Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

Entrevista. Pedro de Tróia: “Estou ao serviço do que as pessoas me fazem sentir”

Escrever uma canção pop não é uma arte fácil. Conseguir fazê-lo ao longo de anos consecutivos e sempre com uma criatividade refrescante a inundar as suas canções é uma arte ainda mais complicada de dominar – e no entanto, é exatamente isso que Pedro de Tróia tem feito ao longo da última década.

Após ter integrado a nave d’Os Capitães da Areia – com o qual editou dois discos, O Verão Eterno D’Os Capitães da Areia (2011) e A Viagem dos Capitães da Areia a Bordo do Apolo 70 (2015) – o artista coimbrense regressou aos trabalhos em 2020, agora capitão da sua própria nave, após um hiatus de cinco anos. Depois Logo Se Vê, o nome desse trabalho – um dos melhores de 2020 segundo o À Escuta, a rubrica semanal do Espalha-Factos sobre música portuguesa –  surge desse período de “ligação atribulada” de Pedro de Tróia com a música, podendo ser encarado como uma viagem de autodescoberta apresentada por entre tons de dream pop e pop rock deprimente e contemplativo, que hoje o artista descreve como um “disco prefácio” do caminho que está a iniciar a solo.

Esse caminho encontra esta sexta-feira, 15 de outubro, a sua segunda peça, com o lançamento do novo longa-duração, Tinha de Ser Assim. Com produção de Tiago Brito, e contando com contribuições adicionais de Catarina LynceRita Laranjeira nos coros ao longo do trabalho, de Rui Reininho a contribuir com voz na fenomenal cantiga pop que é ‘Carrossel’, Silas Ferreira nos sintetizadores ao longo do trabalho e Tomás Branco nos teclados na música que fecha o álbum, ‘Não Te Vou Deixar Para Trás”, que poderá ser a cantiga mais bonita que Pedro de Tróia já cantou.

Pedro de Tróia - Tinha de Ser Assim
Capa de Tinha de Ser Assim. Fotografia: Divulgação / Silas Ferreira

Até chegarmos a essa belíssima faixa final, no entanto, esperam-nos outras sete canções que mostram um lado mais “ligeiro” da sonoridade de Pedro de Tróia – há mais ênfase no sintetizador, comparativamente com o trabalho anterior, uma aproximação a um synth-pop de pós-new wave que tem um misto de XTC com The Human League (como em ‘Dor de Ombro’, ‘Carrossel’ ou ‘Mãe’), ocasionalmente trepando até ao dream pop de uns Cocteau Twins, como em ‘Namorada‘ – que, quando escavamos a fundo os temas das canções, prossegue a linha de pensamento refletivo iniciada com Depois Logo Se Vê. Para lançar Tinha de Ser Assim, Pedro de Tróia dará um concerto no Capitólio no próximo dia 11 de novembro, acompanhado em palco por João Eleutério, Rita Laranjeira, Silas Ferreira e Tomás Branco, e com a participação especial de Rui Reininho. Os bilhetes já se encontram à venda na MEO Blueticket e locais habituais.

Para entendermos melhor o percurso do artista e para sabermos mais sobre Tinha de Ser Assim, o Espalha-Factos sentou-se à conversa com Pedro de Tróia durante uma bela tarde de início de outono nos Jardins da Gulbenkian, em Lisboa.

Dez anos passaram desde o disco de estreia d’Os Capitães da Areia (O Verão Eterno D’Os Capitães da Areia), uma das bandas mais marcantes da última década da música portuguesa. De que forma olhas para esse período e que influência teve na tua carreira a solo?

Em relação ao disco, olho para ele e estranho a evolução. Isto é, estranho na medida em que sei que evoluí – mal seria se assim não fosse – mas, ao mesmo tempo, não deixo de me surpreender com aquilo que nós fizemos numa altura – e falo por mim – em que sabia e tinha falhado ainda tão pouco. E quando digo falhar, é mesmo falhar. Ao longo dos últimos dez anos, já falhei muito e, à partida, não cometo o mesmo erro duas vezes, e isso prepara-me melhor para o que faço agora. Nesse sentido, o primeiro disco d’Os Capitães [da Areia], o Verão Eterno, é um disco que já não ouço há muito tempo – a última vez que o ouvi foi para aí há uns três anos – mas relembro-me muito bem do processo todo e de tudo aquilo que se viveu naquele período. E ainda há uns dias, por acaso, contei uma história sobre esse período.

