American jazz musician and composer Miles Davis (1926 - 1991) playing the trumpet

Miles Davis. O músico incontornável que mudou a história do jazz

O músico deixou-nos há 30 anos, mas a capacidade que tinha de se reinventar tornou-o imortal.

O músico Miles Davis morreu há 30 anos, no dia 28 de setembro de 1991. No entanto, a sua incrível e irreverente carreira musical, que acompanhou e mudou toda a história do jazz, fazem dele um dos artistas mais influentes e relevantes de sempre. Para perceber a importância que Miles teve no mundo do jazz e também na música em geral, o Espalha-Factos esteve à conversa com um músico com formação no género, Aurélien Vieira Lino.

Do Illinois para a Juilliard

Miles Davis nasceu em 1926, no estado do Illinois, no seio de uma família relativamente rica para a época, que no ano seguinte se mudou para East St. Louis, uma cidade rural. Miles começou a tocar trompete aos 13 anos, instrumento que foi escolhido pelo pai propositadamente para irritar a esposa, pianista de blues, que não gostava do som daquele instrumento.

Com apenas 17 anos, começou a tocar profissionalmente e integrou a secção de trompetes na banda Blue Devils, de Eddie Randle. Na altura, Davis era apenas um adolescente, mas rapidamente se tornou no diretor musical da banda e, passado um ano, em 1944, foi convidado a integrar o grupo de Billy Eckstine, do qual faziam parte Charlie Parker Dizzy Gilespie. O futuro do jazz moderno estava naquela banda.

Se aprendêssemos a partir da teoria, perderíamos o sentimento na execução

Ainda em 1944, o artista mudou-se para Nova Iorque e matriculou-se na Juilliard School, porque queria aprender música, mas principalmente porque a mãe achava importante que ele tivesse uma formação. Durante algum tempo, tentou levar a escola a sério, no entanto, o seu desejo era tocar jazz nos bares da 52nd Street, a meca dos bares de jazz na cidade.

Do Bebop até ao álbum Kind of Blue

“Miles Davis começou a tocar jazz em 1945, na fase do bebop, estilo dominante desde o final dos anos 30 até aos anos 50”, explica Aurélien Vieira Lino. “O bebop é a fase em que os músicos negros inventaram um estilo extremamente rápido e virtuoso, com muitas notas, para se distinguirem dos músicos brancos”, acrescenta o músico.

Segundo Aurélien, Charlie Parker foi “o exemplo máximo do bebop” e Miles integrou o quinteto dele, “tentando imitar, aliás, como qualquer músico de jazz, na altura”. No entanto, o artista “rapidamente se fartou de tocar tantas e partiu para o projeto dele”, criando um estilo que refletia verdadeiramente quem ele era, diz Aurélien.

No final dos anos 40, Miles Davis conheceu Gil Evans e nasceu uma colaboração que duraria 20 anos. Os dois trabalharam juntos no projeto Birth of the Cool, um noneto que criaria uma espécie de fusão de ideias clássicas modernas com jazz, cuja a ideia era criar novas sonoridades para ampliar o alcance do estilo musical. O músico sabia que, para fazer progredir a música, era necessário levá-la a locais onde nunca foi.

Paris foi onde percebi que nem todos os brancos eram iguais, alguns são preconceituosos e outros não

Em 1949, Davis foi atuar em Paris no Paris Jazz Festival. A viagem foi extremamente importante para o músico, uma vez que se apaixonou pela atriz francesa Juliette Gréco, que o introduziu num círculo de outros artistas, de intelectuais e filósofos – as maiores mentes da época, que viam o jazz como o auge da arte.

Paris foi para Miles uma espécie de abertura de possibilidades e de potencial, já que, ao ser tratado como igual por alguns dos gigantes mais criativos da época, percebeu que podia ser completamente autêntico, além dos limites da raça. Voltou aos Estados Unidos muito deprimido e desiludido. Via agora o seu país sob uma luz mais crua, pois tinha experienciado algo diferente.

Foi difícil para mim voltar às tretas que os brancos faziam um negro passar neste país

Em 1950, tal como outros artistas da época, Miles Davis torna-se viciado em heroína. A carreira do músico ficou fora de controlo e não havia perspetivas de que sobrevivesse, muito menos que voltasse a ser um músico de sucesso. Contudo, entre 1953 e 1954, o artista voltou a East St. Louis e, após algum esforço, conseguiu superar o vício da heroína e o dono da editora Prestige convidou-o para gravar um álbum. Nesta altura, Miles começou a usar uma surdina que, segundo Aurélien, “torna o som do trompete mais metálico e é o som de marca de Miles Davis”.

Cinco anos depois, foi atuar no Newport Jazz Festival, numa atuação que mudou não só a sua carreira, como o mundo do jazz. A beleza da canção ‘Round Midnight’, bem como a beleza do trompete de Miles fizeram do bebop um estilo que podia ser aceite por todos. Este sucesso levou o músico de volta à ribalta e George Avakian, produtor de jazz da Columbia Records, ofereceu-lhe um contrato exclusivo. Davis aceitou e formou o primeiro quinteto, composto por John Coltrane (saxofone), Red Garland (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Philly Joe Jones (bateria). Com este grupo, “ele quebrou com o bebop pois estava farto de tocar tantas notas e assim nasceu o cool jazz”, explica o músico Aurélien.

Miles Davis acabou por se apaixonar pela bailarina e atriz Frances Taylor. Ela era uma musa e uma inspiração para o artista e deu-lhe a estabilidade e o amor necessários, numa altura em que produziu algumas das obras mais inovadoras e populares. Frances foi a pessoa com quem Miles esteve mais tempo, no entanto, a relação contou com alguns episódios de violência por parte do músico, que levaram ao término.

