Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

À Escuta. Pedro de Tróia, Rodrigo Leão e Guire entre os destaques da semana

À Escuta, rubrica semanal do Espalha-Factos sobre os lançamentos da música nacional, está de volta e com ela chegam as mais recentes novidades da música portuguesa. Esta semana o destaque vai para o novo álbum de Pedro de Tróia, a simbiose de Rodrigo Leão e Martirio, o novo EP de Guire e o álbum de The Rite of Trio.

Também falamos dos novos trabalhos de João Só, Constança Quinteiro, colaboração entre OPUS PISTORUM e GEORGE SILVER, The New Geometry, R V, Crate Diggs, Jéssica Pina e Tio Rex.

Pedro de Tróia apresenta o seu mais recente álbum Tinha Mesmo de Ser Assim

Absolutamente infetante, com refrões que se colam imediatamente às orelhas, com uma produção bastante versátil, muito arrojada e com muita personalidade. As letras só por si são belas, porém os instrumentais aliados à subtil voz de Pedro de Tróia embelezam ainda mais estes significantes temas, que vão do introspetivo, ao satírico e cómico, mas sempre com muita atenção a cada palavra que é usada. O Espalha-Factos entrevistou o artista para saber mais do seu percurso e sobre a gravação deste novo disco.

Rodrigo Leão junta-se a Martirio para nos entregar Voz de Sal’

‘Voz de Sal’ é um produto escuro, com um tom tão melancólico como tenebroso e belo. O arranjo traz-nos um jazz mórbido no melhor sentido possível, simples, sem muita complexidade e que oferece a Martirio uma cama para a sua angelical performance se deitar e imperar numa faixa que enche de satisfação quem se digna a deslumbrar-se nesta tão profunda e delicada experiência.

Guire traz-nos o seu EP de estreia Entressonho

Que bela palete sonora repleta de cores que nos é presenteada por Guire. Não é todos os dias que apanhamos um projeto de hip hop com este nível de textura e versatilidade. Os instrumentais têm todos uma capacidade imergente de nos mergulhar num mar de ideias, transmitidas tanto pelos sons como pelos convidados que por aqui passam que tanta personalidade e carácter trazem, ajudam a tornar esta experiência numa muito mais eclética e transcendente.

Temos momentos mais serenos e plácidos como a faixa de abertura Delir’, momentos mais ritmados como Louco Furioso’, este que ao lado da faixa que se segue fogem completamente ao hip hop género este que é capaz nem ser o melhor distintivo para um projeto que nos entrega tanta sonoridade rebelde, isto tudo de uma forma coesa e arrisco a dizer única num dos projetos mais fresh a saírem neste cenário em Portugal.

The Rite of Trio apresentam Free Development of Delirium

Experimental e eclético, o novo álbum de The Rite of Trio entrega uma panóplia de sons, géneros e influências que traz muitos adjetivos e caracterizações, mas desinteressante, certamente que não é nenhuma delas. De Matana Roberts a Black Country, New Road, são vários os nomes que surgem durante a audição, mas sem nunca soar algo derivativo ou menos original. É visceral, é avant-garde e é uma peça muito bem entregue, vai do jazz ao post-punk, sempre de uma forma bruta e sem remorso e traz-nos o que é de facto, um dos projetos mais arrojados da semana.

Constança Quinteiro é Aventurina

Aos saltos entre bossa nova, semba e pagode baiano, mas com traços fortes e característicos de R&B e Soul, Constança Quinteiro brinda-nos com este jovial e quente EP Aventurina. Cinco faixas que se completam, progridem e fluem com uma facilidade invejável, atribuindo ao projeto uma estatura consistente e acima de tudo coesa. A produção é de facto interessante e meticulosamente concebida, porém as performances de Quinteiro dão ao projeto um tom ainda mais apelativo e viciante fazendo desta uma experiência que tem tudo menos de enfadonha ou desinteressante.

Nada é pequeno no amor de João Só

Logo de início, podemos perceber que nada é pequeno no amor que João Só sente pela música que faz. As músicas têm todas um brilho criado pela pura honestidade das letras e dos arranjos alegres e delicados que tornam o quinto álbum de originais do artista português, numa das experiências mais agradáveis da semana.

A simbiose de OPUS PISTORUM e GEORGE SILVER em ‘EXPRESSO FUSETA’

Do Alto Seixalinho à Fuseta, do techno ao breakbeat, esta hiperativa simbiose de OPUS PISTORUM e de GEORGE SILVER entrega-nos um banger old-fashioned, com traços clássicos do que se fazia no género há umas décadas a esta parte, que nos faz lembrar aquelas batidas de uma pista de dança às 4h da manhã, ou aquele sol que resta de um sunset a embater-nos na testa. De uma forma ou de outra, esta faixa é uma indutora de movimento corporal e ficar parado a ouvi-la é definitivamente desafiante.

R V apresenta Lost Control

Rui Valério já demonstrou várias facetas da sua eletrónica, já nos tendo brindado ao longo deste ano com múltiplos projetos que variam entre si em conceitos e sonoridades, mas sempre a espalhar uma eletrónica excêntrica e pouco ortodoxa.

É vez de o industrial imperar em Lost Control, onde de uma forma bruta e cruel somos arremessados com este ritmos sisudos, com um baixo forte e astuto e que certamente não devem estar até muito tarde nas colunas a menos que queiramos ter problemas com os vizinhos.

The New Geometry trazem-nos Alters

Um rock muito astuto este concebido pelos The New Geometry. Uma direção dark com a energia trazida por algumas influências de blackgaze que fazem este projeto ter uma aura bastante própria e com uma eficácia bastante incidente naquilo que pretendem transmitir. Os arranjos e estilos são todos entregues de uma forma altamente competente e dinâmica, tornando Alters num EP cheio de carisma e com um carácter que vai ter de começar a ter-se em conta no panorama do género nacional.

Crate Diggs junta-se a Mura e Wugori para apresentar a faixa 36

Este é o trio que traz o hip hop abstrato esta semana em Portugal. In your face, sem medo e com um delicioso instrumental trazido por Crate Diggs que serve de excelente solo para as barras dos dois MCs se erguerem num agradável e muito sólido single.

Novo EP Vento Novo de Jéssica Pina

O R&B chega pelas mãos de Jéssica Pina. A sonoridade é bastante clássica, porém as guitarras e saxofones que vêm acompanhar as sólidas e delicadas performances da artista, embelezam estas faixas e fazem de Vento Novo um projeto super doce e com uma energia muito contagiante e agradável.

O folk de Tio Rex em My Village’

O novo single de Tio Rex entrega-nos uma simples mas super eficiente canção que dignifica o género pelo qual se debruça. Um bom arranjo, uma bela letra e uma interpretação sóbria, crua e robusta que nos traz à cabeça nomes como Bill Callanan ou até mesmo Bonnie ‘Prince’ Billy. De uma forma ou de outra, a faixa toca-nos e a sua competência e perspicácia é o que traz a excelência a esta faixa.