Sex Education - Otis e Maeve
Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘Sex Education’ continua irreverentemente educativa

A terceira temporada de 'Sex Education' já chegou à Netflix e continua a surpreender pelas situações abordadas.

A terceira temporada de Sex Education chegou à Netflix na sexta-feira, dia 17 de Setembro. A produção britânica de Laurie Nunn volta a encantar os espectadores com a honestidade e naturalidade com que aborda diversas situações.

A terceira parte de Sex Education continua com o foco na vida de Otis Milburn (Asa Butterfield) e dos seus colegas na Moordale Secondary School, apesar de, desta vez, existir uma nova relevância de personagens adultos. A série, já conhecida pela forma como lida com temas normalmente considerados tabu, continua no caminho de esclarecimento e abertura em relação à sexualidade dos adolescentes, mas também das suas relações e dilemas.

*O texto que se segue contém spoilers da terceira temporada de Sex Education*
Sex Education T3 Netflix
Fotografia: Sam Taylor/Netflix

A nova parte da trama adolescente tem início três meses após o final da anterior, depois das férias de verão. Logo à partida, descobrimos que Otis deixou o negócio da clínica de conselhos sexuais e que mantém agora uma relação de sexo casual com Ruby (Mimi Keene). Já Maeve (Emma Mackey) tornou-se mais próxima de Isaac (George Robinson) e do seu irmão e Amiee (Aimee Lou Wood) está a tentar resolver os problemas da relação com Steve (Chris Jenks).

Por sua vez, Eric (Ncuti Gatwa) está a navegar na nova relação com Adam (Connor Swindells), que se encontra a lidar com o facto de todos os seus colegas saberem a sua orientação sexual. No mundo dos adultos, Jean (Gillian Anderson) decidiu levar a cabo a gravidez e Maureen (Samantha Spiro) e Michael (Alistair Petrie) estão em processo de divórcio.

O navegar de diferentes relações

Se há algo em que a terceira temporada de Sex Education se foca é nas novas relações das personagens, sejam elas adolescentes ou adultos. Não só vemos Otis a tentar perceber se é o tipo de pessoa que consegue manter uma relação casual, como também percebemos que Aimee está a tentar manter uma relação séria com Steve e que tal já não está a funcionar.

Também Adam está a começar a lidar não só com a sua sexualidade, mas também com o facto de estar numa relação e o tipo de comunicação que isso exige, algo a que não está habituado. Lily (Tanya Reynolds) e Ola (Patricia Allison) parecem ter de longe a relação mais saudável, até percebermos que a última não tem sido completamente honesta com a parceira, algo que começa a trazer constrangimentos à relação.

Sex Education T3 Netflix
Fotografia: Sam Taylor/Netflix

No que diz respeito a Jean, após decidir contar a Jakob (Mikael Persbrandt) sobre a gravidez, decide que quer que o futuro filho tenha um pai e decide experimentar uma estratégia de co-parenting. No entanto, torna-se óbvio que ainda gosta de Jakob, o que faz com que voltem a ter uma relação pautada pela falta de confiança e conhecimento um do outro. Maureen também tem um novo namorado, mas rapidamente entendemos que se trata de uma relação apenas física e que não existe nenhuma ligação emocional.

Esta é uma faceta nova da série da Netflix, que até ao momento lidou mais com o antes das relações do que propriamente com o depois. Ainda que Otis tenha ajudado vários casais e muitas vezes lhes tenha mostrado que precisam de comunicar, estes processos eram mais utilizados como mostra do desconhecimento sexual dos adolescentes do que propriamente do seu desconhecimento emocional.

A nova temporada acaba assim por trazer uma faceta mais sentimental e ligada à confiança e honestidade necessária para manter uma relação. Isto é particularmente percetível no caso de Eric, que não é completamente honesto consigo próprio, e no caso de Otis e Ruby, quando o rapaz percebe que é preferível admitir que não gosta tanto da namorada como ela gosta dele.

O normalizar da terapia

Sex Education sempre teve uma forma leve de lidar com temas pesados e de mostrar à audiência que até os acontecimentos que pareçam menos significantes podem ter um grande impacto. Isto aconteceu já na temporada anterior, quando Aimee é assediada no autocarro e finge que não se importou e que tudo está bem, quando na verdade foi algo que a traumatizou e impediu de continuar a andar de autocarro.