Davis voltou a Paris em 1956, desta vez para fazer a banda sonora do filme Fim de Semana no Ascensor, de Louis Malle. Contudo, o artista não escreveu a música, decidindo antes tocar o tema inteiro diretamente para a projeção da longa-metragem, por reação às imagens que via.

O ano de 1959 foi o ano em que a história do jazz mudou, com o lançamento da masterpiece de Miles Davis – Kind of Blue é o álbum que vendeu mais cópias na história do género. Segundo Aurélien, “Kind of Blue foi o momento em que Miles quebrou com as regras do jazz tradicional e começou a trazer coisas do clássico e a improvisar e assim nasceu o jazz modal”.

Este álbum significava uma forma diferente de pensar na música, de tocar e abordar a música. “Kind of Blue é aquele disco que todos os músicos de jazz sabem tocar solos, é um disco mais acessível, porque não tem tantas notas nem tantos acordes. É um disco que trouxe novas pessoas para o jazz, mesmo pessoas que não entendem a parte técnica vão encontrar alguma coisa naquele álbum. É um disco consensual”, afirma o músico.

Das colaborações até ao jazz eletrónico

Entre o final da década de 50 e o início da década de 60, o artista gravou uma série de álbuns, retomando a colaboração com Gil Evans. Miles Ahead foi o primeiro, resultado da colaboração com Evans e uma orquestra de 19 peças. Dois anos depois, foi lançado o álbum Porgy and Bess – que Miles admitiu ser um dos seu preferidos – e, passados novamente dois anos, saiu o Sketches of Spain, que o músico considerou uma das coisas mais difíceis que fez.

Depois de um período de paragem forçada, devido a problemas de saúde e consumo de cocaína, Miles Davis voltou em força em 1965, com um novo quinteto. Este era constituído por Wayne Shorter (saxofonista), Herbie Hancock (pianista), Ron Carter (baixista) e Tony Williams (baterista) e juntos criaram uma forma de improvisar totalmente nova.

Segundo quinteto de Miles Davis
Segundo quinteto de Miles Davis | Fotografia: Wikimedia Commons

“Ele fazia questão de se rodear dos melhores músicos, mesmo sendo vozes emergentes e desconhecidas. E cada um dos músicos que tocou com ele viria a ter uma carreira de sucesso e eles próprios se tornaram uma referência no jazz”, reflete Aurélien. Isto e  “a capacidade de inovar sempre” são o que torna o Davis o “músico de jazz mais importante”.

No final da década de 60, o que estava na moda era o rock e o funk e o jazz parecia ter passado de moda. No entanto, Miles Davis não ia deixar que isso acontecesse. A cantora e compositora Betty Mabry, com quem casou em 1968, mudou totalmente a noção do cantor do que se estava a passar no panorama musical e, graças a ela, Miles conheceu alguns do maiores artistas da época, como Sly and the Family StoneJames Brown Jimi Hendrix.

A Betty foi uma grande influência na minha vida pessoal e musical

Davis percebeu que tinha de mudar de rumo para continuar a acreditar e a amar o que estava a tocar, pelo que começou a pensar noutras formas de abordar a música. Para tal, foi necessário uma restruturação da banda, que incluía a adição de novos sons, como um baixo eletrónico. Foi desta forma que nasceram os álbuns In a Silent Way Bitches Brew, que são as primeiras experiência de fusão entre o jazz e o rock.

Bitches Brew, lançado em 1970, foi o disco de Miles que vendeu mais depressa do que qualquer outro. De acordo com Aurélien Vieira Lino, a ideia para o álbum foi “juntar músicos numa sala e eles tocavam o que lhes vinha à cabeça. Foi uma coisa muito experimental, mas quebrou com as regras, como já era habitual no Miles, e por causa disso teve tanto sucesso”.

Miles Davis num concerto em 1974
Miles Davis num concerto em 1974 | Fotografia: Wikimedia Commons

Entre 1969 e 1975, foi lançada uma enorme sucessão de álbuns experimentais, que seriam o modelo para muitos outros géneros futuros, como o hip hop, o house, o drum and bass ou a música eletrónica. Durante este período, o artista estava a criar nova música e a agitar o contexto musical.

A decadência dos últimos anos

Depois do Festival de Jazz de Newport, em 1975, Miles retirou-se da indústria musical quase por completo. Deixou de tocar trompete e afastou-se de toda a gente para lidar com a dor. Muitas pessoas próximas do músico acharam que ele nunca mais tocaria, porque a sua saúde estava muito debilitada.

Sentia-me artisticamente esgotado. Não tinha mais nada a dizer musicalmente

No entanto, Cicely Tyson, com quem casou em 1981, ajudou-o a perceber que ainda tinha algo para oferecer à música. Assim, Davis recuperou mais uma vez do vício das drogas e voltou à cena musical com um novo entusiasmo. Por desentendimentos com a Columbia Records, decidiu mudar de editora e assinou pela Warner Brothers. Desta troca surgiu o primeiro álbum do músico a usar ferramentas modernas de estúdio, como sintetizadores programados, samples e loops de baterias: Tutu, que ganhou um Grammy em 1987.

Miles Davis faleceu a 28 de setembro de 1991, na Califórnia, vítima de acidente vascular cerebral, pneumonia e insuficiência respiratória. No entanto, a carreira artística que construiu tonou-o imortal. “Miles Davis é um músico incontornável: atravessou toda a história do jazz, esteve sempre na vanguarda, ou seja, sempre que há uma mudança, ele foi o impulsionador. Para quem estuda jazz, e não só, é a figura mais importante”, declarou com carinho o músico Aurélien.

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