Quando chego a Lisboa no final de 2008, em outubro, mais ou menos, começo a conhecer pessoas em novembro e, para aí em fevereiro, o Manuel [Fúria] e a Amor Fúria propõem-me formar a banda. Nunca me tinham ouvido a cantar e eu próprio nunca tinha cantado à frente de ninguém cá em Lisboa. E isso é muito engraçado porque aprendi muito com esse tipo de acontecimentos em que tu começas a criar coisas (e a criar-te) de forma acidental. Eles nunca me tinham ouvido a cantar e, de repente, olharam para mim e disseram “este tipo vai ser o baixista d’Os Capitães” – eu tocava baixo. E o que é que eu resolvi fazer? Como queria cantar, quando falei com os outros membros, disse-lhes: “Olhem, eu vou cantar e precisamos de um baixista”. Inverti a coisa, percebes? Entretanto, já há um disco que vai ser gravado porque havia uma combinação desde o início que era formar uma banda, sem canções, sem nada. E foi um processo em que está tudo errado, mas tudo certo ao mesmo tempo.

Isso acaba por ser muito o meu processo criativo hoje em dia – não só isso, mas uma parte significativa ainda assim -, em que não penso muito bem para onde estou a ir. Esta imagem é um bocado gráfica, mas dá para perceber o que estou a dizer. Quando cospes, quando vomitas ou te esvais em sangue, tu não estás a pensar no que estás a fazer: as coisas simplesmente estão a sair. Não consegues controlar. Há um descontrolo inicial muito grande e depois, e isto considero também parte do processo criativo, há uma triagem. E, depois da triagem, ou vamos polir aquilo ou mandar para o lixo para, passados dez anos, ir buscar coisas atrás. Isto tudo para dizer que muito do que aprendi nessa altura faz parte do meu processo de hoje.

Imagino que escrever para contexto de banda e escrever a solo sejam duas experiências diferentes. Que principais diferenças notaste no processo entre os dois contextos?

De facto são coisas diferentes, porque tenho muito mais respeito pelos outros do que por mim [risos]. Quando tenho de escrever uma canção numa banda, não posso simplesmente escrever o que quero. Escrevo aquilo que quero, mas inserido naquele contexto. Mesmo que possas estar a cantar no singular, numa banda considero que aquilo que tu cantas é uma voz plural. Por respeito, acho que é importante teres essa consciência – de que é uma banda – e o teu comportamento, aquilo que escreves, aquilo que fazes, está inserido naquele lugar. Enquanto que a solo – e não estou a dizer que seja melhor ou pior, só que são coisas diferentes – sinto uma liberdade muito maior porque, no limite, as consequências só são minhas. Por isso posso dizer o que quiser, fazer o que quiser. É-me indiferente se me entendem ou não, desde que aquilo me faça sentido. Enquanto que, numa banda, tentas ter esse cuidado, ou seja, os elementos da banda não têm que se reconhecer naquilo, mas não podes ignorar aquilo que eles pensam. Imagina, se não gostam de determinado verso, retocas, melhoras, não é? Enquanto que a solo, gosto de me perder, e isso tem um pouquinho a ver com este disco [Tinha de Ser Assim], de certa maneira.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

Nesse desencontro quase constante, muitas vezes, tu também te vais descobrindo. É quase a mesma coisa – e isto é uma imagem engraçada para explicar – do que quando estás num sítio completamente às escuras à procura de quem és e, de repente, acende-se uma luz e estás numa sala de espelhos e vês-te pela primeira vez. E, depois, as luzes apagam-se e continuas num sítio às escuras. O meu processo criativo e aquilo que faço a solo tem um pouquinho a ver com isso. Muitas vezes, estou a escrever e, no momento, nem sei muito bem porque estou a escrever aquilo, e só quando olho para a letra depois dela estar escrita é que percebo o que estava a querer dizer. Muitas vezes, enquanto escrevo a letra, estou-me a levar por um impulso, e enquanto a escrita está a acontecer, tu não tens tempo de questionar porque é que estás a ir por ali. Da mesma forma que quando vais num caminho completamente às escuras não sabes por onde vais, mas sabes simplesmente que tens de ir. No meu caminho a solo sinto muito isso, e sei que, no fim da escrita, me vou conseguir entender melhor.

Entre o último disco d’Os Capitães da Areia e Depois Logo Se Vê, o teu disco de estreia a solo, há um intervalo de cinco anos. Durante esse tempo, como é que foi a tua ligação com a música?