Sex Education T3 Netflix
Fotografia: Sam Taylor/Netflix

Nesta nova temporada, a personagem de Aimee Lou Wood percebe que não está a lidar bem com o que aconteceu e procura ajuda, neste caso na forma de Jean Milburn. Através das sessões, a jovem começa a interiorizar que não teve culpa do que lhe aconteceu e a perceber que se foi tornando numa pessoa diferente e que é tempo de ser honesta consigo própria.

Ainda que devido a diferentes circunstâncias, e mais por coincidência do que por qualquer outra razão, Michael acaba por ter uma consulta com a mãe de Otis. Através dessa sessão, o rapaz percebe que a atitude que tem perante os seus sentimentos e a forma como interage com a família tiveram origem na educação que recebeu e são utilizados como uma forma de se proteger. Jean e Jakob decidem também fazer terapia em conjunto, de forma a perceber qual a melhor abordagem ao estilo de família que decidiram adotar, e estão de facto a tomar as melhores decisões e a comunicar de forma adequada.

Existe uma linha comum em todos estes pontos do enredo: o normalizar da terapia. Isto é algo que vinha a ser mostrado nas temporadas anteriores, através da clínica e da procura da mesma por adolescentes para poderem esclarecer as suas dúvidas, mas na nova parte vemos um procurar de ajuda especializada e a forma como isso é benéfico em diversos tipos de situações. Acaba por existir um desviar da terapia sexual e passa a existir uma representação das diversas áreas em que a terapia pode ajudar cada um a entender-se a si próprio e a melhorar as suas relações com os outros. Apesar de isto ser algo que se tem vindo a tornar mais comum na televisão, Sex Education faz um ótimo trabalho a mostrar esta realidade com o equilíbrio perfeito de seriedade e leveza.

Aceitação continua a ser tema fundamental

Apesar de também este ser um tema já abordado por Sex Education, esta continuação aprofunda imenso a vergonha internalizada de algumas das personagens, seja porque motivo for. Começamos por ser expostos à temática através de Ruby, que tem vergonha da sua classe social e não quer que os amigos descubram que não é rica. Também Adam tem de lidar com a vergonha que sente pela sua orientação sexual e, apesar de esta ser mais facilmente ultrapassada na escola, o rapaz continua com uma certa vergonha de contar à mãe ou de sair com Eric.

Fotografia: Sam Taylor/Netflix

Contudo, um dos melhores exemplos no que toca à aceitação é Lily, que é envergonhada pela diretora da escola por causa dos seus gostos e fantasias. A jovem acaba por ser ainda mais afetada por ser obrigada a acreditar que tem interesses anormais e que estes são uma vergonha para a escola. A série faz um ótimo trabalho a lidar com a situação, já que lhe atribui a gravidade e consequências que merece.

Lily acaba por desabafar com Otis e, apesar de decidir voltar à escola, a única coisa que a faz sentir-se melhor é perceber que alguém gostou da sua arte e tem os mesmos interesses que ela, o que lhe prova que não é assim tão diferente. No fundo, existe uma representação daquilo que a humilhação pode representar para o desenvolvimento e para a vida dos jovens, algo que continua a ser necessário.

Talvez uma das situações menos óbvias seja a da diretora Hope (Jemima Kirke), que eventualmente admite a vergonha que sente por não conseguir engravidar e pelo facto de o seu corpo “não fazer o que é suposto fazer”. Ainda que não seja possível ajudá-la diretamente, a conversa que Otis tem com ela é reveladora da perspetiva que deveríamos adotar – não há nada de errado em ser vulnerável e isso não faz de nós fracos, mas sim corajosos por admitir essas vulnerabilidades.

Questões de identidade é estreia no leque de temáticas

A terceira temporada de Sex Education decidiu abordar algo que até agora não tinha focado. Apesar de a série já ter lidado com questões de orientação sexual, a identidade foi um tema menos destacado.

Na nova parte, Eric visita o país de origem, a Nigéria, para estar presente num casamento. Existe um pequeno senão: os direitos LBGT não são reconhecidos na Nigéria e ser homossexual é ilegal. Isto faz com que o rapaz tenha de esconder quem é da família e dos restantes convidados do casamento, até que conhece um rapaz que também pertence à comunidade e vai com ele a uma discoteca gay. Eric percebe então que se sente livre rodeado de pessoas da mesma comunidade e que isso é parte da sua identidade, ainda que ser nigeriano seja outra parte importante de quem é. Esta realização acaba por o fazer acabar a relação com Adam, por sentir que precisa de se sentir livre.

