The Watcher (Jeffrey Wright) em What If da Marvel
Imagem: Disney

Entrevista. Paul Lasaine sobre ‘What If…?’: “Nós importámos tudo (do MCU) e demos o nosso toque”

Paul Lasaine, o designer de produção de 'What If...?', partilha as inspirações por detrás do estilo visual da série e muito mais.

Desde a chegada do Disney+, What If…? da Marvel foi dos projetos mais intrigantes entre fãs. É uma série de animação estilo-antologia que, tal como a banda desenhada do mesmo nome, nos leva a revisitar eventos marcantes do MCU, cada um deles com um twist hipotético que os diferencia daquilo que vimos no cinema.

Desde Peggy Carter a tomar o lugar de Steve Rogers no programa super-soldado em 1943, a um Doctor Strange cuja motivação é prevenir uma morte inevitável em vez de recuperar a sua destreza e sentido de identidade, em cada episódio somos convidados pelo Watcher (Jeffrey Wright), ao estilo de The Twilight Zone, a ver as histórias novas que disparam destas alterações à continuidade do MCU.

Assim, cada capítulo teve a tarefa de não só recriar estas cenas e ambientes dos filmes, desta vez num novo estilo de animação, mas também de expandir o MCU para novas possibilidades.

O Espalha-Factos teve a oportunidade de falar com Paul Lasaine, o designer de produção de What If…?, sobre a experiência de trazer o MCU para a animação, o estilo visual da série e o processo por detrás da concretização de um local nunca antes visto nos filmes.

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Nos ombros do “MCU”

Tipicamente numa série de animação, o departamento de design de produção está encarregue de concretizar a visão de todo o mundo em que estamos imersos. Em What If…?, cada episódio incorpora o trabalho já feito pelos cineastas para o filme.

Paul destaca a relação com o material-fonte como sendo fundamental. “Nós tínhamos uma TV que estava literalmente a dar os filmes 24 horas por dia num ciclo constante porque é extremamente importante conhecer a história e a cultura deste universo. (…) Mas porque a nossa versão de ‘What If…?’ é especificamente sobre o MCU, por contraste aos volumes ‘What If…?’ na banda desenhada, percebemos que é até mais importante estar mesmo por dentro do MCU mais do que dos ‘comics’ em si.”

Thor em What If da Marvel
Imagem: Disney

Mesmo num sentido mais prático, Paul considera que esta ligação aos filmes do MCU foi “uma salvação”. “Para quem está familiarizado com o processo de conceber um mundo, é algo que leva anos. Nós temos normalmente seis semanas por episódio, então trazemos o máximo de informação que já foi criada para os filmes, incluindo design de produção, de cenários, adereços, figurinos, todo o tipo de coisas. Nós importámos isso tudo e demos o nosso toque”.

“Obviamente, existem alguns episódios mais para a frente na temporada em que temos coisas (que não constam nos filmes) que tivemos de criar de raiz. Esses demoram um bocado mais porque temos de os conceber internamente, mas tem sido fantástico ter essa biblioteca gigantesca de design feita antes de nós”, refere.

Por detrás de uma nova localização

Estas localizações novas começam a sua vida nos guiões e storyboards para cada episódio, que informam as decisões da equipa de Paul ao concretizar o aspeto e layout de cada espaço.

”Existe muita descrição nos storyboards e no guião. Esse é sempre a base de apoio da equipa de design de produção. Os nossos storyboards até são bastante cinemáticos. (…) O nosso realizador, Brian Andrews, também é um fantástico artista de storyboard. Os desenhos dele, mesmo quando rápidos, transmitem o volume e a escala de um lugar, então acaba por ser fácil perceber em que direção é que nós vamos.”, afirma Paul.

Um destes locais surge no quarto episódio, onde é explorada uma versão alternativa da história que deu origem a Doctor Strange. Na sua procura por respostas, Strange chega a uma antiga biblioteca que não aparece no filme de 2016 sobre o herói feiticeiro.

