Fotografia: Inês Lacerda

Festival Nossa Lisboa. Duas noites a celebrar a multiculturalidade

Os dias 10 e 11 de setembro ficaram marcados pelo nascimento de um novo festival, o Festival Nossa Lisboa. Duas noites repletas de música, com 18 concertos em três palcos na Altice Arena e um cartaz composto exclusivamente por artistas residentes em Lisboa.

Apenas sete minutos depois da hora marcada, Cubita já estava no Palco Ermelinda Freitas para abrir o Festival Nossa Lisboa, que celebra a multiculturalidade e capacidade de integração da cidade de Lisboa. Os lugares nas cadeiras em frente ao palco já estavam completamente ocupados (cumprindo a distância de segurança) e as pessoas foram-se sentando na Escadaria da Altice Arena. Cubita é o nome artístico de Nádia Gonçalves. Nasceu em Portugal e tem origens angolanas. De poucas palavras, a jovem impôs a sua presença através do seu olhar intenso, timbre forte e a sonoridade urbana com ritmos africanos das suas músicas.

Fotografia: Inês Lacerda

Esteve sozinha em palco até à quarta música, quando se juntou Scardinni (também guitarrista dos Calema) à guitarra acústica para duas atuações mais intimistas: o mais recente single ‘2AM’ e ‘Tu És’. Na audiência, viam-se algumas palmas e algumas tentativas de balançar o tronco nas cadeiras.

A Sala Tejo foi estreada por Toty Sa’ Med, às 19h30, meia hora após o começo do Festival Nossa Lisboa, assim que terminou o concerto de Cubita. Mais falador, este artista conversou com o público sobre a sua “ligação a Lisboa que é inegável”, não esquecendo a sua paixão por Luana. O mote do seu concerto foi, tal como apelou antes de atuar o seu tema ‘Cá Luana’, “Vamos fazer essa ponte aérea Luana-Lisboa.”

A contextualização das músicas e das letras e do storytelling, antes de cada atuação, foi constante nesta sua passagem pelo Festival Nossa Lisboa. Ao introduzir o tema ‘Namoro’, explicou a “famosa história do Benjamim que teve muita paciência para conquistar a sua amada” como história que conta nesta sua música, a partir do poema de Viriato Cruz. Apesar de confessar que “não teria a paciência do Benjamim”, emocionou o público, sobretudo no final em que, após vários versos sobre a insistência do personagem em pedir a sua amada em namoro e vários “ela disse que não”, terminou com um “ela disse que sim”.

Fotografia: Inês Lacerda

Irma atuou na Escadaria às 19h55, hora marcada. Conquistou o público pela doçura da sua voz e das suas letras. Começou a entrar cada vez mais gente no recinto, durante a sua atuação, para surpresa da artista que agradeceu a presença de todos. Antes de cantar ‘Não vás’ fez uma sugestão que deixou o público curioso “Esta música é para dançar e pensar um bocadinho”. “Se demorares eu vou-me embora. A vida é meia hora. Eu gosto muito mais de mim” canta Irma neste tema.

Fotografia: Inês Lacerda

“Achava que nunca ia fazer um álbum na vida. Somos sempre mais capazes do que aquilo que achamos” , desabafou antes do tema ‘Alfazema’ em que canta “Não sei do que vivo, mas sei quem sou.”

A dupla de irmãos Calema estreou o palco principal do festival, o Palco Arena, às 20h30 do dia 10. Muito interativos com o público, os irmãos foram revelando alguns segredos de storytelling entre as músicas. Fradique dedicou o êxito de 2020 ‘Abraços’ “a todas as pessoas que não podemos abraçar”. Escrita antes do começo da pandemia, o cantor contou como a canção se veio a revelar tão adequada ao momento que enfrentamos.

Fotografia: Inês Lacerda

Os lugares eram sentados e marcados, mas o público teve dificuldade em mantê-los à medida que o ritmo dos Calema foi aquecendo o ambiente. À sexta música, ‘Presa’, a plateia já estava praticamente toda de pé. Ainda assim, conforme o organizador Luís Montez, a escolha dos artistas teve em conta estas regras impostas pela DGS devido à pandemia da covid-19. “Estar sentado a ouvir um DJs é uma tortura. Ritmos como kuduro e eletrónicos evitei porque as pessoas vão ter de estar sentadas”, esclareceu o promotor. Apesar de se levantarem das cadeiras, as distâncias não foram violadas e de cada vez que alguém saía do seu lugar e ocupava o corredor, era alertado pelos seguranças.

Fotografia: Inês Lacerda

O concerto do duo contou com a forte presença em palco dos irmãos e um grande staging com fundos coloridos e étnicos. Entre várias mensagens de esperança e apreço pela dedicação dos fãs, salientaram a importância deste novo festival ao qual chamou uma “junção da língua da cultura lusófona”.