Foi uma ligação atribulada, de sofrimento. De sofrimento, na medida em que estava muito desiludido com várias coisas e desiludido, não no sentido de estar triste, mas no sentido de perceberes que há imagens que tu crias que são ilusões. As coisas não são assim, não basta sonhar. É importante sonhar – sonho imenso -,  mas é tão importante sonhar quanto ter os pés na terra porque, senão, não é real. Não vives. Tenho muito um tique, digamos assim, um defeito, de viver muito atrás dos sonhos. Sonhar e criar, criar porque sonhei,… Esse período foi muito duro e, no caso da paragem d’Os Capitães e da implosão da Azul de Tróia – que agora, quase por fairplay comigo mesmo, acabo por utilizar para editar os discos -, foram dois projetos onde investi imenso de mim e pelos quais abdiquei de muitas coisas. De repente, perceber que aquilo para… Custa. Nessa altura, desisti da música e fui para outras áreas.

Depois, ao mesmo tempo, por muito que me construísse noutras direções, sentia muito a falta de criar, de existir artisticamente. Tinha coisas que não tinha na altura [em que fazia música], mas sentia-me incompleto. Então, também começas a sentir: se na altura não estava bem e se agora tenho o que queria e também não estou bem, então, como estou bem afinal? E o Depois Logo Se Vê acaba por ser um resultado dessa angústia. Tu queres ser, mas tu próprio não te deixas ser, nem sabes bem o que é que queres ser. O Depois Logo Se Vê surge nessa altura e surge porque, a dada altura, o [Pedro] Valente, que é o meu manager agora – nessa altura não era -, conhece-me num período em que estava particularmente perdido e fez algo que hoje em dia tento fazer às minhas coisas, que é ver a imagem vista de cima. Quando tu estás embrulhado num problema ou numa situação, tu vês o problema e aquilo que tens de ouvir à tua escala. Quando vês a situação de longe, percebes, às tantas, que aquilo é muito mais simples e só tu é que estás a criar um problema que, afinal, nem existe.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

Ter conhecido o [Pedro] Valente permitiu ter essa outra perspetiva das coisas. Acho que isso também é uma arte, de certa forma. Foi ele que, ao ver aquilo tudo acontecer, disse: “Olha, e se estivesses sossegadinho, fosses mas é para casa e criasses um disco teu? Eu ajudo-te e vais ver que muitos problemas desses vão desaparecer”. É verdade, surgiram outros, mas faz parte. Não lhe chamaria problemas sequer, mais desafios. Em todo o caso, foi preciso uma pessoa de fora para fazer-me querer que se calhar, existindo a solo, seria possível colmatar algumas carências que estava a sentir.

Depois Logo Se Vê foi lançado a 6 de março de 2020. Com apresentação pronta a acontecer no Musicbox, na semana seguinte (dia 13), viste esse e outros concertos adiados devido ao impacto da pandemia da Covid-19 no nosso país. Como lidaste com esses tempos de incerteza e qual consideras ter sido o impacto da pandemia na promoção deste trabalho?

Lidei muito mal. Fiquei a sentir-me… Sabes quando pensas que só a ti é que as coisas acontecem? Eu sei que é estúpido e sei que não é assim, mas naquele momento só sentia isso. Foi investido tudo o que tinha e o que não tinha naquele disco. Não só dinheiro, mas também crença. Dás tudo o que tens, desligas da estrutura, da estabilidade que outras coisas te davam para investir naquela incerteza que era certa, que te ia levar a algum lugar. Não estou a dizer que era um lugar muito grande, mas que te ia levar a algum lado.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

O que me marcou bastante foi quando estava a dar uma entrevista na Antena 3  e o concerto ia ser daqui a uns dois dias e dizem-me: “Olha, se calhar isto vai mesmo…” O ser adiado era uma coisa que se dizia meio a brincar, sabes? De repente, quando tu ganhas consciência que se calhar tens mesmo de cancelar o concerto, começas a pensar que tens coisas para pagar que dependiam da bilheteira. O concerto ia estar cheio e estava a contar com aquele dinheiro para, por exemplo, pagar a produção do disco. Claro que paguei tudo, mas isso obrigou-me a ter que criar outros problemas e, de repente, começas a sentir que tomaste uma decisão errada. Eu tinha alguma estabilidade, cortei com a estabilidade para aceitar este desafio. Fiz isto, dei tudo por tudo com isto e, afinal, não posso? Claro, não era só eu que não podia – ninguém podia – mas eu fecho-me muito em mim mesmo e pensei muito que “claro que isto só podia acontecer a mim”. Fiquei muito frustrado… Mesmo muito frustrado.

