Fotografia: Rui Valido

Globos de Ouro. O regresso da noite mais esperada do ano

Dois anos depois da última edição, os Globos de Ouro voltaram ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O Espalha-Factos esteve presente, falou com alguns dos nomeados e vencedores e conta aquilo que as câmaras não apanharam na 25.ª cerimónia da premiação da SIC.

O dia 3 de outubro estava marcado no calendário como o regresso de uma das galas mais esperadas da televisão portuguesa, contudo, foi a noite que deu lugar a um momento de magia e excelência sem igual. Às 20h as ruas do Coliseu estão cheias, tanto de fãs, que esperam ter um vislumbre dos seus artistas favoritos, como dos próprios nomeados, que anseiam a cerimónia que se aproxima.

O céu escuro é iluminado não só pelas luzes brancas da entrada da sala de espetáculos, como também pelo flash dos jornalistas que, lá fora, intersetam as personalidades que se aproximam. Embora este ano o evento tenha voltado ao regime presencial, sente-se a falta da passadeira vermelha que não pode ser pisada, reflexo de um esforço por controlar a pandemia que anteriormente proibiu o país de celebrar as diversas formas de arte.

Ainda assim, a elegância e o glamour não faltam. Os vestido elegantes e os fatos das mais variadas cores sobressaem, como se tivessem estado fechados no armário à espera de uma oportunidade para serem vistos pelo mundo. Os sorrisos, tapados pela obrigatoriedade do uso a máscara, não passam despercebidos, já que o brilho no olhar dos artistas transparece a alegria de estarem presentes numa gala de tamanha importância.

Dentro do Coliseu dos Recreios, antes de entrarem na sala onde tudo vai acontecer, as celebridades voltam a encontrar amigos e colegas de profissão, reencontros que não aconteciam desde o primeiro isolamento, em 2020. Entre eles, Tiago Teotónio Pereira conta que “já há dois anos que não via pessoas, que não saía de casa e não ia a um evento”. Para além de entregar um dos prémios da noite, o ator, que está a gravar a série The Mood para a RTP, vê também nos Globos de Ouro uma oportunidade de encontrar “muita gente com quem não estava há muito tempo”.

Ao bater das 21h, a orquestra começa a tocar, como se ainda se tratasse de um ensaio prévio, o que faz com que lentamente a multidão se comece a sentar. Embora a lotação não esteja totalmente ocupada, em frente ao palco não há lugares vagos. No ar, o murmurar das pessoas enche a sala, curiosas sobre quem serão os vencedores da 25.ª edição do certame. De repente, o som de uma campainha ecoa pelas paredes iluminadas do Coliseu – os Globos de Ouro estão prestes a começar.

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Clara de Sousa foi a apresentadora da 25ª edição dos Globos de Ouro | Fotografia: Rui Valido

Como não podia deixar de ser, a música de um violino é a primeira a chegar aos ouvidos da plateia, com toda a pompa e circunstância que o evento merece. No entanto, a primeira atuação não se restringe a classicismos e logo aparecem vários dançarinos para animar o público português. O barulho dos bombos abana as cadeiras daqueles que a poucos metros do palco se sentam e os artistas de rua revelam uma energia contagiante. Bolas pelos ar, um monociclo e até fogo fazem parte de um espetáculo em que o “excesso” se torna a única maneira de matar as saudades de uma gala que tinha ficado por realizar.

Apesar disso, com a chegada de Clara de Sousa, a anfitriã deste ano, o silêncio instala-se. Nota-se que uma figura de respeito acaba de chegar, por isso, não é de estranhar que a sua mera presença seja merecedora de uma longa ovação em pé. Momentos antes, Rodrigo Guedes de Carvalho falou com o Espalha-Factos sobre a colega por quem tem “um carinho especial” e afirmou que, embora a pivô não estivesse “na sua praia natural”, era “capaz de dar conta de qualquer recado”.

Os vencedores

A gala de reconhecimento e premiação inicia com 100 nomeados, contudo, apenas 25 vão levar o prémio para casa. A primeira categoria da noite é a de Cinema, onde A Herdade se destaca, vencendo o galardão de Melhor Filme e de Melhor Ator, com Albano Jerónimo. Já o Globo de Melhor Atriz vai para Lúcia Moniz, pelo filme Listen, de Ana Rocha de Sousa.