Fotografia: Sam Taylor/NETFLIX

Outro dos exemplos é Cal (Dua Saleh), uma nova personagem não binária. Cal sofre de discriminação por parte da diretora da escola, não só no que diz respeito ao uniforme (já que não se sente confortável com roupa justa), mas também em relação aos balneários e às aulas de educação sexual, onde obrigam a que se junte às raparigas. A diretora insiste que Cal não respeita as regras e se recusa a vestir o uniforme corretamente, quando o que está a acontecer é uma falta de respeito pela identidade dos estudantes.

A mesma situação volta a surgir quando Cal se envolve com Jackson (Kedar Williams-Stirling) e tem de lhe explicar que se decidirem começar uma relação esta será uma relação queer, já que é uma pessoa não-binária e não uma rapariga. É assim que percebemos que ainda que Jackson respeite os pronomes e a identidade de Cal, existem situações em que não entende que não está com uma rapariga e sim com uma pessoa não binária. O rapaz acaba por perceber que não está pronto para essa relação, algo mostra que finalmente percebeu que não pode ver uma relação com Cal como veria com uma rapariga.

Este tipo de representatividade é de extrema importância, especialmente quando mais e mais pessoas se começam a sentir confiantes para assumir as verdadeiras identidades. Sex Education mostra que existe ainda muito trabalho a ser feito e explora as adversidades que se podem encontrar no caminho para sermos nós próprios.

Falhas no enredo e situações desnecessárias

Apesar da série britânica ser extremamente esclarecedora e ainda mais divertida, não é de todo perfeita. A nova temporada toca em tópicos super importantes, mas acaba por deixar um pouco para trás algo que é necessário para manter o interesse de uma produção: o enredo.

Fotografia: Sam Taylor/NETFLIX

A continuação, em termos de enredo, parece quase uma cópia exagerada das anteriores. Temos uma diretora malvada a um nível extremo, que quer retirar toda a criatividade e individualidade dos alunos, impor a abstinência e ignorar as preocupações dos estudantes- tudo coisas que sabemos à partida que não funcionam. Quase parece que não existia mais nenhuma ideia para levar a história para a frente, por isso decidiram reciclar a personagem de Michael, mas torná-la ainda pior – pelo menos o antigo diretor não fechou alunos em salas, nem os obrigou a cortar o cabelo ou a ouvir palestras homofóbicas. No fundo, é algo que já vimos mas amplificado e, tendo em conta a qualidade que a série tem vindo a demonstrar, esperávamos mais.

Algo que começa também a tornar-se cansativo é a relação de Otis e Maeve. Já todos percebemos que o objetivo da série é que fiquem juntos, mas no caminho para lá chegar acabaram por tornar a relação das personagens completamente intragável. Não só ficamos a saber que não interagiram durante todo o verão, como também mal interagem durante a temporada, até que finalmente a rapariga admite que descobriu que Otis lhe deixou um voicemail.

Do nada os personagens estão de novo apaixonados, quase como se nada se tivesse passado e não tivessem passado meses sem falar. Para além disso, e ainda que isso mude no fim da temporada, Otis tornou-se uma pessoa quase amarga e egoísta, mas assim que percebe que tem uma hipótese com Maeve, isso volta a alterar-se. Ainda que o personagem de Asa Butterfield admita que quer voltar a ter a clínica e que isso não é só por causa da rapariga, o que vimos ao longo da temporada não reflete isso. Já Maeve, que sempre teve dificuldade em criar conexões com outras pessoas, torna-se mais fechada ainda e recusa-se a deixar quem quer que seja ajudá-la. Claro que no fim da nova parte tudo muda, mas isso não torna a personagem mais agradável ao longo dos episódios.

No fundo, Sex Education é uma série importante e esta nova temporada trata de novos temas cada vez mais essenciais. A série mantém o tom divertido e ao mesmo tempo informativo e a maioria das personagens continuam a ser interessantes e a trazer novas temáticas e situações comuns a muitos adolescentes e jovens adultos. Esperemos que, em caso de renovação, se tentem focar um bocadinho em enredos um pouco mais originais. Em todo o caso, a terceira parte acompanha o nível das anteriores e vai, com certeza, deixar-nos à espera de mais.

Sex Education - Otis e Maeve
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