Ruth Bader Ginsburg. Uma vida dedicada à luta pela igualdade de género

A juíza do supremo tribunal americano deixou-nos há um ano, no entanto, a sua contribuição para a forma como as mulheres são vistas perante a sociedade é eterna.

Ruth Bader Ginsburg, também conhecida como RBG, foi apenas a segunda mulher a chegar ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, onde permaneceu durante 27 anos em funções. Um ícone feminista e uma pensadora profunda, Ginsburg dedicou a vida à luta pela igualdade de género e a mudar a forma como o mundo vê as mulheres. 

De Brooklyn para a luta feminista

Ruth Bader nasceu em 1933 em Brooklyn, no seio de uma família de imigrantes judeus e, embora os pais não fossem muito ligados à religião, fizeram questão de que ela frequentasse a sinagoga. A mãe morreu quando Ruth tinha apenas 17 anos. No entanto, deixou-lhe dois ensinamentos: “sê uma dama, mas sê independente”, ou seja, pediu-lhe que ela não se deixasse levar por emoções inúteis como a raiva e que fosse sempre capaz de se defender sozinha, sem precisar de nenhum homem – algo que a rapariga tentou seguir durante a vida.

Ruth foi estudar para a Universidade de Cornell, em Nova Iorque, onde conheceu Martin Ginsburg, com quem viria a casar no final da faculdade. “Foi o primeiro homem que conheci que valorizou o facto de eu ter um cérebro”, disse carinhosamente sobre Martin, no documentário RBG.

Em 1956, Ginsburg decidiu estudar direito na Universidade de Harvard, onde foi uma das nove mulheres numa turma com mais de 500 homens. Destacou-se como uma excelente aluna e tornou-se assim na primeira mulher a participar na prestigiada revista de direito, Harvard Law Review. Quando estava no segundo ano de faculdade, Martin adoeceu com cancro e Ruth teve de cuidar dele, da filha de dois anos e ainda estudar e ajudar o marido com os estudos dele. Desta forma, aprendeu a trabalhar exaustivamente durante o dia e também durante a noite, algo que manteve ao longo dos anos.

Ruth Bader Ginsburg RBG
Ruth Bader Ginsburg e Martin D. Ginsburg

Mais tarde, quando Martin foi contratado por uma empresa de advocacia em Nova Iorque, Ruth transferiu-se para a Universidade de Columbia, onde em 1959 se formou em Direito como uma das melhores alunas da turma, no entanto, viu o seu excelente currículo ser rejeitado por todas as empresas de advocacia onde procurou emprego. Foi então que percebeu que ser mulher era um impedimento. Acabou por ir para a academia em 1963, onde começou a dar aulas na Escola de Direito da Rutgers e, inspirada pelos alunos, aceitou dar um curso de género e lei.

Durante os anos 70, nos Estados Unidos, as mulheres não tinham direitos iguais aos dos homens nem igual reconhecimento perante a lei. Havia milhares de leis em todo o país que discriminavam com base no género, de modo a que as mulheres se revoltaram e foram para a rua reclamar. Contudo, isso não era algo que Ruth Bader Ginsburg fizesse. A mulher preferia usar as habilidades que tinha para fazer a diferença. Assim, foi cofundadora da Women’s Rights Law Reporter, o primeiro jornal de direito americano a focar-se exclusivamente nos direitos das mulheres, e trabalhou ainda como coautora do primeiro livro de estudos sobre discriminação sexual.

Uma carreira onde devagar se vai ao longe

A partir deste momento, RBG começou a lidar com casos de discriminação de género. Aproveitou cada um deles para construir a ideia da necessidade de igualdade de género e como esta beneficia toda a sociedade.