Seguem-se as Personalidades do Ano. A apresentação da categoria de Entretenimento traduz-se num dos momentos de maior tensão da noite. Em comparação com os restantes nomeados, quando Cristina Ferreira, que há um ano abandonou a SIC pela TVI, aparece no grande ecrã, nota-se um silêncio por parte da plateia.

A ausência de aplausos denota a rivalidade entre a diretora de Entretenimento e Ficção do quarto canal e a estação de Paço de Arcos. Por outro lado, o preferido faz-se sentir entre as palmas e os assobios. João Baião é o grande vencedor da noite, com direito a uma ovação em pé e aos abraços de Fernando Rocha e de João Paulo Sousa, que também pegam nele ao colo.

“É um privilégio ser galardoado nesta festa que marca o regresso dos Globos de Ouro. Só tenho de agradecer à SIC pelos desafios que me tem feito e pelo voto de confiança”, declara o apresentador aos jornalistas nos bastidores da cerimónia. O vencedor agradece ainda ao público por ser “soberano nessas questões” e porque é “por e para ele que vale a pena toda a dedicação e entrega”.

Na categoria de Personalidade do Ano Digital, Bruno Nogueira leva o prémio, depois de se ter tornado um sucesso junto dos portugueses com Como É Que o Bicho Mexe, durante a pandemia. Luís Carvalho sobe também ao palco para receber o prémio da mesma categoria, na área da Moda.

Por fim, Ricardo Araújo Pereira leva o último galardão da categoria, na área de Humor. “Há um comediante americano que, durante a pandemia, estava a falar com um músico e a dizer: ‘os humoristas não têm a tua hipótese de fazer concertos online porque vocês tocam um instrumento e nós tocamos o público’ no sentido de produzir um som, que é o maravilhoso som da gargalhada. É assim que vemos se o reconhecimento está a funcionar ou não”, afirma, em declarações aos jornalistas.

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Ricardo Araújo Pereira foi protagonista de um dos momentos mais divertidos da noite | Fotografia: Rui Valido

À medida que a noite avança, vários os discursos e agradecimentos são feitos, mas aqueles com que a plateia mais se identificou são os que se associam aos profissionais da cultura, visto que, sem eles, esta cerimónia não poderia existir. A isto juntam-se os apelos ao Governo, que tal como Rui Mendes menciona, “parecem ter vergonha de apoiar a cultura portuguesa”.

A categoria de Ficção é também uma das mais esperadas da noite, devido ao número de nomeados que participaram tanto em projetos nacionais, como internacionais. Apesar disso, o conteúdo português triunfa, começando pelo Globo de Melhor Ator para Ricardo Pereira, pelo papel na novela Amor Amor.

Esqueci-me de agradecer a todos os outros nomeados que são amigos, colegas de trabalho que tenho muito respeito, que têm carreiras muito bonitas e honrou-me muito estar com eles nesta nomeação. Queria ainda deixar uma palavra ao Rogério Samora, que está connosco”, expõe o ator, atrás das câmaras. Ricardo Pereira é também recebido pela agente e pelos amigos, que o abraçam, afirmando que sabiam que o ator ia ganhar o prémio.

O galardão de Melhor Atriz de Ficção transpõe um dos momentos mais emotivos dos Globos de Ouro. Ao saber-se que Maria João Abreu é a vencedora, as expressões dos restantes artistas não passam despercebidas. À tristeza de uma partida cedo demais junta-se o orgulho de ganhar um Globo que vem reafirmar o talento da atriz. Durante cerca de um minuto, o Coliseu dos Recreios para, para a homenagear, até que o prémio é entregue à família, que sobe ao palco em lágrimas. Por fim, e ao som de Rodrigo Leão, o genérico da série Golpe de Sorte emociona a plateia, enquanto imagens em tons acastanhados da atriz passam no ecrã.

“A Maria João foi uma amiga de sempre, com quem partilhei muitas confidências, com quem aprendi muito e que falava muito comigo nestes últimos tempos porque estávamos a partilhar o mesmo projeto [Patrões Fora]”, diz João Baião, depois de apresentar o prémio que galardoa a atriz que faleceu em maio deste ano. A Maria João era família e às vezes parece que nem é verdade que ela fisicamente não está cá, porque eu estou sempre a pensar nela”, acrescenta o apresentador.

