história coming-of-age focada em Paul Atreides e a sua relação com Lady Jessica, interpretados por Timothée Chalamet e Rebecca Ferguson, respetivamente.

Desta forma, Denis Villeneuve acabou por ignorar muito do que é o lado político do livro e os monólogos interiores, que tanto foram um problema na versão do filme de David Lynch. O canadiano tem também a intenção de tornar Dune numa trilogia, sendo esta a primeira parte, que cobre apenas metade da obra de ficção científica.

Chegamos finalmente a setembro de 2021 e a longa-metragem estreia em Veneza e, pouco mais de um mês depois, nas salas de cinema em todo o mundo. A começar com um monólogo de Zendaya, que interpreta Chani, uma mulher que aparece pouco no excerto do livro retratado neste filme, mas que está sempre a dizer “presente” nos sonhos de Paul. É ela que nos vai explicando um pouco do mundo de Dune.

Dune
Fotografia: Cinemundo/Divulgação

Basicamente – e sem muitos spoilers –, existe um planeta chamado Arrakis, que é dono da maior riqueza do universo, especiarias, e que é a casa dos Fremen, o único povo que se ambientou ao clima agressivo desse sítio. Portanto, o Imperador, como não poderia deixar de ser, envia o Duque Leto de Atreides (Oscar Isaac), líder da casa dos Atreides, para esse mesmo planeta, servindo como uma espécie de governante.

No entanto, nem tudo foi mesmo assim, como se pode ver no filme, dando razão ao Duque, que se mostrava apreensivo em aceitar esta tarefa. Mesmo assim, ele foi, levando toda a família e tropas, lideradas por Gurney (Josh Brolin) e Duncan Idaho (Jason Mamoa).

Com poucos minutos de longa-metragem passados, é possível ver que Dune tem uma grandiosidade, espetacularidade e um lado épico que se vê muito pouco no cinema. Pode dizer-se que a última vez que se viu algo assim foi na trilogia do O Senhor dos Anéis – e já vai algum tempo desde que esteve nas salas de cinema. A narrativa deste trabalho, que passa por um desenvolvimento lento, nunca obstruí o mundo gigantesco do projeto e percebe-se bem a ideia de Villeneuve nesta primeira parte: o importante é localizar o espetador na história. 

O realizador tenta, ao máximo das suas capacidades, manter-nos de pés bem assentes no chão. A exposição é muita, claro, no entanto, seria impossível fazer a longa-metragem sem ela. A forma como o cineasta aborda a história, ignorando o lado político e focando-se nas emoções das suas personagens, é corajosa e podia falhar com uma pessoa menos capaz, mas aqui acaba por resultar na perfeição.

Dune
Fotografia: Cinemundo/Divulgação

Se ainda não deu para perceber, o livro de Dune é bastante complexo e é algo que não se resolverá num filme apenas. Portanto, este é mais um passeio no deserto cheio de ideias do que outra coisa. Vamos vendo as paisagens, os diferentes povos, as diferentes línguas e os monstros rastejantes. O realizador insiste que o público aprenda tudo o que precisa para que consiga compreender este filme da melhor maneira possível.

Durante as duas horas e meia de filme, o conceito é apresentado de maneira exímia, que nem um Peter Jackson em 2001 no começo do seu Senhor dos Anéis. Podemos até dizer que Paul Atreides é o Frodo de Dune, ainda que não seja irritante a um ponto desconcertante.

Apesar de a trama estar mais focada nos romances e na condição humana, não deixa de ser um épico de ficção científica como pouco se vê e que dificilmente vai ser engolido pelas massas pouco habituadas aos conceitos espaciais aqui mostrados. Para isto, temos que parar para falar de outros intervenientes do projeto, especialmente Greg Fraser e Hans Zimmer. O primeiro, porque fotografa este filme de maneira sensacional, lembrando Rogue One, outro trabalho que filmou, e o segundo, porque compõe uma das bandas sonoras mais bonitas, agressivas e poéticas de 2021.

Todo o lado mais técnico de Dune é perfeito. As sequências são de tirar a respiração e dá que pensar no que acabaria por ser este projeto se tivesse sido gravado num estúdio ao invés do deserto. Este trabalho de Villeneuve é uma obra prima de efeitos visuais, por mais minimalistas que sejam em certas alturas ou gigantes noutras, algo que começa a ser hábito em toda a carreira do realizador.

Pela negativa, há outra coisa que está a tornar-se um hábito na sua filmografia: o segundo ato dos filmes. Como aconteceu, e de que maneira, em Blade Runner 2049, a longa-metragem acaba por arrastar-se um pouco quando a jornada de herói começa verdadeiramente e os conflitos psicológicos na personagem principal começam a surgir. No entanto, a trama nunca fica verdadeiramente aborrecida, apesar da lentidão no desenvolvimento de alguns pontos da história.

Fotografia: Cinemundo/Divulgação

Pela positiva, há que salientar o trabalho dos atores presentes na história. Timothée Chalamet, o protagonista, e que aos 25 anos já dispensa apresentações, mostrou-se seguro no primeiro papel fora daquilo que é o “oscar-bait” que vinha sendo a carreira do ator até agora. Apesar da sua boa interpretação – a mais real possível segundo os fãs hardcore do livro -, Timothée é ofuscado totalmente por Jason Mamoa, que esbanja carisma a interpretar-se a si mesmo, praticamente, e acima de tudo, desaparece ao lado de Rebecca Ferguson, o coração e alma deste épico.

De qualquer forma, se há coisa que Dune mostra é que poucas são as histórias que não conseguem ser filmadas nas mãos certas e, neste momento, não existem mãos melhores que as de Denis Villeneuve. O seu épico, um sonho de carreira para o cineasta, entregou tudo aquilo que prometia, num filme que bem pode ser considerado uma mistura entre Mad Mad: Estrada da Fúria, Senhor dos Anéis e Matrix, ou então um Star Wars para adultos.

Falta apenas ver se chega uma sequela nos próximos anos. Para já, Dune está em exibição em várias salas de cinema em todo o país.

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