Doctor Strange em What If da Marvel
Imagem: Disney

”Temos este local que tem milhares de anos. Começámos por pesquisar templos antigos, bibliotecas, falésias e montanhas, imensa referencia fotográfica de arquitetura de civilizações antigas, colunas, entradas…Apresentámos tudo isto ao realizador, uma gama bastante abrangente, e normalmente eles afunilam as possibilidades. E claro temos os nossos designers específicos. Ryan Magno foi o designer por detrás do interior da biblioteca. Apesar de termos esta descrição, a biblioteca foi muito da cabeça dele. Nós todos orientámos e contribuímos com ‘queríamos estas colunas, podemos inserir tudo numa caverna de calcário com estalagmites e estalactites, vamos tentar isso.’, para depois dizermos ‘Ah espera isso não funciona, vamos tentar com arenito’. Existe toda essa evolução e iteração para o design de cada local”, conta Paul Lasaine.

Um estilo de ilustração realista do universo Marvel

A relação intrínseca de What if…? com os filmes live action da Marvel Studios também influenciou a direção visual da série:

“As coisas no MCU têm um certo aspeto, e a série preserva isso.”

“Nós pensamos na nossa linguagem visual como uma extensão da figura dos nossos heróis. Eles são retos, são atléticos, parecem campeões de cross fit. São atletas essencialmente. Por isso, nada nos nossos designs é demasiado redondo ou infantil. É uma versão animada do MCU”, revela o designer de produção.

Ao nível de animação, a série adota um estilo mais realista que remete para a ilustração comercial americana dos anos 20 e 30, pouco comum na animação para televisão.

“Muito assentou no estilo de ilustração. Olhámos para (J.C.) Leyendecker, (Dean) Cornwell, Mead Schaeffer, os ilustradores americanos ‘cool’ dos anos 20 e 30.”

“Leyendecker foi o inicio, principalmente para os designers de personagens. Nós fizemos questão de acertar a linguagem de formas (de Leyendecker), e depois começámos a perceber que tínhamos de trazer isso para as personagens e para os ambientes.”

JC Leyendecker comparação com Doctor Strange
Esquerda: Poster J.C. Leyendecker / Direita: ‘What If…?, Imagem: Disney

A relação inerente ao mundo real dos filmes que estas personagens e cenários têm também se fez sentir na abordagem à identidade visual da série.

“Para o quão realista a série é, e é bastante realista pois segue um estilo cinematográfico que remete às filmagens reais, nós começámos com modelos 3D dos nossos cenários, e traduzimos isso para 2D para criar fundos pintados”, conta Paul.

Este processo foi feito para manter a perceção de profundidade e realismo geométrico dos fundos face aos elementos dinâmicos mais proeminentes como personagens, veículos e adereços. Mais uma vez, garantindo que os visuais, apesar de animados, não chocavam com a versão real.

Comparação Captain Carter e Capitão America MCU
Esquerda: ‘What If’ / Direita: ‘Capitão América: O Primeiro Vingador’
Imagens: Disney

“Tornou-se um híbrido muito interessante. Nós sabíamos que tínhamos uma série de restrições: os filmes do MCU, os cenários existentes, e um look básico de live action. (Mas) ao mesmo tempo nós sabíamos que queríamos dar um spin de animação nisso tudo.”

Criatividade remota

Apesar de ter começado ainda em 2019, muita da produção de What If…? foi ainda condicionada de forma incontornável pela pandemia da covid-19 e a mudança para o teletrabalho.

Embora os desafios do panorama atual sejam mais aparentes em produções live-action, onde há um trabalho de logística e saneamento acrescido durante as filmagens, esta nova circunstância também se fez sentir na primeira produção de animação da Marvel Studios.

“Até foi bastante difícil para mim. Sendo líder da equipa, torna-se difícil orientar a equipa sem estar presente. Foi como pastorear gatos. Existem dificuldades inesperadas. (…) Nós resolvíamos muitos problemas durante o almoço. Existe um certo nível de camaradagem que acontece quando estamos juntos durante o almoço ou a beber café e aqui não houve nada disso. Cada vez que queríamos falar com um artista era preciso agendar. Funcionou, mas não é a mesma coisa e eu pessoalmente achei tudo mais lento. Não éramos tão produtivos.”

No entanto, segundo Paul nem tudo foi mau:

”Sei que para os artistas foi ótimo! Podem acordar mais tarde, trabalhar de pijama, etc.”

What If…?, da Marvel Studios, está disponível no Disney+, com um episódio novo todas as quartas-feiras e já com segunda temporada confirmada.

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