Encontros do Cinema Português
Fotografia: ICA/Facebook

Encontros do Cinema Português mostra que cabem muitas vidas no cinema nacional

Os cinemas NOS Alvaláxia voltaram a abrir as portas aos Encontros do Cinema Português, numa sexta edição que se realizou esta quarta-feira (29). Foram 29 os filmes apresentados, num evento que visa discutir os problemas do setor e dar visibilidade às próximas vozes da produção cinematográfica em Portugal.

Apesar das restrições sanitárias terem abalado o mercado, o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) e a NOS, entidades promotoras do evento, reforçaram que pouco ou nada mudou na sua principal missão. “Vamos continuar a lutar para aumentar a visibilidade do cinema português, que conseguimos expandir a quota de mercado dos nossos filmes, que conseguimos partilhar e fazer uma mostra do que melhor se faz em Portugal”, garantiram aos cerca de 170 convidados presentes.

Um brinde à diversidade de vozes

Cabem muitas vidas dentro do cinema português. Desde thrillers repletos de suspense a peripécias focadas em anti-heróis, a diversidade saltou à vista enquanto palavra-chave do encontro.

Uma a uma, as histórias que nos próximos anos chegam ao grande ecrã subiram ao palco. Por um lado, provou-se que o drama continua bem vivo, graças a narrativas como O Bêbado (André Marques), Revolta (Tiago R. Santos), Nunca Nada Aconteceu (Gonçalo Galvão Teles) e Dulcineia (Artur Serra Araújo). Por outro, olhou-se para a escrita como algo transversal à arte em movimento. Não Sou Nada de Êdgar Pereira e Sombras Brancas de Fernando Vendrell colocaram a tónica em autores portugueses ao convidarem, respetivamente, Fernando Pessoa e José Cardoso Pires para protagonistas.

Fotografia: ICA/Facebook

É a continuidade de um trabalho que eu tinha feito com a ‘Aparição’, um filme sobre o Virgílio Ferreira”, referiu Vendrell. “Queria muito trabalhar sobre o universo dos escritores, o universo da escrita e o universo criativo da forma como nós vemos o mundo”.

Houve ainda tempo para questões pertinentes receberem respostas à altura. “E se vivêssemos numa ditadura?” ou “Quais as dificuldades de deixar o ninho pela primeira vez?” são os pensamentos que deram origem a Evadidos, de Bruno Gascon, e Outono, de António Sequeira, os dois grandes destaques da produtora Caracol Protagonista.

Nas palavras da representante da Caracol, Joana Domingues, opções não faltam. “O cinema português efetivamente está a mexer, temos é de conseguir levar as pessoas até lá”, relembrou.

Da vida real à animação

Por vezes, o melhor cinema é encontrado onde menos se espera. Assim o comprovaram várias longas-metragens ligadas ao estilo documental. Em breve, será possível viajar no tempo até à fundação da Companhia Chapitô em Os grandes criadores (Ramón de los Santos e Elisa Bogalheiro) ou espreitar a correspondência da artista Maria Helena Vieira da Silva e Árpád Szenes em Vierarpad (João Mário Grilo).

Encontros do Cinema Português
Fotografia: ICA/Facebook

Pelas avenidas do Porto, nasce outro documentário improvável, desta vez na voz dos músicos que fazem da rua a sua sala de espetáculos. Por trás Da Moeda conta as histórias de quem vive a “felicidade fora dos padrões”, de acordo com o realizador Luís Moya. “Este é um filme sobre artistas de rua. Mas é mais do que um filme só sobre artistas de rua. É um filme fundamentalmente humano e movido de emoção, sobre pessoas genuínas”, adiantou o cineasta.

No espectro oposto, destacam-se três propostas de animação. A produtora Animanostra anunciou um regresso às origens da Bossa Nova, com They Shot The Piano Player (Fernando Trueba e Xavier Mariscal). Já a Sardinha em Lata apresentou o stop motion Os demónios do meu avô (Nuno Beato), que junta vozes de conhecidas figuras nacionais como Vitória Guerra, Ana Sofia e Óscar Branco.