Não pensei desistir da música, felizmente. Houve ali duas semanas em que fiquei muito frustrado, muito desiludido e chateado com tudo. Também comigo, porque sabes quando te dizem “devias de ter um plano B, um pé-de-meia”. É verdade, e na altura não tinha nada. O que me valeu foi que tenho pessoas espetaculares à minha volta e, literalmente, arregacei as mangas e disse “ok, vamos fazer o próximo disco”. De certa forma, também foi essa força também que me fez ver que, se calhar, é importante realmente ter planos B e teres mais almofadas à volta da tua cama porque podes cair e magoas-te, não é? E foi isso que fiz – por almofadas à volta da cama e preparar um disco novo.

A criação deste novo disco [Tinha de Ser Assim] foi o foco durante os vários períodos de confinamento?

Foi uma espécie de kit de sobrevivência.

Considero Depois Logo Se Vê como um disco extremamente pessoal, uma espécie de viagem de autodescoberta. Ao ouvir o teu novo disco, Tinha de Ser Assim, sinto que este partilha muitos dos temas do teu disco anterior – o amor, o legado, a passagem do tempo, a solidão. Que relação existe entre estes trabalhos? Existe alguma espécie de continuidade?

Bem, para te ser sincero, já não o ouvia há alguns dias e estive a ouvi-lo à bocado enquanto almoçava. E estive a tentar ouvir o disco nessa perspetiva que estávamos a falar à bocado, ou seja, de pessoa que está a ver de fora – mas ainda não consegui ter um distanciamento suficiente. Não há distanciamento neste momento que me permita ter uma opinião – a mim, há pessoas que conseguem falar do seu trabalho na boa, mas eu não tenho essa capacidade – sobre o disco.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

Agora, é muito engraçado, porque estamos a entrar numa parte [da conversa] em que as perguntas que tu fazes estão-me a dar informação sobre aquilo que fiz de outra perspetiva. E é engraçado porque eu não tinha a ideia [da relação entre os discos], mas percebo… Achava que eram discos muito diferentes. Não estou a dizer que está certa ou errada e até consigo perceber que está certa. É engraçado no entanto que, na minha cabeça, o tom… No outro não existia muito, mas vamos assumir a palavra ligeireza. Eu vejo ligeireza neste disco e não vejo no anterior. Mas há canções como… Bem, se calhar não existe ligeireza [risos]. Estou exatamente a ir de encontro com a imagem que te estava a dar no início de que crio e depois tento compreender. E às vezes nem chego a compreender.

Todo esse teu processo de criação acaba por ser, digamos, inconsciente?

Acho que é muito mais emocional do que racional e isso levanta-me problemas porque, quando escrevo, não estou a pensar no que estou a escrever. No entanto, depois de escrever, gosto de tentar perceber o que está ali escrito. No caso destas canções [de Tinha de Ser Assim], ainda estou na fase em que consigo perceber muito bem porque escrevi algumas coisas, mas que também há coisas em que ainda preciso de tempo para perceber algumas coisas que escrevi. Acho isso muito giro. Pode não parecer, mas acho muito divertido até.

Agora, respondendo à pergunta das temáticas, és capaz de ter razão porque eu tenho muita dificuldade em falar do que quer que seja que não seja eu. Assim, até soa mal [risos]! Acho que os meus discos vão ser sempre sobre mim porque não consigo contar histórias que não tenha vivido. Enquanto um autor de canções, acho que não sou um contador de histórias, mas tento ser um fotógrafo de momentos que vivi. Eu tenho imenso medo de perder a memória – muito mais do que morrer. E um dos meus objetivos, podemos chamar assim, é que a minha obra me retrate ao ponto de que, um dia, se eu não me souber contar, aquilo que fiz me conte, percebes? Acho que isto vai andar sempre em torno do meu umbigo e coração – mais coração do que umbigo.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

Se há continuidade? Provavelmente, mas ainda não me apercebi disso. Daqui a dois ou três anos, se calhar, vou-me aperceber que aquilo que estou a fazer tem um fio condutor e há-de ter um fim. Enquanto que vi sempre o Depois Logo Se Vê como um disco prefácio – acho que é uma palavra que o enquadra muito bem – este [o Tinha de Ser Assim] já vejo mais como um statement, uma coisa do género “sobrevivi à pandemia e estou realmente aqui”, pronto a continuar. Agora, se esteticamente as coisas vão soar nesta linha? Acho que não, mas também não te sei responder. Acredito que, se daqui a alguns anos me fizerem essa pergunta, tenho um pressentimento que vou entender-me melhor e saber responder melhor. Todos nós nos entendemos ao falar e é por isso que algumas pessoas falam muito – como eu [risos] – porque, tens a necessidade de entender-te. E então, neste exercício a que chamamos entrevista, estou a entender que isto é apenas o início de uma construção.