O primeiro argumento que Ginsburg defendeu perante o Supremo Tribunal foi o caso Frontiero v. RichardsonSharon Frontiero pertencia à força aérea e percebeu que os colegas que eram  casados recebiam um subsídio de alojamento ao qual ela não tinha direito, pelo simples facto de ser mulher. No tribunal do Alabama, Frontiero perdeu o caso e então passou para o Supremo Tribunal. Ruth entrou em ação e construiu um argumento muito completo e abrangente, traçando um retrato das mulheres e de como era ser tratado como um cidadão de segunda categoria. Ao tentar mostrar aos juízes que a discriminação baseada no género existia, a advogada ganhou o caso.

Ruth com o Presidente Jimmy Carter
Ruth com o Presidente Jimmy Carter

O segundo caso que Ruth Bader Ginsburg defendeu no Supremo Tribunal foi em 1975, quando um homem viúvo foi impedido de aceder a um benefício social que uma mãe viúva teria para conseguir criar o filho recém-nascido. Ganhou o caso por unanimidade e este foi o exemplo perfeito de como a discriminação baseada no género prejudica toda a sociedade. Dos seis casos que arguiu perante o Supremo Tribunal dos Estados Unidos, Ruth ganhou cinco.

Em 1980, RGB foi nomeada para o Tribunal de Recurso do Distrito de Columbia pelo presidente Jimmy Carter, com o objetivo de criar uma administração mais representativa da sociedade. Para exercer o novo cargo, a juíza teve de se mudar para Washington D.C. e o marido, mesmo sendo um advogado fiscal bem sucedido em Nova Iorque, foi com ela. Martin sempre permitiu que Ruth fosse quem ela era, ou seja, uma pessoa relativamente reservada e séria, que teve total liberdade para se concentrar no trabalho.

Do Supremo Tribunal até ao estrelato na internet

A juíza ganhou a fama de centrista e acabou por votar muitas vezes ao lado dos conservadores, uma postura que manteve nos primeiros anos no Supremo Tribunal, cargo que ocupou a partir de 1993, por nomeação de Bill Clinton. Esta nomeação foi muito impulsionada por Martin Ginsburg, que fez um campanha fortíssima para que o nome de Ruth fosse, pelo menos, considerado. Quando a mulher foi à entrevista com o presidente Clinton, ele declarou que, “em 15 minutos de entrevista, estava decidido que Ruth seria a escolhida, pela discussão honesta que tiveram sobre qual o melhor caminho para praticar a lei, tanto no presente quanto no futuro”.

Ruth com o Presidente Bill Clinton
Ruth com o Presidente Bill Clinton

Ruth Bader Ginsburg foi a segunda mulher na bancada do Supremo Tribunal americano e, na audiência de confirmação, aproveitou para fazer um longo discurso de apoio ao direito ao aborto, continuando assim a lutar pela consciência de que as mulheres não podem ser excluídas com base no género e conseguiu mesmo que algumas leis fossem alteradas. A eleição de George W. Bush, em 2006, levou à entrada de dois juízes conservadores para o Supremo Tribunal, o que fez com que Ruth percebesse que tinha de exercitar a sua voz dissidente, no entanto, sendo a maioria conservadora, a sua opinião acabou muitas vezes por ser derrotada.

Mesmo assim, a acérrima defesa da igualdade de direitos e os incríveis argumentos com que defendia as suas posições com longas pausas tornaram Ruth Bader Ginsburg num ícone liberal e estrela da internet pelo mundo inteiro. O meme “Notorious RGB” (como o rapper Notorious BIG) foi criado no Tumblr em 2013 por uma estudante de direito e levou Ruth até uma nova geração que, através da paixão da juíza, percebeu a importância do Supremo Tribunal na vida quotidiana.

A 18 de setembro de 2020, Ruth Bader Ginsburg acabou por falecer em Washington D.C., vítima de cancro. Hoje em dia, é mais fácil darmos por garantida a posição que as jovens mulheres podem ter na sociedade e isso deve-se muito ao trabalho desta feminista, cuja luta contra a discriminação de género é eterna.