Em último lugar, premeia-se o Melhor Projeto. César Mourão ganha, com Esperança, e sobe ao palco para receber o primeiro de dois Globos aos quais estava nomeado.

A categoria de Música deixa também os espectadores agarrados à cadeira e atentos a quem seriam os vencedores. Todos os nomeados eram candidatos fortes à vitória, mas Bárbara Tinoco vence como a Melhor Intérprete. O galardão de melhor atuação vai para Carlos do Carmo, que faleceu no primeiro dia do presente ano. O Globo de Ouro representa da melhor maneira o fim da carreira do artista, principalmente porque o concerto que lhe valeu a nomeação foi o da sua despedida aos fãs, em novembro de 2019.

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Bárbara Tinoco venceu o Globo de Melhor Intérprete | Fotografia: Rui Valido

A Melhor Música da cerimónia é Por Um Triz’, de Carolina Deslandes. “Muito feliz e realizada, tem sido um ano incrível, tudo aquilo que eu achei que podia acontecer nos meus exagerados sonhos. O que eu gosto mesmo na vida é de fazer canções, contar histórias e as canções têm esta coisa bonita que é as histórias que tu cantas duram o resto da vida”, revela a cantora.

Este ano, a artista esteve presente no ColorsXStudios e está nomeada para um Grammy Latino, o que faz com que possa expandir o seu talento além-fronteiras. Carolina considera que o fado é “a coisa mais bonita da nossa cultura e tem aberto muitas portas”, mas acredita também que o pop ainda não tinha sido reconhecido. “Gostava que nos conhecessem mais lá fora porque nós fomos educados a acreditar que lá é tudo melhor, mas nós somos inacreditáveis”, conclui.

Depois de terem representado Portugal na Eurovisão, os The Black Mamba esperavam que o prémio consolidasse todo o trabalho do último ano, contudo a banda portuguesa não consegue atingir esse objetivo. Tatanka, o vocalista do grupo, declara que a nomeação na categoria é “um reconhecimento do trabalho que os Black Mamba já fazem há 11 anos” e que o Festival apenas permitiu que mais gente conhecesse aquilo que eles sempre fizeram.

Teatro, a quarta arte, é também homenageada na noite dos Globos de Ouro. Na categoria de Melhor Atriz, Bárbara Branco vence com Bruscamente no Verão Passado, já na de Melhor Ator, Cláudio da Silva é premiado pela peça Se Isto É Um Homem. A Melhor Peça é A Vida Vai Engolir-vos, de Tónan Quito.

Prémios Especiais e a Revelação dos Globos de Ouro

Para além dos galardões a que estamos habituados, a 25.ª edição dos Globos de Ouro conta, para cada categoria, com um Prémio Especial de 25 anos. A lista de vencedores, guardada a sete chaves, é apenas revelada durante e cerimónia, o que deixa vários vencedores surpreendidos. 

Teresa Villaverde é a primeira galardoada, na categoria de Cinema. A realizadora de 55 anos aproveita o tempo de antena para dedicar o prémio à Seleção Feminina de Futsal do Afeganistão, que fugiu do país e está refugiada em Portugal. Mais tarde, Eduarda Abbondanza é a segunda mulher a subir ao palco para receber o Globo Especial de Moda.

Segue-se o Prémio Especial 25 anos de Entretenimento, que é atribuído a uma das caras mais conhecidas da RTP e com uma das carreiras mais longas da televisão portuguesa: Fernando Mendes. “Eu fugia sempre deste tipo de eventos, porque não gosto de aparecer, mas o Daniel [Oliveira] pediu-me e, como nos damos bem, eu vim. Ainda agora não tenho palavras, mas estou muito emocionado e feliz por se terem lembrado de mim”, explica o apresentador aos jornalistas. 

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Fernando Mendes é galardoado com o Prémio Especial 25 anos de Entretenimento | Fotografia: Rui Valido

Voltando a celebrar a Ficção, é chamada ao palco Maria João Luís, uma veterana na área. A atriz, que recebe outro dos Prémios Especiais, considera o seu discurso “caótico” de tão inesperado que é, mas ainda assim promete “muito teatro e cinema” para o futuro.