De José Manuel Ribeiro para o mundo, sai também Nayola. Esta é uma “coprodução com quatro países, com cinco estúdios”, em que já trabalharam “mais de 100 pessoas”, segundo Virgílio Almeida, argumentista do filme. A longa-metragem adapta uma peça de teatro de José Eduardo Agualusa e Mia Couto, passada no pós-guerra civil angolana. Em Nayola, os diálogos encontram-se em português e kimbundu, reunindo uma maioria de atores não profissionais angolanos.

Rir é o melhor remédio

Quando se pensa em cinema comercial português, a comédia continua a surgir no imaginário coletivo. Não é por acaso que frases como “Ó Evaristo, tens cá disto?” ou até mesmo o grito estridente “Pedro Henrique!” ecoam na mente de gerações. A produtora francesa StudioCanal, convidada especial desta edição, fez questão de confirmar tal facto. Numa conversa por Zoom, chamou-se à atenção para a forte preferência das audiências portuguesas pelo humor falado em francês.

“As comédias que costumam funcionar melhor [em território português] são comédias com temas familiares, elementos de classes sociais e cruzamento de culturas”, afirmaram os representantes da produtora. “As pessoas querem escapar e ver filmes que as façam sentir bem no grande ecrã e isto é algo que é muito importante para nós na Studio Canal”.

Dispostos a continuar este legado, surgem propostas para todos os gostos. Talvez as intrigas mirabolantes de Geme… la vie!, realizado por Luís Albuquerque, façam as delícias de uns. Enquanto outros podem optar pela ação de um bom buddy cop, oferecido por Victor Santos em Duros de Roer.

Encontros do Cinema Português
Conferência com a produtora francesa StudioCanal. Fotografia: ICA/Facebook

Mas falar de comédia portuguesa não seria decerto possível sem mencionar Bruno Aleixo. O personagem mais famoso do YouTube está de volta para O Natal do Bruno Aleixo, um filme “construído no arquétipo do conto do Natal de Charles Dickens, em que o protagonista vai ter um acidente de viação, fica em coma e visita vários natais”, adiantou João Moreira, criador e voz por trás do personagem. A história vai ser contada com recurso a vários tipos de animação e promete trazer muitas gargalhadas ao Natal de 2022.

De onde vimos e para onde vamos?

Depois de tanto conversar sobre o futuro, desceu-se ao momento presente. Luís Chaby (ICA), José Fragoso (RTP), José Gandarez (produtor), Rodrigo Areias (produtor), Nuno Aguiar (Cinemas NOS) e Susanna Barbato (NOS Audiovisuais) juntaram-se para conversar sobre O que procura o espectador no cinema Português? Como responder às suas expetativas?”, num debate moderado por Maria João Rosa.

Encontros do Cinema Português
Fotografia: ICA/Facebook

Porém, ir ao encontro das expetativas do consumidor não basta. Para continuar a cultivar novos talentos, há que estimá-los, antes de mais. É Pedro Fernandes Duarte, produtor de A Metamorfose dos Pássaros de Catarina Vasconcelos, quem o diz, num dos discursos mais relevantes da tarde.

Apesar da longa-metragem estar prestes a estrear, já ter sido vendida a dez países e premiada cerca de 25 vezes, a distribuição em Portugal continua a constituir um entrave. “Ora, eu acho um bocado ridículo que um filme que anda a provocar reações tão fortes nas pessoas, não ande a ter facilidade em encontrar salas para o distribuir em Portugal”afirmou o produtor.

Até ao momento, apenas 11 salas de cinema portuguesas concordaram em exibir o filme, que aborda o complexo tópico da morte da figura materna. “Nós gostávamos muito de dar a conhecer este filme e fazer espectadores, acreditamos que o fará. Precisamos só da vossa ajuda”, concluiu.

O lançamento de A Metamorfose dos Pássaros está marcado para o dia 7 de outubro, depois de uma calorosa receção no festival IndieLisboa. Da parte dos Encontros do Cinema Português, resta um até para o ano e um desafio: nunca é tarde demais para apoiar o cinema nacional.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.