The Countess MOTELX
Fotografia: MOTELX/Divulgação

MOTELX. O que têm em comum uma condessa do século XVI e uma serial killer americana?

'The Countess' e 'Monster' são dois dos filmes de destaque na secção Fúria Assassina: Mulheres Serial Killer da edição de 2021 do MOTELX.

A 15.ª edição do MOTELX Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa termina esta segunda-feira (13) e fica marcada pelo destaque a serial killers femininas, na secção Fúria Assassina: Mulheres Serial Killer. O Espalha-Factos esteve presente nas sessões de The Countess e Monster e não pode deixar de os destacar.

A edição deste ano do MOTELX destaca de forma propositada o papel da mulher nos filmes de terror não só como vítima, mas como protagonista assassina. Como os diretores do evento, João Monteiro e Pedro Souto, mencionaram, em conversa com o Espalha-Factos, “por não ser normal ver uma mulher neste papel, o objetivo da nova edição é o de provocar uma perturbação do olhar, que faz pensar o que são os últimos 100 anos, e permitir ao público pensar sobre isso também, porque está relacionado com o próprio género enquanto testemunha do momento”.

A secção Fúria Assassina: Mulheres Serial Killer é especialmente dedicada a este tema, contando com filmes como The Countess, de Julie Delpy (2009), Monster, de Patty Jenkins (2003), Audition, de Takashi Miike (1999), Baise-Moi, de Virginie Despentes Coralie Trinh Thi (2000), Office Killer, de Cindy Sherman (1997), e Serial Mom, de John Waters (1994). Depois de marcar presença nas sessões de apresentação dos dois primeiros, contamos-te tudo sobre os trabalhos da categoria do MOTELX que destaca a personagem feminina.

A história da Condessa Sangrenta

Estamos habituados a ver Julie Delpy em dramas e romances, como a trilogia de sucesso com Ethan Hakwe, Antes de Amanhecer (1996), Antes do Anoitecer (2004), Antes da Meia-Noite, (2013), do realizador Richard Linklater. Numa faceta que começa agora  a ser mais conhecida, a atriz tem adicionado à sua naturalidade na representação alguns filmes que dirigiu e escreveu. Para além de algumas curtas, Julie Delpy foi diretora das longas-metragens Looking for Jimmy (2002) e 2 Dias em Paris (2007). Desde terça-feira, dia 7 de setembro, faz também parte do catálogo da Netflix a série On The Verge, que retrata a vida de quatro mulheres que à entrada da segunda metade da sua vida se decidem reinventar.

Em todas estas obras, como atriz ou realizadora, estão presentes a expressão de sentimentos, o entendimento de relações e uma grande inteligência emocional. The Countess, a biopic com um toque de suspense e terror em que Julie interpreta magistralmente a condessa húngara Erzébet Báthory, não é exceção à regra.

A condessa húngara ficou conhecida para a eternidade como “a condessa sangrenta”. Entre tudo que não sabemos ser mito ou realidade, Erzébet foi a responsável pela tortura e morte de várias virgens na Hungria, por acreditar que o sangue das vítimas a ajudava a rejuvenescer e a ficar mais bela. Este desencadear hediondo de eventos tem na sua base um desgosto de amor com um homem mais novo, Istvan Thurzo, interpretado neste filme por Daniel Brühl.

The Countess MOTELX
Fotografia: MOTELX/Divulgação

A interpretação de Julie Delpy, por sua vez, transporta-nos para a angústia e desgosto desta mulher, habituada a enfrentar o medo desde pequena, devido à relação com a mãe, uma mulher fria e responsável por uma educação muito severa. Vários diálogos iniciais do filme deixam claro a ideia do que é a força para a Erzébet e também a forma fria como gere a casa e até exércitos, após a morte do marido. Fica desde logo claro que, para a condessa, o amor não representa uma fraqueza – e isso é talvez o maior motivo para se ver depois traída por ele. O desfecho da história, e a descoberta dos crimes e do uso do sangue como absolvição e salvação, chega a ser vista por algumas pessoas como inspiração para a personagem do Conde Drácula.

The Countess conta com várias personagens femininas e temas como a emancipação da mulher, a classe social, os preconceitos e as artimanhas que se sobrepõem à importância do amor, de sentimentos e da felicidade como algo que devemos alcançar. No final de tudo, a longa-metragem confronta-nos com a ideia de que nem sempre podemos controlar tudo na nossa história, principalmente quando falamos de amor.

Charlize Theron e o papel de uma vida

Seria inevitável que uma secção de filmes de terror do MOTELX não passasse pela “terra dos serial killers”, como mencionou João Monteiro na apresentação de Monster (2003), de Patty Jenkins, recentemente responsável pelo filme Wonder Woman 1984. A trabalho de Charlize Theron como Aileen Wuornos, uma das serial killers mais mediáticas do final dos anos 90 nos Estados Unidos, valeu-lhe o Óscar de Melhor Atriz em 2004.

Vítima de abusos durante a infância, Aileen Wuornos tornou-se prostituta ainda na adolescência. Quando se decide a acabar com a própria vida, conhece Selby (Christina Ricci) e, com ela, descobre também pela primeira vez o que é ser amada. Uma noite, após ser agredida por um cliente, Aileen comete homicídio em legítima defesa, um incidente que despoleta nela uma fúria assassina que a torna na primeira mulher serial killer dos Estados Unidos.

Monster MOTELX
Fotografia: MOTELX/Divulgação

Esta história real tornou-se mediática por parecer inusitado que uma prostituta seja a autora e não a vítima de crimes. No entanto, o que o filme de Patty Jenkins deixa também no ar é a questão: podemos, de facto, considerar esta mulher uma criminosa, sendo que o início dos crimes que cometeu começa num momento de autodefesa e resultado de todos os anos a viver calada em relação violações, violência e toda a espécie de perversidades? O problema que se destaca é que a vingança toma rapidamente conta da mulher, que perde toda a esperança de refazer a sua vida.

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Ambos os filmes, apesar de baseados em histórias de pessoas pertencentes a mundos tão diferentes, têm na base a procura pelo entendimento psicológico e emocional destas mulheres. As emoções das protagonistas são magistralmente levadas para o ecrã através do ponto de vista das realizadoras, o que torna estes trabalhos em destaques importantes da secção Fúria Assassina: Mulheres Serial Killer, da 15.ª edição do MOTELX.

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