Sombra Bruno Gascon
Fotografia: NOS Audiovisuais/Divulgação

Crítica. Em ‘Sombra’, Ana Moreira é uma mãe que é tantas outras mães

As filmagens do novo filme de Bruno Gascon terminaram em 2019, mas devido à pandemia só agora o filme estreou nas salas de cinema portuguesas.

Depois de Carga, Bruno Gascon volta a provar que é um realizador e argumentista focado em temas fortes e sociais. Em Sombra, que está em exibição desde a semana passada nas salas portuguesas, Ana Moreira dá irrepreensivelmente corpo a Isabel, personagem baseada em Filomena Teixeira, que ainda hoje persiste na nossa memória coletiva.

O filme conta a história de Isabel, que representa outras tantas histórias. Tudo começa em 1998, no dia em que Pedro, de 11 anos, desaparece. A cobertura mediática do caso e a existência de um suspeito não são suficientes e são várias as críticas presentes no trabalho ao papel da polícia e às falhas da justiça no caso. A história para de ser contada em 2013 e, durante duas horas, somos testemunhas – e acima de tudo somos capazes de sentir o desespero e a luta pela sobrevivência e superação de todos os obstáculos que Isabel encontra, na luta da qual promete nunca desistir.

Os elos entre a história de Pedro e o caso de Rui Pedro, um dos mais mediáticos casos de desaparecimento de uma criança em Portugal, são evidentes. Contudo, a ideia aqui é homenagear, através da realidade e da aproximação a uma história, todas as mães que sobrevivem a algo tão devastador.

“Em época de paz, os filhos enterram os pais, em época de guerra, os pais enterram os filhos. Eu não tenho ninguém para enterrar, mas também não te tenho aqui”, ouve-se. Nos primeiros minutos do filme, percebemos desde logo o peso da história e o que estamos prestes a experienciar. Esta ideia de diferença do processo de luto e do desaparecimento leva-nos constantemente a oscilar entre o desespero e a esperança e passamos também nós a sentir uma ínfima parte do que todas as mães representadas sentem.

A imagem de Isabel a afogar-se, numa espécie de desistência, é usada para separar as diferentes fases da longa-metragem e da história. É ali que a personagem fala connosco, enquanto fala com Pedro, o filho desaparecido.

Na realização de Bruno Gascon, há pormenores que nos transportam ainda mais para esta história. A mãe surge várias vezes, entre os planos apertados e escuros, com camisolas amarelas, numa espécie de eternizar do otimismo e da esperança, que se vão desvanecendo, ao mesmo tempo, no seu rosto e no visível emagrecimento.

Outro detalhe é o do casaco de Pedro, que Isabel leva na primeira ida à esquadra, na esperança de que vai ser preciso para trazer o filho para casa e essencialmente na cena final, onde serve como representação da própria criança. O filme termina magistralmente, com tudo que precisávamos para não esquecer o que acabamos de ver ali, no grande ecrã.

Sombra Bruno Gascon
Fotografia: Divulgação/ D.R.

A angústia sente-se em vários planos fechados em Isabel ou todos aqueles que surge com o marido, Mário (Miguel Borges). São várias as cenas em que o casal se encontra deitado e, nessa altura, quase sempre voltados de costas um para o outro, conseguimos sentir ainda mais a angústia que vivem e o quanto tudo que se passa afeta também a vida como casal.

Também Vítor Norte tem um papel importante, mesmo aparecendo apenas na primeira parte do filme. António, o pai de Isabel, espelha o sofrimento da filha e impulsiona-a a não desistir. Também ele consternado e inconsolável, vive sobretudo para a proteger.

De Sombra fazem também parte Joana Ribeiro (Kamyla), também ela mãe de uma criança desaparecida e que dá a conhecer a Isabel o tenebroso mundo da pedofilia infantil, numa cena em que mais uma vez Ana Moreira nos leva a sentir a revolta e a ser também parte desta história. Raimundo Cosme é Paulo, o principal suspeito no desaparecimento da criança. Não diz uma palavra do início ao fim da trama, mas a sua presença é perturbadora e não nos deixa indiferentes. O restante elenco conta com Ana Christina de Oliveira, Lúcia Moniz, Tomás Alves, Ana Bustorff e Sara Norte.

Um filme à sombra de Ana Moreira

Todas as personagens acabam por ser secundárias. É Ana Moreira, através de Isabel, que carrega magistralmente o filme nos ombros – e era assim que esta história tinha de ser contada, uma história para mães. Depois de assistir ao filme, fica difícil pensar noutra atriz para representar este papel. A angústia entra em nós e até nas cenas de que não faz parte – é como se estivesse sempre presente.

Em entrevista a João Paulo Sousa e Ana Martins, no Era o Que Faltava, da Rádio Comercial, a atriz de 41 anos confirma que a história é baseada acima de tudo na mãe de Rui Pedro. “O filme é adaptado de várias histórias de várias famílias a que tive acesso, sendo que a inspiração maior foi em Filomena Teixeira”, afirma. Sobre a importância de contar esta história, diz que “o mais importante para estas mães é que os seus casos não sejam esquecidos. Procuram oportunidades para partilhar a sua história, como por exemplo este filme”.

Conhecida pelos filmes de Teresa Villaverde, Transe (2006) e Os Mutantes (1998), bem como por Tabu (2012) de Miguel Gomes, Ana Moreira eleva-se com Isabel, uma mulher que afirma que nunca vai esquecer. Quem vir o filme dificilmente o fará também.

Sombra
Fotografia: Luís Sustelo ©️

Sombra é uma história portuguesa, mas é também um projeto que se quer abrir o mundo e procura reconhecimento internacional. Teve a estreia mundial no Festival de Cinema Barcelona – Saint Jordi, onde recebeu o prémio de Melhor Filme. Foi também selecionado para o Raindance Film Festival, um dos maiores festivais de cinema independente no Reino Unido. Em todos os lugares onde tem sido visto, a receção tem sido unânime e há a ideia generalizada de que representa um tema ultrassensível de uma forma nada sensacionalista e que irá certamente dar ainda muito que falar por esses festivais de cinema fora.

Recentemente, foi também anunciado que a longa-metragem faz parte da short-list de pré-selecionados para candidatura de Portugal aos Óscares, da qual fazem parte A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos, Nunca Nada Aconteceu, de Gonçalo Galvão Teles, O Som Que Desce da Terra, de Sérgio Graciano, Terra Nova, de Artur Ribeiro, e O Último Banho, de David Bonneville. O candidato final será anunciado a 29 de outubro.

Por cá, Sombra vai continuar nas salas de cinema. É garantido que vale a pena sair de casa e apoiar o cinema português neste momento de reabertura das salas e Sombra é uma boa opção para tal.

Sombra Bruno Gascon
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