O quinto Prémio Especial 25 anos é da categoria Revelação e é entregue a Filomena Cautela. Emocionada, a apresentadora sobe ao palco, onde fala da importância de um serviço de televisão pública. O discurso destaca-se como o minuto mais visto dos Globos de Ouro, com mais de um milhão de espectadores. Em seguida, na categoria de Teatro, Rui Mendes é o grande vencedor. O ator de 84 de anos faz questão de relembrar o público que, embora o galardão seja de 25 anos, ele já acumula 66 de carreira.

Para a categoria de Humor, César Mourão volta a ser chamado, para receber o segundo Globo de Ouro da noite, que dedica a Herman José. “O mais importante era ser nomeado e o trabalho artístico é difícil de ser mensurável, portanto, qualquer um dos nomeados é igualmente merecedor”, conta o humorista ao Espalha-Factos, antes de a 25.ª edição começar. Contudo, após receber o prémio Especial, o humorista comenta que “ter o trabalho reconhecido é ótimo, mas ter a carreira reconhecida é um sabor diferente”.

Os últimos dois prémios da noite são o Prémio Especial 25 anos de Música, que vai para os GNR, e ainda o Prémio Mérito e Excelência, entregue por Francisco Pinto Balsemão ao vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que agradece aos portugueses o sucesso da campanha de vacinação.

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Carolina Carvalho é a Revelação do Ano | Fotografia: Rui Valido

Um dos Globos de Ouro mais esperados da noite é também entregue durante a cerimónia. O Prémio Revelação, categoria em que o sexo feminino estava unicamente representado, tem como grande vencedora Carolina Carvalho. A atriz declara que se sente “especialmente feliz”, visto que este é um prémio que vem da votação do público e isso significa “que estão atentos e que gostam” do seu trabalho. Atualmente, a atriz está também a gravar The Mood, mas assegura que mais coisas virão.

A saudade de espetáculos ao vivo

A sala de espetáculos do Coliseu dos Recreios serve não só para celebrar o trabalho dos artistas, mas também para trazer as atuações musicais de volta. Para além da apresentação inicial, mais canções portuguesas sobem ao palco, para matar as saudades do que é ver um concerto ao vivo.

A segunda atuação dos Globos de Ouro junta Carolina Deslandes, Bárbara Tinoco e os The Black Mamba em palco, para cantarem Por um Triz’, Antes Dela Dizer Que Sim’ e Love Is On My Side’, respetivamente. Os três artistas fazem com que o ritmo da sua música vibre pelas paredes coloridas do Coliseu, que mudam de cor consoante a batida. A plateia tem os braços no ar e tanto as palmas, como os assobios não deixam passar despercebida a emoção e felicidade de um concerto a tão poucos metros dos presentes.

O espetáculo que se segue é o dos Now United, um grupo composto por 18 membros, cada um de um país diferente. A atuação, bastante esperada pelo público, não desilude a plateia e contagia tudo e todos com os seus movimentos de dança coordenados. Depois do intervalo, e para promover a vacinação, há ainda tempo para um espetáculo que junta o teatro e a música, com a participação de Ricardo Pereira, Júlia Pinheiro e João Baião. 

O último concerto a que a plateia tem direito é o do grupo musical Los Del Río. Antonio Romero Monge e Rafael Ruíz Perdigones cantam a Macarena’ e fazem com que parte da plateia se levante para fazer a coreografia que todas as gerações sabem de cor. Com alguns de pé e outros sentados, o Coliseu quase se torna num flash-mob de celebridades empenhadas em acertar cada movimento do sucesso de 1996. 

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Los Del Río regressam ao Coliseu com o sucesso de 1996, ‘Macarena’ | Fotografia: Rui Valido

No fim, Clara de Sousa faz um balanço da 25.ª edição dos Globos de Ouro e conta que não estava nervosa e que apresentou de forma “descomplexada”. “Eu acho que correu muito bem, foi uma gala belíssima, tivemos momentos muito emocionantes, tivemos a plateia várias vezes de pé e deu para perceber que as pessoas estavam com muita vontade de voltar e que estiveram a 100%. A única coisa que eu senti falta foi ver os sorrisos, só consegui perceber pelo olhar, mas senti a energia sempre que batiam palmas”, frisa.

A gala de mérito português chega ao fim com tempo suficiente para agradecer à banda e ao maestro e ainda congratular todos os vencedores da noite. Os Globos terminam com uma salva de palmas como forma de agradecimento à SIC por organizar uma noite sem igual.

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