Com a faixa de abertura, ‘Namorada’, rapidamente me apercebi que este teu novo disco gira muito em torno do sintetizador e parece-me que estes são o seu elemento sonoro principal. Descreveria a sonoridade como um misto entre new wave e um synth-pop sonhador que, apesar de soar nostálgico, apresenta-se moderno e refinado. O que é que liga essas sonoridades do passado com o Pedro de Tróia do presente?

Não liga necessariamente. O que liga a isso, sim, e é muito importante, é que a pessoa que fez com este disco se tornasse possível neste ano, o Tiago Brito – que já tinha produzido o disco anterior [Depois Logo Se Vê], e numa chamada meio de desespero, disse-lhe: “Tiago, tenho de ter um disco para o ano. Eu quero ter um disco novo para o ano.” E antes de perguntar se ele me conseguia ajudar, ele disse-me logo: “Então, vou-te ajudar“. Por isso, há um compromisso em que eu quis que este disco fosse produzido por ele, e isto não é só dizer que ele vai ser o produtor do disco. Não. Efetivamente, gosto que as pessoas que estão envolvidas comigo tenham a liberdade total de fazerem o que querem. Não é só para me fazer favores ou ajudar-me. Por isso, qualquer pergunta sobre instrumental, é da responsabilidade dele. São as referências dele e é ele a aplicar isso a mim. Claro que há uma ligação a mim, mas é muito mais Tiago Brito e a sua magia.

Há qualquer coisa especial, para mim, em ‘Carrossel’, a música que cantaste no disco com o Rui Reininho. É perfeição pop, orelhuda, soando-me a um misto de XTC com The Human League. Qual é que consideras o segredo para escrever uma boa canção pop?

É assim, eu podia, sem qualquer problema, estar o dia inteiro a falar sobre isso [risos]. Vou fazer por resumir. Isto é bastante relativo. O que é uma canção pop, não é? Para mim, uma canção pop é uma canção que estoira nas rádios. Seja o que for, tem de estoirar. Seja Madonna, seja Arcade Fire, seja a coisa mais manhosa que ande para aí. E, por isso, a ‘Carrossel’ não é uma canção pop. Agora, isto é a forma como acabo por catalogar o que é uma canção pop, mas percebo a tua pergunta.

Claro que, ingenuamente, considero a ‘Carrossel’ uma canção pop na medida em que está arrumadinha. Tem uma estrutura, está polida. Foi um desafio que fiz a mim mesmo, numa certa noite, em que tinha de decidir: ou fazia quatro canções e tinha um disco, ou ia ter um EP e ponto final. Não podia estar a enrolar mais. A ‘Carrossel’, como outras três canções, surgem nessa noite no tal vómito, sangue a sair, em que são duas da manhã, estás com sono, e abres os cadernos, pegas na viola e começas ali a mandar cá para fora as coisas que tens sendo que, no caso da ‘Carrossel’, não sabia muito bem por onde começar. Então, criei quatro regras para a letra e brinquei com ela a partir dessas quatro regras que defini. Dificultou um bocado a coisa, mas, ao mesmo tempo, fez com que tivesse a letra escrita no final.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

No dia seguinte de manhã, quando mostrei a canção, disseram-me para enviar a música para os GNR. E pensei que aquilo era a coisa mais parva que podiam-me ter dito porque os GNR não precisam de ninguém para escrever uma canção para eles. É a mesma coisa que dizer para enviar uma música para o B Fachada. Não fazia sentido nenhum. Mas, de repente, percebi o que estavam a querer dizer-me, e pensei: “E se convidasse o Rui [Reininho] para a cantar?”. Não estava a pensar nele quando fiz a canção, mas, lá está, quando ouves um comentário destes, pensas que é óbvio – e não estou a dizer que ele fosse aceitar – que o tens de convidar para cantar esta canção. Até porque o Rui Reininho está no meu top 3 de influências musicais. Por isso, se calhar, é daquelas coisas que já nem tens de ir atrás – é  inato que te influencie. Para já, porque conheço muita pouca música. Eu ouço aquilo que faz-me sentir bem e faço-o há não sei quantos anos. Se perguntares-me se estou a par do que está a sair, não estou a – exceto quando o Spotify faz recomendações. E, portanto, tento reinventar coisas a partir da matéria que sou e que fui absorvendo desde que acordei para a vida.