Mayra Andrade surgiu no palco do Festival Nossa Lisboa com o seu cabelo negro todo ele em tranças e um longo vestido branco de mangas compridas e colarinhos. Na parte de trás da saia, tinha escrita em letras maiúsculas a frase de Nina Simone “How can you be an artist and not reflect the times?”.

Fotografia: Inês Lacerda

O público tentava mexer-se com pequenos passinhos e sabia as letras de cada vez que apontava o microfone na sua direção. Mayra distinguiu-se pela forte atitude e genuinidade e também alguns statments, como o discurso feminista antes da canção ‘Manga’ que dedicou a todas as mulheres, salientando “o nosso direito de sermos nós na nossa “inteireza”, de amar, deixar de amar e voltar a amar quem nós quisermos”.

No segundo dia de festival,  Nelson Freitas não escondeu a felicidade em voltar a cantar para os fãs ao vivo. “Eu fiz muitos lives do Instagram, mas nada é igual a ver essas caras bonitas” disse para grande exaltação do público na Altice Arena. Nelson marcou pela sua presença em palco, com os seus típicos pequenos passos e movimentos de braços durante todo o concerto. O artista brincou com algumas das suas músicas trocando as letras por “eu quero saber se vocês estão bem”, às quais o público reagia com gritos de entusiasmo.

Fotografia: Inês Lacerda

O público apoiou o artista em peso. De cada vez que cantava o título do seu êxito ‘Bo tem mel’ e ficava em silêncio, podem ter a certeza que a plateia da arena sabia a letra e continuava “para me dominar assim só podes ter mel”. Na música seguinte, ‘Nubian Queen’, os ânimos acalmaram, mas continuaram os braços no ar e as mãos em forma de coração. A sua set list contou também com ‘Break of dawn’.

Valete representou o hip hop tuga neste festival. Os maiores fãs cantavam por dentro da máscara enquanto faziam o famoso movimento de hip hop com o braço para cima e para baixo. O rapper confessou à sua plateia da Sala Tejo “Eu estou a viver os melhores anos da minha vida. Eu estou bem mentalmente. Eu estou bem psicologicamente”.

Fotografia: Inês Lacerda

O maior nome do cartaz foi Ana Moura e atuou como 18.º e último concerto dos dois dias de festival. Assim que se começaram a ouvir os primeiros acordes introdutórios dos vários instrumentos de cordas e precursão, instantaneamente se começaram também a ouvir as palmas do público ansioso para assistir ao espetáculo. Os instrumentos pararam de tocar por momentos, as luzes apagaram-se e a silhueta de Ana Moura surgiu do escuro no centro do palco. Apenas as guitarras portuguesas se faziam ouvir agora. Após breves momentos de aplausos que a cantora agradeceu colocando a mão ao peito e sorrindo, fez-se silêncio para se cantar o fado. Com os primeiros versos sendo “De São Paulo de Luanda / me trouxeram para cá”, a primeira canção foi ‘Calunga’ de Amália Rodrigues.

Fotografia: Inês Lacerda

Ana Moura agradeceu o convite feito para participar no festival e elucidou a plateia acerca da temática das canções escolhidas para a noite, inspiradas na Comunidade de Países de Língua Portuguesa. “É um concerto muito bonito que vocês vão ver” confessou, seguindo-se mais temas fora do seu reportório como ‘’M cria ser poeta’ do cabo-verdiano Paulino Vieira.

A quarta música foi o seu primeiro tema original da noite, ‘Jacarandá’, durante o qual demonstrou alguns movimentos de anca inspirados em kizomba, que se seguiu de outra canção que lançou em 2021. O êxito ‘Andorinhas’ levou toda a arena a bater palmas e com o pé ao ritmo da nova sonoridade que mistura sons urbanos com as raízes do fado da artista.

Depois de um intervalo de alguns minutos de instrumental de guitarras portuguesas, guitarra elétrica e o solo de Manecas Costa, Ana Moura regressa ao palco cantando em crioulo ‘São Vicente di longe’ e ‘Petit pays’ de Cesária Évora. Da sua set list fizeram parte também os seus novos temas originais ‘Vinte Vinte (Pranto)’ e ‘Arraial Triste’.

A cantora apresentou cada membro da banda e despediu-se da arena. O público aplaudiu em força e gritou por mais uma, o que fez a banda regressar para repetir o hino à liberdade ‘Andorinhas’. Ana Moura disse “toda a gente a dançar” e o público obedeceu, terminando assim a primeira edição de um festival que representa a abertura da capital portuguesa a diferentes culturas de várias origens que se reúnem e residem na cidade de Lisboa, e que a organização espera que seja “o primeiro de muitos”.

Na fotogaleria, estão alguns momentos que marcaram as duas noites.

Texto de Bruno de Azevedo e fotografias de Inês Lacerda.