Já colaboraste com alguma da realeza da música portuguesa, desde José Cid até aos Capitão Fausto, passando pelo Toy. No entanto, sinto que a tua colaboração com o Rui [Reininho] nesta música foi muito especial para ti. Como é que foi trabalhar com ele?

Foi… [longo silêncio] surreal. E acho que ainda vai ser verdadeiramente surreal quando for o concerto. Faz-me sentir emocionado, mas ao mesmo tempo, incrédulo. Não acredito que isto vai acontecer. Mas é verdade, e tens de acreditar e tens que te agarrar a isto: vai acontecer, virar a página e continuar. Mas ainda está ali naquela fase de quereres dizer que isto não está a acontecer, sabes?

E então, com o Rui [Reininho], lembro-me perfeitamente do dia em que me veio à cabeça a imagem de eu estar em palco ou num estúdio, a cantar com o Rui Reininho. Lembro-me perfeitamente. Tinha dez ou onze anos, estava na Serra da Estrela, nas Penhas Douradas, a fazer uma viagem de carro com o meu pai e  lembro-me perfeitamente. Estávamos a ouvir GNR, e sei que aqui não pareço mas sou muito calado. Nessas viagens então, era um silêncio petrificante. Recordo-me de estar a olhar pela janela e de pensar assim: “Lindo. Ele está a cantar e eu estou ao lado dele a cantar“. E ia sempre imaginando os coros, coisas assim. Epá, e aquilo, parecendo que não, para mim, volta e meia, era um flash que ia tendo, seja em sonhos, seja quando, por exemplo, voltava àquela estrada, lembrava-me muitas vezes de passar ali e de ter cantado com o Rui Reininho. Acho muito giro quando o sítio por onde tu passaste te traz uma recordação de algo que não viveste, mas que sonhaste. Então, sempre foi um sonho esta coisa de cantar com o Rui [Reininho].

Agora, não foi um sonho que tenha procurado muito a não ser agora. Mentiria se o dissesse. Olho para as músicas que possa vir a fazer e tinha mesmo de ser esta canção por muitos motivos. Até mesmo esta canção sem ele… Há uns dias estava a tocar a música em casa e epá… Ele é tão essencial que, na minha cabeça, a canção quase que nem existe sem a presença dele. Isso também se torna assustador para mim porque vou ter que a tocar e não vou conseguir que ele vá aos concertos todos [risos].

Depois, o processo todo [de convite e gravação] foi muito simples. Eu gosto de usar sempre tops, o dia em que ele gravou a voz foi para aí um top dez de dias em que estive mais nervoso na minha vida. E foi muito engraçado porque, de repente, tu percebes que há músicos em Portugal que não têm de todo crédito nem o talento nem a história que ele tem – de todo – mas que se apresentam e lidam com, não sei, dez vezes mais o aparato com que ele próprio reagiu comigo. Se soubesse o quão simples seria, já o tinha feito, se calhar, há muitos anos. Se bem que minto, porque sinto que só agora é que estava preparado para fazer o convite. Sempre também tive um bocadinho consciência disso. Ou seja, não ia só simplesmente convidar o Rui Reininho porque sonhava com isso. Tive que sentir que estava merecedor dessa atenção e isso levou bastante tempo.

Ainda assim… Foi tão simples de gravar. Sabes quando, de repente, uma pessoa como o Rui Reininho diz-te: “orienta-me”. E tu pensas: “Orienta-me?”. Foi talvez das frases que mais me desorientou porque estás a ouvir a tua referência- uma das três maiores, mas enquanto figura, a referência – a dizer orienta-me. E quando ele manda cá para fora o primeiro verso… Foi das coisas mais emocionantes que vivi até hoje. Porque aí sim. Uma coisa é o e-mail, o combinar, o ir, o orienta-me. Mas de repente, quando ouves a música, e ele canta logo “Sou porco imundo”… Epá, parece que estás a viver um filme. Eu acredito mesmo isso, que vivo num filme, porque só assim consigo justificar a generosidade que ele teve comigo.

Dizes que o Rui Reininho está no teu top 3 de referências. Qual é que seria esse top 3?

É Madredeus, Rodrigo Leão e Rui Reininho. E não faço por ir atrás das minhas referências. Uma coisa que faço é: quando início o processo de composição, não ouço música porque tenho medo de captar coisas. Se só ouvisse as minhas referências, é óbvio que eu ia fazer alguma coisa semelhante a elas. Prefiro mais, digamos, meter-me dentro de um bunker em silêncio e escrever o que quero dizer e seguir as melodias que estão aqui [aponta para a cabeça] prontas a sair do que andar a ver como estes fazem isto. Isso também é um método – só que não o meu. Eu acho que tenho tanto para mandar cá para fora que, primeiro, preciso de me enxugar, de quase me torcer todo – e torcer, por acaso, é uma palavra que nunca uso e que faz todo o sentido para aquilo que se calhar vou fazer agora nestes primeiros anos. Quando estiver assim “sequinho” que nem um bacalhau [risos], aí talvez me comece a abrir mais, a procurar referências para passar para as minhas canções. Até lá, é torcer para enxugar.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan
Há momentos em Tinha de Ser Assim em que pareces estar a cantar como se a homenagear as pessoas próximas de ti – ‘Namorada’ e ‘Mãe’ sendo os principais exemplos, mas também noto isso em ‘Gosto Tanto de Ti’ ou ‘Dor de Ombro’. De que forma é que as pessoas que te rodeiam impactam a tua escrita?

Impactam totalmente e estava a tentar arranjar uma forma simples de dizer isto. Há muitas pessoas, à minha volta que dizem-me que não sabem escrever e quase que pedem-me para escrever a lista das compras. Nos últimos tempos, tenho percebido que, no fundo, essas pessoas escrevem muito melhor do que eu. Simplesmente, elas quase que me ditam e eu escrevo aquilo que essas pessoas me ditam em silêncio. É algo assim em algumas canções e a ‘Mãe’ é um ótimo exemplo. Aquela canção só tinha de ser escrita. O que vivo com a minha mãe… [longo compasso de silêncio] Posso encarar como, aí está, um ditado que ninguém está a ditar, mas que eu estou a ouvir, e por isso, só tenho de o escrever. Estou ao serviço do que as pessoas fazem-me sentir. Se as pessoas não me fizerem sentir nada, aí provavelmente não sei se consigo escrever.

Acho que isso contribui para que, de alguma forma, como o caso da ‘Mãe’, torna as músicas relacionáveis para o ouvinte. Ou como a ‘Gosto Tanto de ti’, nós não sabemos muitas vezes responder a isso.

Isso é um desafio para mim. Eu não quero fazer canções para os outros. Eu quero fazer canções minhas para mim e que vão estar nos discos, não é? Isto soa sempre assim um bocadinho arrogante, mas é o que é. Mas é mesmo espetacular para mim que quando tu fazes uma coisa para ti com o qual outra se pessoa se identifica com uma coisa que, se tu realmente fosses contar o que aquilo realmente vale, essa pessoa não se ia identificar isso quase de certeza porque não ia conhecer a situação concreta. Talvez [haja esse relacionamento] porque tento ser simples quando escrevo. Isso, para mim, já entra no campo da magia e da gratificação, de certa forma, porque estás a criar uma relação, mas não estás a fazer por criar essa relação. Imagina, podia efetivamente agarrar em lugares-comuns e escrever uma canção para as pessoas se identificarem. Não é muito difícil, estás a ver?

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

No entanto, isso não ia resolver o meu lado. Como é que ia cantar aquilo ao vivo? Para que é que ia cantar aquilo se não sentia nada, percebes? Se estivesse nesse lugar, eu estaria mais a deixar-me interpretar essa canção. Pelo contrário, o que faço faz com que eu não as tenha de interpretar – só tenho de as cantar. E isso é muito giro e é assim que sinto-me em estúdio e em palco.

A canção que fecha o disco, ‘Não Te Vou Deixar Para Trás‘, para além de ser uma das canções mais belas que escreveste, soa à aceitação de um fim de ciclo que me parece estar ligado ao título do álbum, Tinha de ser Assim. Como te sentes perante o teu percurso musical até ao momento e o que se segue no futuro para ti?

Quanto ao meu percurso musical sinto-me insatisfeito, como em tudo na minha vida, e isso é bom. Ou seja, não é sentir-me insatisfeito necessariamente com o que eu tenho feito até agora, é sentir-me insatisfeito com aquilo que ainda não fiz. Se calhar devia apreciar mais o que vai acontecendo em vez de estar sempre a pensar no dia depois de amanhã mas já tentei e acho que não consigo. Talvez precisa de aprender a fazer meditação [risos].

Sobre o que vem para a frente, eu sei perfeitamente o que se segue – só não sei é quando é que as coisas vão acontecer. Imagina, eu sei que vai haver concertos, sei que há partida não vai cair um estado de emergência no dia 11 de novembro [data do concerto de apresentação de Tinha de Ser Assim]. Acho eu, mas já não podemos dizer que vai ou que não vai, não é? Por isso prefiro, de certa forma, viver o presente, que é uma coisa que tenho tentado fazer desde há algum tempo para cá. Não podemos tomar nada como garantido.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

De qualquer forma, eu sei que, a partir do momento que este disco [Tinha de Ser Assim] for libertado, é um alívio para mim na medida em que posso começar a trabalhar no que se segue. Estou ansioso que este disco saia para começar a preparar a próxima jogada, que sei muito bem o que é que é mas não sei como é que a vou concretizar. Imaginemos quase como se fosse uma construção global e, de repente, cada disco é uma divisão ou uma camada. E, dando-te toda a razão, de facto, eu é que ainda não tinha pensado sobre isso, mas de facto, isto tem continuidade e estou a meio, ou melhor, no início.

Tens feito música também para outros artistas, como é o caso da Rita Borba. Como é que funciona o teu processo para escrever para outros artistas? É diferente do processo para escrever para ti?

Eu ia dizer que era mais fácil, mas não é [risos]. No meu caso, e como já expliquei algumas vezes, é deixar a caneta começar a escrever. Há um impulso, há uma força, há qualquer coisa e quando ponto final, é que tu vais ver o que tu escreveste. A cena e sai e só quando acabaste de escrever. Quando é para outras pessoas, acho que é exatamente o contrário. Procuro entender muito bem quem é a pessoa que vai cantar, perceber como é que ela articula as palavras, que energia é que aquela pessoa tem. Não percebo muito de energias, mas deixo-me influenciar muito por elas. Depois, faço sempre duas ou três perguntas e uma delas é: o que é que tu tens para dizer? E quando uma pessoa diz-me “nada”, isso motiva-me muito porque penso: “é impossível, ninguém tem nada para dizer”. Quando muito, pode é não estar a vontade ou não querer contar-me logo, porque de certeza absoluta que a pessoa tem algo para dizer.

O que faço hoje em dia quando isso acontece, que não fazia no início, peço sempre à pessoa: “olha, escreve-me tudo”. Frases, mensagens, manda-me tudo. E é sempre mágico porque a pessoa nunca tem nada para dizer e manda-me páginas e páginas de coisas escritas. No caso da Rita Borba aconteceu isso. Ela disse-me que queria era que eu escrevesse as letras e eu disse-lhe: “Está bem, mas vou escrever as letras para ti, por isso, escreve-as tu“. E de repente, ela escreveu a letra. Claro que depois peguei nas letras e umas foram para a pasta do lixo [risos] e outras foram trabalhas e retocadas.

Pedro de Tróia
Fotografia: Ruben Zakoyan

Isso foi muito giro porque há músicas [no disco da Rita Borba] em que ela está como intérprete, a cantar uma letra que não foi ela que escreveu, mas há músicas em que ela está a cantar uma canção que foi reescrita por mim a partir dessa coisa que ela tinha para dizer. Isso é giro porque, da mesma forma que só eu vou entender as minhas partes, só ela vai entender as dela também. No meu entender, acho muito importante as pessoas serem mais autores do que intérpretes.

Finalmente, gostava de pegar num momento da tua discografia que me deixa sempre pregado ao chão, a faixa ‘Rés do Chão’ de Depois Logo Se Vê. Antes de ouvirmos a tua voz acompanhada apenas de guitarra nesta cantiga agridoce, ouve-se uma conversa em que se diz “É isto que vamos deixar à humanidade”. Queria, então, perguntar-te que legado gostavas de deixar para a música?

Essa canção foi a primeira vez que queria escrever uma coisa e não sabia como. Então, falei com o Tomás [Branco] e ele passado uns dias mostrou-me a canção. Ele conseguiu ver de fora aquilo que eu não estava a conseguir contar e fez esta canção. Claro que fiz bastantes alterações à letra. De qualquer forma, isto para te mostrar que eu mesmo, da mesma forma que acho muito importante ser autor, também acho importante que haja intermediários entre a minha escrita e a minha realidade. E então, também convido a que as pessoas [com quem colaboro] a ajudar-me.

Em relação ao legado, eu sei que a área é a música, mas não penso na questão de o que vou deixar à música. Penso mais na humanidade [risos]. Mas penso mesmo. Um dos meus maiores sonhos é que, um dia, a minha obra pudesse falar um dia falar por mim na minha ausência. E isso é a tal força, intensidade que tu não consegues condicionar nem estancar e que também não fazes por estancar porque sabes que, um dia, te poderás valer dela para que os outros saibam quem foste. Se calhar, daqui a cem anos, pessoas que conheçam-me a partir daquilo que deixei vão ver as coisas descontextualizadas e questionar: “O que é este indivíduo andou a fazer à vida dele?”

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